Escravas na tecla “2”

Escravas na tecla “2”

Cogita-se uma emenda constitucional vinda do PL, para excluir o direito ao voto feminino

Em 1985, a canadense M. Atwood publicou seu “O Conto da Aia”, ficção em que uma ditadura teocrática impunha às mulheres a obrigação de servirem à espécie humana como meras reprodutoras.

Essa aparente distopia na verdade tem um passado concreto muito recente e um futuro possível dependente apenas de dois toques na tecla “2”.

Na Itália, o fascismo foi uma reação cultural também aos movimentos de emancipação feminina associados à participação das mulheres na produção industrial (sobretudo no triângulo Gênova-Milão-Turim), durante a 1ª Guerra Mundial.

Terminado o conflito, os soldados desmobilizados voltaram da linha de frente e encontraram mulheres em seus postos de trabalho – com a mesma produtividade, mas recebendo uma fração do salário masculino – o que fez surgir um ódio contra as que ousavam fazer mais do que seu papel doméstico-reprodutor. Ódio instrumentalizado pelo estado fascista.

Na década de 1920, Mussolini lançou a “Batalha dos Nascimentos”, incluindo prêmios por fertilidade, empréstimos para casamentos, impostos sobre homens solteiros e a criminalização de qualquer método contraceptivo. A presença da mulher em cargos públicos foi limitada a 10% e foram proibidas de ensinar História e Filosofia.

Hitler, tal como os bolsonaristas que reagem ao fim da escala 6×1 especulando sobre “o que os trabalhadores farão de um dia a mais de folga?”, dizia que as mulheres deviam ser conduzidas pois “não sabem o que fazer da liberdade”.

Em 1935, o fascismo alemão criou o programa de reprodução em massa Lebensborn, verdadeiros currais humanos onde as jovens alemãs “geneticamente perfeitas” deviam se submeter ao sexo com milicianos das SS “geneticamente perfeitos” e assim produzir a nova geração de fascistas “arianos”.

Em comum, na Itália fascista as mulheres não votavam e na Alemanha perderam o direito ao voto em 1933. E hoje, nos EUA de Trump e no Brasil de Flávio Bolsonaro, há um forte movimento contra o voto feminino, discutido no bojo do ideário que apoia o filho do genocida Jair à presidência.

Cogita-se uma emenda constitucional vinda do PL, para excluir o direito ao voto feminino. Um incauto poderia sustentar que a igualdade entre homens e mulheres, fixada no artigo 5° da Constituição, é cláusula pétrea. A esse devemos lembrar que o próximo presidente em poucos anos terá ampla maioria no STF, tribunal a quem cabe a palavra final quanto ao que seja “pedra” ou o que seja “fumaça”.

Por último, não podemos esquecer que o debate misógino discriminatório passa por gênero e classe. Tal como no caso da doutrinação das “escolas cívico-militares”, não se pode esperar que as mulheres das classes superiores e das famílias dos dirigentes fascistas sejam submetidas às mesmas regras.

As medidas da distopia “Brasil22” visarão constranger a massa de mulheres pobres e não as filhas de Flávio Bolsonaro.

 

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