Estilo paranoico de política: famílias Trump e Bolsonaro se assemelham, aponta Financial Times

Estilo paranoico de política: famílias Trump e Bolsonaro se assemelham, aponta Financial Times

A revista de fim de semana do jornal britânico Financial Times publicou uma longa reportagem de capa sobre a família Bolsonaro neste sábado, 26. A notícia também esteve na manchete do site da publicação ao longo do dia.

“Conheça os Bolsonaro: um clã tão radical quanto disfuncional. Oscilando entre o conservadorismo e o caos, eles praticam um estilo paranoico de política. Assim como a família Trump, eles incorporam o zeitgeist político dos anos 2020: o superficial e o sinistro, a fusão entre celebridade, rede social e a busca pelo poder”, descreve o material.

Assinado pelo jornalista Michael Pooler, o texto recebe o título “Scandal and succession in the House of Bolsonaro” (“Escândalo e sucessão na Casa dos Bolsonaro”, em tradução livre) e o subtítulo “Jair Bolsonaro está preso por planejar um golpe, deixando seu filho mais velho para disputar contra um antigo rival. Poderia a primeira família da direita radical do Brasil estar no caminho de uma volta por cima?”.

 O Brasil é definido como “uma peça importante na busca de Trump pela dominância do hemisfério” e, por isso, destaca o texto, as eleições de outubro tem importância para o público estadunidense.

Se Flávio Bolsonaro vencer a eleição “ele imediatamente vai pressionar o Congresso para garantir uma ampla anistia para os conspiradores do golpe e para os condenados pelo 8 de Janeiro, com o perdão presidencial como alternativa”, continua o texto, indicando que Jair Bolsonaro poderia retornar à corrida presidencial em 2030, “apesar de preocupações com a idade e a saúde fazerem esse prospecto parecer cada vez menos provável.”

Em caso de derrota, o Financial Times aponta “o fim da Era Bolsonaro”, o que “abriria as portas para uma direita mais moderada”. Isso, somado ao fato de o PT “não ter um sucessor óbvio de Lula”, poderia “marcar o fim de uma década de polarização política” daqui a quatro anos.

O ponto de partida do texto é o vídeo postado por Michelle Bolsonaro,  que “expôs uma briga familiar de muito tempo”, acusando Flávio Bolsonaro de “humilhá-la em uma disputa interna do partido”. “A demonstração pública de hostilidade expôs uma racha no coração da primeira família de políticos de direita, mesmo enquanto estavam planejando seu retorno ao poder.”

O Financial Times descreve Jair Bolsonaro como um “demagogo da linha-dura da direita”, líder de um movimento conservador populista com tons religiosos, em que seus apoiadores acreditavam estar em uma “cruzada contra um sistema apodrecido”. Destaca-o ainda como um presidente marcado “por suas aberturas para Donald Trump e um aumento repentino na destruição da floresta Amazônica, assim como sua má gestão da pandemia de covid-19”.

“Bolsonaro foi considerado culpado de conspirar para permanecer em seu cargo ilegalmente por meio de uma conspiração não realizada que incluía planos para assassinar Lula”, diz a reportagem.

“Orbitando o ‘rei sol’ perdendo o brilho”, o jornal americano cita a mulher de Jair e três de seus filhos. Apresenta Flávio Bolsonaro como “o escolhido para restaurar a sorte da dinastia política”, mesmo “envolvido em suposta fraude”.

Ao abordar a conjuntura do Brasil, o Financial Times também aborda o presidente Luiz Inácio Lula da Silva como “um ex-sindicalista que ainda tem grande apoio entre brasileiros pobres que se beneficiam dos aumentos do salário mínimo e dos programas de assistência social introduzidos pelo seu Partido dos Trabalhadores (PT)”. Aliados diriam que ele “prioriza os pobres num país desigual”.

Flávio Bolsonaro é apontado como alguém que está atrás nas pesquisas desde o início, mas cuja distância reduziu nas mais recentes. Sua base de apoio estaria “entre a classe média alta e evangélicos”, e teria como propostas cortar gastos públicos, ser favorável ao empresariado, diminuir a maioridade penal para os 16 anos e construir novas prisões. Para os críticos, seria “um fantoche de golpista que se curvará ao interesse dos Estados Unidos”. O Financial Times também aponta que Flávio foi definido como “traidor da pátria” pelo governo Lula após ter postado uma foto no salão oval com Donald Trump e, dias depois, o governo dos EUA ter anunciado novas tarifas ao Brasil.

Jair Bolsonaro, segundo o ‘Financial Times’

O Financial Times dedica diversos parágrafos para relatar a trajetória política de Bolsonaro. “Durante a maioria de suas três décadas como legislador em Brasília, Jair foi considerado um extremista excêntrico e irrelevante”, diz a reportagem, citando como exemplo de suas posturas a defesa da tortura, o apoio à ditadura militar, as declarações homofóbicas e a frase “Eu não te estupro porque você não merece”, dita a uma “deputada de esquerda” – Maria do Rosário.

A revista destaca o crescimento de Bolsonaro em meados da década de 2010, quando se posicionou como uma “alternativa anti-establishment”, e foi apoiado pela “coalização de boi, bala e Bíblia”, formada pelo agronegócio, cristãos conservadores e membros das forças de segurança. Cita ainda o lema “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos.”

O Financial Times define a pandemia como um divisor de águas: “Ele descreveu a covid-19 como uma ‘gripezinha’, promoveu tratamentos sem eficácia comprovada e foi acusado de atrasar a compra de vacinas”.

A publicação indica que o 8 de Janeiro foi considerado pela Justiça como a “última tentativa de um esquema para mantê-lo ilegalmente no poder”.

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