Se o diabo é o pai da mentira, Flávio Bolsonaro é o pai do diabo

Se o diabo é o pai da mentira, Flávio Bolsonaro é o pai do diabo

Um moleque pode até conseguir alguns minutos de atenção com sarcasmo e baixaria. Mas governar uma República exige muito mais do que saber jogar sujo diante das câmeras

Se existe uma maneira de demonstrar despreparo para exercer a Presidência da República, Flávio Bolsonaro deu uma aula durante o debate da Band. Não de política, de propostas ou de compromisso com o país, mas de sarcasmo, deboche, provocações e ataques pessoais. O senador parece ter confundido um debate presidencial com um espetáculo de quinta categoria, no qual vale tudo para tentar desestabilizar o adversário.

Enquanto Lula falava, Flávio permanecia atrás do presidente fazendo expressões de desdém, caretas e gestos de invalidação. Uma encenação permanente, como se o objetivo não fosse discutir os problemas do Brasil, mas transmitir aos eleitores a mensagem infantil de que nada do que o adversário diz merece ser levado a sério. Um golpe de semiótica que não foi interceptado pela assessoria de Lula e se consumou por todo o debate, deixando o presidente exposto à canalhice de seu oponente.

O problema é que a Presidência da República não é um palco para birras adolescentes. Nem para delinquência adulta. O presidente governa para milhões de brasileiros, inclusive para aqueles que não votaram nele. Espera-se de quem pretende ocupar o cargo a capacidade de ouvir, argumentar, respeitar o contraditório e apresentar soluções. Flávio preferiu o deboche, as ofensas pessoais e até uma piada de cunho sexual, rebaixando o nível de um confronto que deveria servir para esclarecer o eleitor: “tem Bolsonaro dentro do Lula”, referindo-se à vacina contra a Covid que, segundo ele, seu pai comprou no tempo certo para salvar vidas durante a pandemia.

É a política transformada em programa de humor ruim, com uma diferença fundamental: a conta da irresponsabilidade pode ser paga por todo o país. E eu não quero estar na plateia desse show de horrores institucionalizado. A postura de Flávio também levanta uma questão sobre a orientação que recebeu para o confronto. O próprio senador buscou a orientação de Pablo Marçal, personagem conhecido pela exploração de provocações e estratégias de confronto na política.

Marçal também tem um histórico judicial relacionado a uma investigação sobre fraudes bancárias nos anos 2000, episódio que precisa ser descrito com precisão quanto às decisões e ao desfecho processual. Que um aspirante à Presidência procure inspiração nesse tipo de personagem diz muito sobre o modelo de política que pretende oferecer ao Brasil. Quando a provocação substitui o argumento e a humilhação vira estratégia eleitoral, o debate público deixa de ser um instrumento da democracia e passa a ser um espetáculo de agressividade. É o fundo do poço de uma política que já foi suficientemente contaminada pelo bolsonarismo.

Mas há algo ainda mais grave: o sobrenome que Flávio carrega vem acompanhado de uma extensa lista de controvérsias que não podem ser apagadas com caretas diante das câmeras. As investigações e suspeitas envolvendo rachadinhas em seu antigo gabinete na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, os questionamentos sobre suas relações com pessoas apontadas como integrantes de milícias e as dúvidas levantadas sobre suas movimentações financeiras precisam ser respondidos com transparência. Acusações não equivalem automaticamente a condenações, mas tampouco desaparecem porque o acusado faz piada no horário nobre durante um debate.

O mesmo rigor deve ser aplicado a qualquer alegação de ligação com os esquemas associados ao banqueiro Daniel Vorcaro: é necessário distinguir relações comprovadas, suspeitas e acusações formalizadas. Quem pretende governar o Brasil deveria ser o primeiro interessado em esclarecer todas as dúvidas que envolvem seu nome, em vez de tentar transformar o debate em cortina de fumaça.

Lula, aliás, colocou uma questão objetiva na mesa ao desafiar Flávio a abrir seus sigilos bancário e telefônico para demonstrar que não é ladrão. É uma provocação política que toca no centro da discussão sobre transparência e patrimônio público. Se o senador considera injustas as suspeitas que o cercam, tem o dever de enfrentá-las com documentos, explicações e os instrumentos legais cabíveis, e não apenas com indignação performática.

O eleitor brasileiro precisa perguntar: é esse o comportamento que queremos para a Presidência da República? Um presidente que transforma adversários em alvos de chacota, que recorre a insinuações pessoais e que parece acreditar que vencer uma discussão significa humilhar quem está do outro lado? Não se trata de exigir um candidato sem humor ou de proibir a ironia na política. Trata-se de reconhecer a diferença entre uma crítica contundente e a baixaria deliberada; entre denunciar um adversário e tentar desqualificá-lo com ataques pessoais; entre ter firmeza e agir como quem não consegue sustentar uma discussão sem recorrer ao deboche.

Flávio Bolsonaro parece ter escolhido o caminho da provocação permanente porque talvez acredite que a agressividade seja sinônimo de força. Não é. Muitas vezes, é justamente o contrário: quando faltam argumentos, sobram caretas; quando faltam propostas, aparecem as ofensas; quando falta grandeza, o candidato tenta diminuir o adversário. Se o diabo é o pai da mentira, a política brasileira já conhece bem os estragos produzidos por aqueles que transformam a mentira em método e a agressividade em identidade. Flávio Bolsonaro, ao reproduzir esse repertório, demonstra que o bolsonarismo continua apostando no espetáculo da intolerância como substituto do debate democrático.

O Brasil não precisa de um presidente que se comporte como um provocador de auditório. Precisa de alguém que compreenda a dimensão da responsabilidade que deseja assumir, que respeite as instituições e que esteja preparado para enfrentar perguntas difíceis sobre si mesmo. A faixa presidencial não é brinquedo, o debate não é recreio e o povo brasileiro não é plateia obrigada a aplaudir a encenação de ninguém. Muito menos de um canastrão sem carisma e sem vergonha, que pretende fazer do Brasil um puxadinho do Rio das Pedras e proclamar a Milícia Federativa do Brasil como uma nova nação.

Um moleque pode até conseguir alguns minutos de atenção com sarcasmo e baixaria. Mas governar uma República exige muito mais do que saber jogar sujo diante das câmeras.

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