É este o homem que quer presidir o Brasil?

É este o homem que quer presidir o Brasil?

Primo Levi, escritor judeu italiano e sobrevivente de Auschwitz, publicou em 1947 o livro que conhecemos no Brasil como “É isto um homem?”. Nele, testemunhou o sofrimento imposto pelo nazismo e a tentativa de destruir a dignidade dos prisioneiros.

Seu testemunho nos convoca a reconhecer a humanidade das vítimas e a preservar a memória do que lhes foi feito. É nessa exigência de dignidade que apoia a pergunta dirigida às escolhas de Flávio Bolsonaro: que autoridade moral tem para governar o Brasil quem glorifica um torturador? 

Eu perdi amigos para a ditadura que Flávio Bolsonaro enaltece.

Honestino Guimarães, Gildo Lacerda e José Carlos da Mata Machado eram jovens que sonhavam com a liberdade e com um Brasil mais justo. Tinham projetos, companheiras, filhos, amigos.

Três exemplos de cerca de mais de 400 casos registrados. O regime instalado pelo golpe de 1964, que durou 21 anos, decidiu que suas vidas podiam ser eliminadas.

Flávio defende a ditadura que os matou

Em meu livro “Entre o golpe e a eleição”, publicado pela Thesaurus em 2026, dediquei uma homenagem à memória dos três. Ao recordá-los, honro também os 434 mortos e “desaparecidos” políticos relacionados no relatório final da Comissão Nacional da Verdade. Cada nome corresponde a uma pessoa e a uma família atingida pela violência e pelo terrorismo de Estado. 

Essa história faz parte da responsabilidade de alguém que conheceu aqueles jovens. A distância de mais de meio século não autoriza transformar seus assassinatos em assunto encerrado. Sobretudo quando um candidato à Presidência defende um torturador e a ditadura que os matou.

Conheci Honestino, em 1966 e 1967. Em 1972, ajudamos a abrigá-lo na casa dos Falcão, em Interlagos.  Décadas depois, naquela casa, reencontrei sua filha Juliana – tinha dois anos quando foi assassinado – e o neto Lucas, que ele não conheceu.

Zé Carlos visitou-me na redação do Jornal da Bahia, em 1971. Foi nossa despedida. Gildo era casado com a sobrevivente da tortura Mariluce Moura, minha colega no jornal e no curso de jornalismo, mãe de Tessa, a filha que Gildo não conheceu. Recordei esses encontros no artigo Honestino, Gildo, Zé Carlos: Presentes, publicado em 20 de julho.

O tempo me trouxe a oportunidade de escrever sobre eles. A ditadura lhes tirou a possibilidade de contar suas próprias histórias. Escrever seus nomes é também recusar a versão dos que procuram justificar o crime e apagar suas vítimas. 

Sequestro, tortura e morte

Honestino foi sequestrado aos 26 anos pela ditadura no Rio de Janeiro em outubro de 1973. Seu corpo permanece “desaparecido”. Gildo, aos 24 anos, e Zé Carlos, aos 27, foram presos em cidades diferentes, transferidos para o DOI-Codi do Recife e mortos sob tortura.

As 434 mortes e desaparecimentos políticos relacionados pela Comissão Nacional da Verdade não dimensionam toda a devastação provocada pela ditadura. Milhares de brasileiros foram torturados. Muitos sobreviventes carregaram, durante décadas, sequelas físicas e psíquicas que comprometeram seu sono, seus afetos, seu trabalho e a possibilidade de reconstruir a própria vida.

Frei Tito de Alencar Lima é um dos exemplos mais dolorosos dessa violência prolongada. Torturado no DOPS e na Operação Bandeirante, em São Paulo, foi banido do Brasil em 1971. No exílio francês, continuou atormentado pelas marcas da repressão: ouvia a voz do delegado Sérgio Fleury, um de seus torturadores. Recebeu assistência psiquiátrica e tentou retomar os estudos e a vida em comunidade. Morreu por suicídio em 1974. A Comissão Nacional da Verdade reconheceu sua morte como decorrente das ações de agentes do Estado brasileiro.

A responsabilidade dos torturadores não termina quando as portas da prisão se abrem. A violência pode continuar ferindo por muitos anos, alcançando também filhos, companheiras, companheiros e famílias inteiras. É essa dimensão humana que a glorificação da ditadura procura apagar. 

É a essa história que precisamos voltar diante das posições registradas em “Mito ou verdade”, escrito por Flávio Bolsonaro. Em reportagem que examinou a obra, a Folha de S.Paulo mostrou que o autor nega o golpe de 1964, ataca a Comissão da Verdade e defende que os militares sejam reconhecidos como heróis.

