Acompanhamento ginecológico começa ainda na adolescência, mas exames são definidos de acordo com idade, histórico e necessidade de cada paciente; Dados mostram que mulheres procuram mais os serviços de saúde
Afala do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre mulheres “aprenderem a tomar toque desde pequenas”, na última terça-feira (29), gerou críticas nas redes sociais depois que um trecho do discurso foi compartilhado fora do contexto. Na ocasião, Lula falava sobre a resistência dos homens ao exame de próstata e comparava esse comportamento à maior familiaridade das mulheres com consultas e exames ginecológicos. No dia seguinte, o presidente explicou que se referia a cuidados de saúde.
Mas o que, de fato, acontece no acompanhamento ginecológico desde a infância e a adolescência?
De acordo com o médico ginecologista José Alcione Macedo Almeida, que atua na área de Ginecologia na Infância e Adolescência do Hospital das Clínicas, a afirmação de Lula corresponde, sim, à prática ginecológica. O especialista ressalta, porém, que é preciso diferenciar a avaliação feita longo da vida.
“Na essência, ele está correto”, afirma.
Segundo Alcione, a menina passa por uma avaliação inicial ainda nos primeiros momentos de vida, como parte dos cuidados neonatais. Isso não significa, porém, que crianças sejam submetidas desde cedo a consultas ginecológicas ou exames invasivos.
Na adolescência, o acompanhamento passa a envolver questões específicas do desenvolvimento, como crescimento das mamas, menstruação, sexualidade e saúde reprodutiva. O exame ginecológico começa pela observação e é adaptado à idade e às condições de cada paciente.
A avaliação das mamas também faz parte desse acompanhamento. Em adolescentes, a palpação das mamas pode detectar alterações como, por exemplo, um eventual nódulo.
Em adolescentes que ainda não tiveram atividade sexual, a avaliação dos órgãos genitais é, em geral, externa. O exame intravaginal não é feito sem necessidade.
“Há um cuidado quando não há absoluta necessidade do toque. Se ela afirma que é virgem, o médico evita fazer o exame intravaginal. No entanto, se há sangramento, por exemplo, é necessário investigar”, explica.
Os exames preventivos também mudam ao longo da vida. No caso do câncer do colo do útero, o Ministério da Saúde passou a adotar o teste molecular para detecção do DNA do HPV como método primário de rastreamento, para mulheres e outras pessoas com colo do útero de 25 a 64 anos que já tiveram atividade sexual.
Onde a nova tecnologia ainda não está disponível, o Papanicolau continua sendo utilizado.
Mulheres procuram mais os serviços de saúde
A maior familiaridade das mulheres com consultas médicas também aparece em dados oficiais. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) 2019, do IBGE e do Ministério da Saúde, 82,3% das mulheres haviam consultado um médico nos 12 meses anteriores à pesquisa, contra 69,4% dos homens.
Para o médico, a diferença tem relação também com fatores culturais. “O homem é mais resistente por conta do exame do toque retal, acha que isso pode tirar a sua masculinidade, por machismo. E é um exame extremamente importante para a detecção de alterações na próstata”, afirma.
Segundo o ginecologista, essa diferença pode ser observada no cotidiano dos consultórios. “Recebemos no dia a dia muitas mulheres que fazem há anos consultas e exames, mas os homens têm mais propensão a adiar exames importantes por uma questão cultural.”
Isso não significa, porém, que o acompanhamento ginecológico e a avaliação da próstata sejam equivalentes. São cuidados com indicações e objetivos diferentes. No caso do câncer de próstata, por exemplo, a decisão sobre exames em homens sem sintomas deve considerar individualmente benefícios e possíveis riscos.
Ainda segundo ele, o acompanhamento deve acompanhar a mulher ao longo das diferentes fases da vida. “É saudável que se faça uma visita ao ginecologista do início da puberdade até a fase da velhice.”
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