Collor 2: Nobel de Economia alerta que plano de Flávio levará Brasil à recessão

Collor 2: Nobel de Economia alerta que plano de Flávio levará Brasil à recessão

Sob Bolsonaro, o desemprego será maior, o crescimento desacelerará, a pobreza aumentará e a classe média ficará em situação pior

O economista Joseph E. Stiglitz, vencedor do Prêmio Nobel de Economia, e a professora Laura Carvalho, da Universidade de São Paulo (USP), alertaram que o programa econômico de Flávio Bolsonaro (PL) pode levar o Brasil à recessão, aumentar o desemprego e prejudicar a classe média. Em artigo publicado nesta terça-feira (20) no Project Syndicate, plataforma internacional de análises e artigos de opinião, os especialistas criticaram a proposta de reduzir os gastos públicos em até 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB) e defenderam a continuidade das políticas econômicas do governo Lula (PT).

Intitulado “O Brasil não pode arcar com os cortes de gastos de Bolsonaro”, o texto analisa as consequências das medidas anunciadas pelo candidato de extrema-direita, que disputa o segundo turno da eleição presidencial no próximo domingo (25). A avaliação é de que uma eventual vitória de Flávio representaria uma mudança radical na condução da economia, com riscos para trabalhadores, aposentados, pequenos empresários e beneficiários de programas sociais.

“Como economistas que estudam o Brasil há muito tempo, podemos ser categóricos: sob Bolsonaro, o desemprego será maior, o crescimento desacelerará, a pobreza aumentará e a classe média ficará em situação pior”, diz um trecho do artigo, traduzido do inglês.

A principal preocupação envolve a promessa de cortar despesas públicas equivalentes a 1,5% do PIB. Embora a equipe de Flávio Bolsonaro afirme que o Bolsa Família será preservado, não apresentou quais áreas sofreriam reduções para atingir a meta. Como parcela significativa do orçamento federal é destinada a aposentadorias, benefícios vinculados ao salário mínimo, saúde e educação, seria difícil realizar um ajuste dessa dimensão sem atingir esses setores.

As projeções apresentadas no artigo indicam que uma redução dos gastos sociais equivalente a 1,5% do PIB poderia provocar uma perda de 2,7% da atividade econômica no primeiro ano e de 3,2% em dois anos. O impacto seria suficiente para transformar uma desaceleração em recessão, atingindo principalmente trabalhadores informais, vendedores ambulantes, motoristas de aplicativos e pequenos comerciantes, cuja renda depende diretamente do consumo das famílias.

A retração econômica também poderia reduzir a arrecadação de impostos, agravando a situação fiscal e provocando novas pressões por cortes orçamentários. Experiências anteriores na América do Sul demonstram que ajustes baseados na diminuição das despesas públicas podem reduzir o crescimento e ampliar a desigualdade social.

Outro problema está na relação entre juros e dívida pública. Aproximadamente 53% da dívida brasileira está vinculada à taxa Selic, enquanto o déficit primário permanece próximo de zero. Mesmo que os juros recuassem para 9% ao ano, cenário considerado improvável em um eventual governo Flávio Bolsonaro, o endividamento continuaria crescendo, inclusive com superávits primários anuais de 3% do PIB.

As propostas de redução de impostos também são questionadas. Em um país marcado pela concentração de renda, no qual os mais ricos pagam proporcionalmente menos tributos sobre seus rendimentos, novas desonerações poderiam aprofundar as desigualdades e comprometer as contas públicas. A orientação econômica de Flávio é comparada à do presidente argentino Javier Milei, especialmente pela prioridade dada à austeridade sem enfrentar as distorções do sistema tributário.

A reação positiva do mercado financeiro à vitória de Flávio no primeiro turno não elimina esses riscos. O Ibovespa avançou 7,7% na primeira sessão após a votação, alcançando um recorde histórico. Entretanto, a valorização das ações não significa necessariamente crescimento da economia real e pode ser rapidamente revertida diante de uma recessão ou crise institucional.

Resultados econômicos do governo Lula

O desempenho econômico brasileiro durante o governo Lula é apresentado como contraponto às propostas de austeridade. Apesar das previsões iniciais de crescimento anual pouco superior a 1%, o PIB avançou 3,2% em 2023 e 3,4% em 2024. A inflação, que havia atingido 12,1% em abril de 2022, recuou para 4,22% em agosto de 2026.

O desemprego caiu para 5,3% em 2026, enquanto a pobreza e a extrema pobreza alcançaram mínimas históricas. O mercado acionário também acumulou valorização próxima de 70% desde janeiro de 2023, resultado que contrasta com as previsões pessimistas feitas no início do atual governo.

A ampliação do Bolsa Família contribuiu para retirar aproximadamente 6,5 milhões de brasileiros da pobreza e da extrema pobreza. A valorização real do salário mínimo elevou os rendimentos de trabalhadores e aposentados, enquanto a reforma tributária ampliou a isenção do Imposto de Renda para famílias de baixa e média renda e aumentou a tributação mínima sobre os mais ricos.

Essas medidas foram acompanhadas pela redução dos déficits primários para níveis próximos de zero. A queda da inflação poderia ter sido ainda maior sem os efeitos econômicos das guerras envolvendo a Rússia e das ações militares do governo de Donald Trump, nos Estados Unidos.

Para ampliar a capacidade de investimento do Estado, o Brasil poderia eliminar benefícios tributários concentrados nos 10% mais ricos da população, controlar as emendas parlamentares e elevar a tributação efetiva mínima sobre os super-ricos.

Os recursos obtidos com essas mudanças permitiriam financiar investimentos em transporte público, habitação e infraestrutura de cuidados, reduzindo despesas das famílias com deslocamento e assistência às crianças. Uma política de juros menores também contribuiria para baratear o crédito destinado a trabalhadores e empreendedores.

O artigo termina destacando que o Brasil demonstrou, nos últimos quatro anos, ser possível combinar crescimento econômico e redução das desigualdades. A eleição de 25 de outubro determinará se o país dará continuidade a essa trajetória ou adotará uma política de cortes que poderá comprometer os resultados alcançados. Com informações do DCM

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