Sobre Carlos Alberto Brilhante Ustra, já reconhecido judicialmente como torturador, o candidato a presidente do Brasil, Flávio Bolsonaro escreve: “um homem correto, íntegro, que cumpriu seu papel de defender a pátria”.

É isto um candidato a presidente?

Em seu livro, o candidato Flávio Bolsonaro registra uma escolha política que precisa ser examinada agora, às vésperas da eleição. Ele decidiu defender o regime e elogiar um agente da repressão.

Ao disputar o comando do Estado brasileiro, deve responder pelo significado dessa escolha: quais limites reconhece ao poder e que valor atribui à vida de quem se opõe ao governo?

A defesa da pátria exige respeito às pessoas que nela vivem. Um Estado que sequestra cidadãos, mantém presos incomunicáveis, tortura e oculta cadáveres agride o próprio povo. A farda e o cargo público aumentam a responsabilidade de quem comete esses crimes. 

A Comissão Nacional da Verdade concluiu que a repressão e a eliminação de opositores constituíram uma política de Estado, organizada por cadeias de comando. A tortura e os desaparecimentos integravam uma estrutura que mobilizava agentes e instalações públicas. É contra essa realidade documentada que se dirige a tentativa de reabilitar o regime. 

Ustra, o torturador que Flávio exalta

Carlos Alberto Brilhante Ustra foi um dos mais cruéis torturadores da ditadura brasileira. Sua violência atingiu homens, mulheres e até crianças. Em 2008, foi declarado torturador pela Justiça paulista em ação civil movida pela família Teles.

A sentença foi confirmada pelo Tribunal de Justiça de São Paulo em 2012 e mantida pelo Superior Tribunal de Justiça em 2014. O coronel Ustra comandou o DOI-Codi de São Paulo entre 1970 e 1974.  Janaína e Edson, de cinco e quatro anos de idade, foram sequestrados e levados ao órgão de repressão. Presenciaram a mãe, Amelinha Teles, submetida à tortura. 

É preciso deter-se nessas idades: cinco e quatro anos. Crianças colocadas diante do sofrimento da mãe pelo aparelho de um Estado que deveria protegê-las. O dano alcança a família inteira e permanece muito depois de encerrada uma sessão de tortura. 

Quem enaltece o responsável por essa violência, como faz o candidato Flávio Bolsonaro, deve ser confrontado com suas consequências.

Pai e filho homenageiam Ustra

Em 17 de abril de 2016, o pai Jair Bolsonaro já havia homenageado Ustra na Câmara, durante a votação que autorizou o processo de impeachment de Dilma Rousseff.

Invocou a memória do torturador e o associou ao sofrimento da presidenta. Dilma Rousseff foi torturada por Ustra, ao ser presa quando era jovem. O episódio ficou registrado pela própria Câmara dos Deputados.

O pai Jair fez a homenagem na tribuna. O filho Flávio, candidato da extrema direita, defendeu Ustra por escrito em seu livro “Mito ou verdade”. A responsabilidade de Flávio Bolsonaro está naquilo que ele próprio escreveu, endossou e escolheu defender. Seu livro oferece ao eleitor elementos para julgar suas convicções. 

Eduardo, irmão de Flávio, também fez sua homenagem pública. Em 15 de maio de 2018, a Veja registrou que ele havia publicado no Facebook uma fotografia vestindo camiseta com o rosto do torturador e a inscrição “Ustra vive”. Escreveu: “Ustra vive nos corredores da Câmara dos Deputados”.

O pai Jair homenageou Ustra na tribuna. Flávio elogiou em livro. Eduardo levou sua imagem no peito. Três Bolsonaro, um deles que arrisca ser presidente da República no próximo domingo, 25, a mesma homenagem ao mais cruel torturador da ditadura sanguinária que matou, pelo menos 435 pessoas, a maioria jovens na casa dos 20 anos. E deixou milhares com sequelas irreversíveis.

Trinta mil mortos e o deboche às famílias

Em 1999, no programa Câmera Aberta, da TV Bandeirantes, Jair Bolsonaro defendeu uma guerra civil para realizar “um trabalho que a ditadura militar não fez, matando uns 30 mil”. Incluiu entre os alvos o então presidente Fernando Henrique Cardoso.

Em 2009, um cartaz mantido na porta de seu gabinete ironizava a busca pelos “desaparecidos” do Araguaia: “Quem procura osso é cachorro”. A mensagem combinava palavras e imagens de um osso e de um cachorro. 

As famílias procuravam seus mortos, o respeito à sua dor e o direito a uma sepultura. Bolsonaro pai oferecia deboche. Quem havia perdido um pai, um filho, um irmão ou um amigo encontrava, na porta de um representante do povo, um deputado federal, o escárnio à sua dor.

