Em meio ao debate sobre o fim da escala 6×1, o relato de um ex-funcionário do McDonald’s viralizou nas redes sociais ao mostrar, na prática, o que pode significar para um trabalhador receber de acordo com as horas efetivamente trabalhadas — modelo defendido pelo candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL) como alternativa à proposta de redução da jornada sem corte de salários.
Diego Salgado contou que trabalhou na rede de fast-food em 2001, com carteira assinada e em regime 6×1, recebendo R$ 1,60 por hora. O problema, segundo ele, era que não havia garantia de que cumpriria uma jornada diária capaz de assegurar uma remuneração previsível no final do mês.
“Ganhava R$ 1,60 por hora, mas sem garantia de fazer 7h20 por dia. Muitas vezes, com movimento baixo, eu era liberado após 4 ou 5 horas. Não adiantava falar. Eu pensava: ‘Como vou pagar as contas?’”
https://x.com/diegosalgado7/status/2107869506982817992
O depoimento ganhou repercussão justamente quando Flávio tenta apresentar como “liberdade” para o trabalhador uma proposta que vincula a remuneração ao tamanho da jornada escolhida ou realizada.
Nesta terça-feira (6), ao voltar a se posicionar contra o fim da escala 6×1, o candidato do PL afirmou que prefere permitir que cada trabalhador monte sua própria carga horária.
“Quem quer trabalhar mais, vai trabalhar mais. Quem quer trabalhar menos, vai trabalhar menos”, declarou.
A proposta se contrapõe à PEC em discussão no Senado, que reduz a jornada máxima de 44 para 40 horas semanais, estabelece dois dias de descanso e, ponto fundamental, proíbe a redução salarial.
Quando o movimento cai, cai também o salário
O relato do ex-funcionário do McDonald’s expõe justamente a diferença entre reduzir a jornada preservando o salário e simplesmente pagar menos quando houver menos horas de trabalho.
No primeiro caso, defendido pelo governo Lula, o trabalhador ganha mais tempo para descanso e convívio familiar sem perder renda. No modelo apresentado por Flávio, a redução das horas pode significar redução direta do dinheiro disponível para despesas básicas.
O diretor de redação da Fórum, Renato Rovai, chamou atenção para esse ponto ao recordar o modelo utilizado durante anos pelo McDonald’s no Brasil.
“O Flávio Bolsonaro é a favor que o empresário possa pagar o trabalhador por hora. Ok, então vamos fazer uma conta. O salário mínimo é R$ 1.621, e considerando a jornada de 44h semanais, o valor oficial da hora é R$ 7,37. É isso que será pago para a imensa maioria dos trabalhadores”, escreveu.
Rovai explicou o efeito que esse sistema pode produzir sobre a renda mensal.
“Se tiver trabalho, a pessoa fica 8 a 10h ali. Se não tiver, não será chamada ou trabalhará 2 ou 3 num dia.”
Ao recordar a experiência do McDonald’s, o jornalista acrescentou que funcionários ficavam sujeitos à demanda dos restaurantes e à oscilação do movimento.
“É disso que se trata. É preciso explicar isso melhor na campanha. Ser didático em temas que afetam a vida real”, afirmou.
https://x.com/renato_rovai/status/2107800727384907871
Flávio é contra fim da 6×1
A discussão entrou definitivamente na campanha do segundo turno depois que Flávio Bolsonaro reafirmou sua oposição à proposta que acaba com a escala de seis dias trabalhados para apenas um de descanso.
O candidato classificou a PEC como “oportunista” e afirmou ter uma proposta “infinitamente melhor”: deixar a duração da jornada a cargo do próprio trabalhador, com remuneração vinculada às horas trabalhadas.
Lula reagiu afirmando que, na prática, a proposta do adversário significa fazer o trabalhador escolher entre descanso e renda.
“Para ele, quem trabalhar menos tem que ganhar menos. Queria ver ele explicar para uma mãe de família qual conta ela deixa de pagar para poder descansar. A comida? A luz? O aluguel? Quem vive de salário sabe que isso não é escolha”, afirmou o presidente.
Lula defende a adoção de uma jornada de cinco dias de trabalho e dois de descanso, sem redução de salário.
“Quem trabalha já faz muito por este país. Está na hora de o país garantir a essas pessoas mais tempo para viver, com salário, direitos e dignidade”, disse.
Campanha de Flávio atua contra a PEC
A resistência à mudança não se limita às declarações do candidato.
Como mostrou a Fórum,integrantes do núcleo político da campanha de Flávio atuam no Senado para impedir o avanço da PEC. Um dos principais nomes dessa articulação é Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha presidencial do senador e líder da oposição na Casa.
Marinho votou contra a proposta na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), onde o texto foi aprovado.
A disputa sobre a escala 6×1 tornou-se, assim, um dos temas concretos que separam os dois candidatos no segundo turno: enquanto Lula defende menos dias de trabalho sem redução salarial, Flávio rejeita a mudança e propõe um sistema no qual trabalhar menos significa também receber menos.
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