Trump, o anticapitalista

Trump, o anticapitalista

O protecionismo, o unilateralismo e o desprezo ao multilateralismo reposicionam os EUA em rota de colisão com a ordem global construída no pós-guerra

Donald Trump é um ator político fora da curva. Empresário milionário controverso por seus métodos heterodoxos; apresentador do reality show “O aprendiz”, que o projetou como influenciador midiático; outsider político que dominou o Partido Republicano, transformando o conservadorismo clássico no atual populismo iliberal espalhafatoso; surpreendeu, nas eleições de 2016, derrotando Hilary Clinton.

Após a vitória diminuiu impostos dos mais ricos; fez do muro na fronteira do México o símbolo de sua posição xenófoba contra imigrantes; alterou o papel dos EUA no xadrez internacional, apontando para o famoso “América First”; combateu agressivamente o identitarismo; criou um estilo de presidência americana inédito: midiático, intenso, agressivo, intuitivo, sem qualquer compromisso com a verdade e uma prática avessa à institucionalidade democrática e aos ritos do poder.

Ao ver as estripulias de Trump é difícil imaginar que ele ocupa a cadeira onde já estiveram George Whashington, Abraham Lincoln, Franklin Roosevelt, Thomas Jefferson, Eisenhower, Jonh Kenedy, Ronald Regan, Bill Clinton e Barack Obama. A ascensão de Trump é radicalmente disruptiva em relação à história política americana.

Ele perdeu as eleições de 2020 para Joe Biden. E mostrando seu descompromisso com as tradições democráticas do país, tentou virar a mesa, manipular os resultados, confrontar a justiça, culminando com o estímulo aos seus seguidores para a invasão do Capitólio, inédita tentativa de golpe de Estado nos EUA.

Por incrível que pareça, os erros do Partido Democrata e do governo Biden foram tantos, que Trump conseguiu retomar a presidência dos EUA, em 2024. Voltou mais maduro e firme em seu estilo. Inaugurou um ciclo de intensa instabilidade e imprevisibilidade, nos EUA e em todo o mundo. Voltou mais radical, mais autoritário, mais agressivo.

O tradicional discurso “O Estado da União”, que o presidente dos EUA faz no Congresso, no início do ano, foi na última terça-feira. Nenhuma surpresa, Trump fez seu espetáculo radicalizando suas características: agrediu a oposição apontando para senadores e deputados democratas, chamando-os de loucos e impatriotas; constrangeu os ministros da Suprema Corte presentes, condenando como absurda a decisão soberana sobre o tarifaço; reafirmou suas convicções e mentiu sobre números e informações objetivas.

O capitalismo nasceu da dissolução da sociedade feudal e a partir da acumulação primitiva produzida pelo mercantilismo. Ergueu instituições democráticas; desencadeou salto exponencial na capacidade produtiva e na produtividade; integrou o mundo expandindo as comunicações e os transportes; após duas grandes guerras e o fim da Guerra Fria, apostou no multilateralismo, na globalização das relações econômicas com a integração das cadeias produtivas e o livre comércio. Fortaleceu organizações multilaterais como ONU, FMI, OMC, BIRD, OCDE, entre outras, como ferramentas para uma governança compartilhada diante de desafios econômicos, ambientais, militares, do mundo digital comuns a todas as Nações.

Trump quer destruir esta herança. É uma ameaça real ao mundo contemporâneo. Que os eleitores americanos nas eleições parlamentares de novembro sigam o exemplo da Suprema Corte e deem uma segunda trava na ousada e perigosa aventura liderada por Donald Trump.

Por Marcus Pestana

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