Ainda estou aqui. E não vamos esquecer

O candidato Flávio Bolsonaro questiona até mesmo a responsabilidade do Exército pelo desaparecimento de Rubens Paiva. A história da família Paiva é retratada em “Ainda estou aqui”, de Walter Salles, baseado no livro de Marcelo Rubens Paiva. A investigação oficial documentou a prisão de Rubens, as torturas que o levaram à morte e os esforços para ocultar o corpo.

Em 1º de abril de 2014, a Câmara dos Deputados inaugurou um busto em homenagem a Rubens Paiva. Segundo o relato de seu neto Chico Paiva Avelino, presente à cerimônia, Jair Bolsonaro interrompeu a homenagem com insultos e cuspiu no monumento. Chico escreveu:

“Ao passar por nós, deu uma cusparada no busto de meu avô”.

 Vera Paiva, filha de Rubens, também recordou o episódio em entrevista ao Jornal da USP. O gesto atingia a memória de um homem torturado assassinado pela ditadura e a família reunida para homenageá-lo.

A negação acrescenta violência à violência. As famílias perdem alguém, procuram respostas durante décadas e ainda precisam enfrentar a tentativa de retirar a responsabilidade dos agentes do Estado. A disputa pela memória tem consequências concretas: determina se o país reconhecerá o crime e suas vítimas ou continuará abrindo espaço para a glorificação dos responsáveis.

Também por isso, a ameaça autoritária deve ser examinada no presente.

Em 2022, o plano conhecido como “Punhal Verde e Amarelo” previa o assassinato de Lula, Geraldo Alckmin e Alexandre de Moraes.  Foi elaborado no contexto da trama para impedir a transmissão do poder ao governo eleito, que se prolongou até os ataques de 8 de janeiro de 2023.

As investigações chegaram aos tribunais e resultaram em condenações de integrantes da trama. Jair Bolsonaro, o pai do candidato Flávio, está cumprindo pena de 27 anos por este crime contra o presidente eleito e pela tentativa de golpe de Estado contra a Democracia.

O objetivo de eliminar adversários e impedir a vontade das urnas mostra a gravidade do que o Brasil voltou a enfrentar. Há uma continuidade ideológica entre a celebração da repressão de ontem e a tolerância com projetos que recorrem à violência para conservar o poder.

Essa continuidade, da qual o candidato Flávio Bolsonaro promete honrar, precisa ser combatida enquanto é tempo com informação, memória e compromisso democrático. 

Bolsonaros nunca mais

O grito “Bolsonaros nunca mais”, que hoje reúne jovens nas ruas, encontra essa história. Há uma responsabilidade entre gerações: quem viveu o terror precisa testemunhar; quem veio depois tem o direito de conhecer o que aconteceu e de exigir que as instituições impeçam sua repetição. 

No próximo domingo, 25 de outubro, os brasileiros voltarão às urnas para escolher o presidente da República. A avaliação de um candidato inclui suas propostas, sua trajetória e sua relação com o poder. A defesa de torturadores e a negação dos crimes da ditadura devem pesar nessa decisão.

Quem pede o voto para governar o país deve respeito à memória das vítimas e às liberdades dos vivos. É inadmissível entregar a Presidência de um país a alguém que honra responsáveis pelo sequestro, tortura e morte de centenas de jovens nos anos 1970. 

Minha homenagem a Honestino, Gildo e Zé Carlos é também um compromisso com esse julgamento. Seus nomes me lembram o custo humano de um poder que se julga autorizado a tudo.

Quero um Brasil em que ninguém precise procurar abrigo porque discorda do governo. Em que filhos possam crescer com seus pais e viver com suas famílias.  Em que um jovem saia para uma reunião, um protesto ou uma aula e tenha o direito de voltar para casa.

Meus amigos foram privados desse direito.

Por eles, pelos que sobreviveram e pelas gerações que vieram depois, manterei viva essa memória. O país precisa reconhecer o perigo representado por quem ainda enaltece seus algozes.

Flávio afirmou em 7 de outubro que, se eleito, seu pai “vai subir aquela rampa junto com a gente” e lhe colocará a faixa presidencial na posse de janeiro de 2027. A promessa dá forma à continuidade política que ele oferece ao eleitor.

É este o homem que quer presidir o Brasil, honrar o legado do pai e levá-lo consigo à rampa do Palácio do Planalto em janeiro?

Honestino, Gildo, Zé Carlos, todos os torturados e assassinados pela ditadura: presentes! Hoje e sempre.

Bolsonaros nunca mais.

Por Lucas Vasques

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