Você pode não gostar do Lula, mas PRECISA votar nele dessa vez

Você pode não gostar do Lula, mas PRECISA votar nele dessa vez

Se você não gosta de Lula, quero conversar com você. Não vou pedir que abandone suas críticas. Peço que pense no país em que seus filhos vão viver depois desta eleição. Não podemos normalizar a barbárie como se estivéssemos cobrindo uma briga de galo. Golpismo, submissão estrangeira e relações com o crime organizado não são simples diferenças de opinião. O futuro do Brasil exige mais do que a vontade de derrotar alguém.

A primeira razão para votar em Lula é a defesa da democracia. Jair Bolsonaro tentou dar um golpe e foi condenado. Flávio promete anistia aos golpistas e cobra dos candidatos ao Senado apoio para derrubar Alexandre de Moraes. O programa é salvar os seus e intimidar quem os julgou. Com três aposentadorias previstas no STF até 2030, além da possibilidade de preencher a vaga de Barroso, a eleição poderá mudar profundamente a Corte. Entregar esse poder a quem promete impunidade ao golpismo é brincar com a nossa liberdade. Quem tentou atropelar as urnas pode tentar de novo se não for contido. Não podemos esperar o próximo ataque para reagir.

A segunda razão é a defesa da soberania nacional. Flávio foi aos Estados Unidos pedir pressão sobre as instituições brasileiras. Na CPAC, apresentou nossas terras raras como solução para a dependência americana da China, em defesa da superioridade tecnológica e militar dos Estados Unidos. Mas ele quer ser presidente de qual país? Trump não pode mandar aqui. Nossas riquezas precisam gerar trabalho e futuro para os nossos filhos. O Brasil não é quintal de Washington. Pedir ajuda estrangeira para dobrar as instituições brasileiras é oferecer submissão embrulhada na bandeira nacional.

A terceira razão é o combate à corrupção. Flávio chamou Daniel Vorcaro de “irmão” e lhe cobrou dinheiro repetidamente para um filme sobre o pai. A negociação chegava a R$ 134 milhões. Ele diz que era um investimento privado. Quem bate à porta de Vorcaro atrás de milhões não tem autoridade para posar de salvador da moralidade pública. Muito menos para pedir a chave do Planalto.

Ciro Nogueira, ex-ministro de Bolsonaro e aliado de Flávio, é investigado pela PF por suspeita de receber pagamentos para favorecer o Master. Segundo a investigação, levou ao Senado uma emenda redigida pelo próprio banco. Ele nega as acusações. É por essas relações que chamo Flávio e aliados como Ciro de braço político de Vorcaro. Não se combate a corrupção colocando essa turma no Planalto.

A quarta razão é a segurança da sua família. Em 2007, Flávio defendeu que não se estigmatizasse a milícia e afirmou haver benefícios na atuação desses grupos. Homenageou Adriano da Nóbrega, ex-policial apontado como chefe do Escritório do Crime, e empregou a mãe e a ex-mulher dele no gabinete. Ainda em agosto deste ano, voltou a defender a condecoração. Esse é o candidato que quer vender a imagem de inimigo do crime.

Agora, reportagens revelam que Flávio destinou quase R$ 200 mil, em 2023, a um projeto de futebol após pedido de Robson Calixto, o Peixe. Peixe foi condenado a nove anos de prisão, no caso Marielle, por integrar a organização criminosa armada dos irmãos Brazão, condenados como mandantes dos assassinatos de Marielle Franco e Anderson Gomes. As mensagens mostram a negociação com uma assessora do senador. Seu gabinete afirma que a emenda seguiu a lei.

Quem abriu portas à milícia não tem autoridade para prometer enfrentá-la. Não há discurso de campanha que apague essa trajetória. A segurança da sua família não pode ficar nas mãos de quem tratou milicianos como gente de casa.

Você pode manter todas as suas críticas a Lula. Votar nele não exige silêncio, fidelidade partidária nem aprovação de cada ato do governo. Exige apenas reconhecer o que está em jogo: a preservação da democracia e das instituições, a defesa da soberania nacional, o compromisso de investigar a corrupção sem proteger aliados e a necessidade de enfrentar o crime organizado sem tolerar suas redes de influência.

A escolha também é sua, e ninguém deve votar contra a própria consciência. Você poderá cobrar Lula, discordar de suas decisões e fazer oposição desde o dia seguinte à eleição. Mas, entre um candidato que pode ser fiscalizado dentro das regras democráticas e outro que promete anistiar golpistas, pressionar o Supremo, buscar apoio estrangeiro e conviver com relações políticas questionáveis, o risco não é equivalente.

Por isso, se esses valores também orientam sua decisão, considere votar em Lula. Não por entusiasmo ou lealdade pessoal, mas para proteger a democracia, a soberania e o direito de continuar cobrando o governo.

Esta eleição não é sobre pessoas ou preferências políticas. É sobre preservar um Brasil democrático e soberano, com um governo que não tenha vínculos com o crime organizado.

Por Ricardo Lodi Ribeiro é ex-reitor da Uerj, advogado

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