“Precisamos todos nos unir, ou certamente seremos todos enforcados separadamente.”
— Benjamin Franklin
A ruína encobre os céus e obscurece o chão, formando uma barreira de trevas entre os espíritos dos que habitam esse quadrante pátrio, cada vez mais ameaçado pelo encastelamento de facções em polos de intransigência absoluta.
“Um político divide os seres humanos em duas classes: instrumentos e inimigos.
— Friedrich Nietzsche
Não é nossa culpa. Ou não é toda nossa.
Somos, sim, culpados por não nos dedicarmos a entender para que serve a política. E para que serve?
Historicamente, a política começa a aparecer entre grupos humanos que deixam de ser caçadores-coletores e passam a viver em sociedades maiores (Revolução Neolítica, de 10 a 12 mil anos atrás, a chamada “Idade da Pedra”).
Com o aumento da população, da agricultura e da propriedade, surgem conflitos sobre:
• quem manda,
• como dividir recursos,
• como resolver disputas,
• como defender o grupo.
É nesse momento que nasce a necessidade de regras, autoridades e decisões coletivas — ou seja, a política.
Thomas Hobbes entendia que os homens vivem em “guerra de todos contra todos” e que a política (o Estado) surge como contrato para acabar com essa guerra permanente e garantir a paz.
Carl Schmitt, radical, dizia que a essência da política não é a paz, mas a distinção entre amigo e inimigo. Para ele, a política sempre carrega a possibilidade real de conflito.
Michel Foucault via a política como continuação da guerra por outros meios.” Relações de poder, instituições e leis são formas sofisticadas de dominação e combate, só que disfarçadas.
Hannah Arendt enxergava política como o oposto da violência. Dizia que quando a violência entra, a política acaba, mas reconhecia que a política quase nunca se separou completamente da força.
É ocioso, pois, pretender um congraçamento idílico permeando a inevitável disputa pela apropriação dos limitados recursos de qualquer nação, gerada pela concentração de poder e renda característica de qualquer sociedade sob qualquer fórmula de organização social e política.
Mas o que surge, quando políticos enlouquecidos pela sede de poder estimulam o ódio entre suas facções com vistas a se transformarem no braço forte delas, é a polarização insana que vai esgarçando o tecido social até as raias da imprevisibilidade…
Habitarmos o mesmo chão, sob o mesmo céu, não basta para que o capitão da indústria ou o senhor dos latifúndios decidam dar as mãos aos pés descalços, aos despossuídos, àqueles que os servem bovinamente.
Deles, tratam de tirar o suor até que saia tinto de sangue — se possível.
A expressão “pão e circo foi criada pelo poeta romano Juvenal no final do século I ou início do século II d.C. Ele escreveu, em latim, que “Duas coisas apenas anseia com ansiedade: pão e circo.”
Juvenal estava criticando o povo de Roma, na época do Império. Segundo ele, os cidadãos romanos tinham abandonado o interesse pela política, pela liberdade e pela participação cívica. Em troca, contentavam-se com duas coisas:
Pão → distribuição gratuita de trigo (o annona), uma espécie de assistência alimentar do Estado.
Circo → entretenimento de massa: jogos de gladiadores, corridas de bigas no Circo Máximo, espetáculos sangrentos e grandiosos.
Ocioso, igualmente, explicar mais: as Igrejas alimentam o espírito belicoso e a política reproduz os embates reais e sangrentos do Anfiteatro Flaviano (Coliseu Romano) lá nos desvãos da história.
Não existe vitória em guerra na qual o prêmio é a ruína de todos. E na guerra da política contemporânea, aqui e acolá, mundo afora, a ruína comum está contratada.
Quem haverá de ter olhos de ver, ouvidos de escutar e cérebros de pensar?
Por Eduardo Guimarães
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