Se até o Todo-Poderoso precisou descansar, por que milhões de trabalhadores precisaram lutar tanto pelo direito de ter tempo para viver?
No poema mítico da criação, diz a narrativa bíblica que Deus criou os céus, a terra, os mares, os animais e toda a humanidade em seis dias. No sétimo, descansou. E olhem que estamos falando do Todo-Poderoso, aquele que não precisa tomar café para enfrentar a segunda-feira, não pega dois ônibus para chegar ao trabalho e não depende do despertador tocando às cinco da manhã. Pois até Deus descansou!
Permitam-me a brincadeira teológica: talvez uma das primeiras lições trabalhistas das Escrituras esteja logo no começo da Bíblia. Depois de seis dias de atividade, veio o descanso, porque o descanso faz parte da própria ordem da criação. O ser humano não foi feito apenas para trabalhar. Foi feito para viver. E lamento àqueles que pegam esse texto para, numa leitura literal, evocar seis dias de trabalho e um de descanso. Leiam por um outro viés: seis dias de trabalho, até para Deus, o Todo-Incansável, pareceu uma jornada pesada. Ele “precisou” descansar.
Muitos séculos depois, inventamos a escala 6×1 e, em nome da produtividade, passamos a tratar o descanso como luxo, a convivência familiar como detalhe e o tempo livre como extravagância de gente preguiçosa. Parecia que alguns patrões haviam decidido corrigir a Bíblia: se Deus descansou no sétimo dia, o trabalhador que se virasse para encontrar tempo de viver no único dia que lhe sobrava.
Quem precisa de tempo para os filhos, para amar, encontrar os amigos, cuidar da saúde ou simplesmente não fazer nada? Para quem enxerga o trabalhador apenas como uma peça da engrenagem econômica, essas coisas parecem secundárias. O importante é manter a máquina funcionando. Se a máquina tiver coração, família, sonhos e sentimentos, que aprenda a deixá-los do lado de fora quando bater o ponto.
A escala 6×1 foi a expressão cotidiana dessa desumanização. Seis dias de trabalho para apenas um de descanso — que, muitas vezes, nem descanso era. Era dia de lavar roupa, limpar a casa, fazer compras, resolver pendências e cuidar dos filhos e, num país majoritariamente cristão, dia também de ir à igreja. Quando finalmente sobrava algum tempo, o corpo queria dormir e a cabeça pedia silêncio. A vida, mais uma vez, ficava para depois. Tanto que estudiosos se debruçam sobre o que muitos chamam de “Síndrome do Fantástico”, aquela ansiedade triste que acomete muita gente no domingo à noite.
Para milhões de trabalhadores, a folga não era um dia para viver. Era apenas um intervalo para recuperar as condições mínimas de voltar ao trabalho. O preço aparecia na saúde física e mental, nas relações familiares e na convivência social. Pais que mal acompanhavam o crescimento dos filhos, casais que quase não se encontravam, trabalhadores que chegavam ao domingo tão exaustos que já começavam a sofrer pela segunda-feira. Tudo isso tratado como normal, como se o sofrimento fosse parte inevitável de ter um emprego, mas não há nada de natural em uma organização do trabalho que exige tanto de alguém a ponto de lhe roubar o tempo necessário para continuar sendo gente.
Por isso, a luta pelo fim da escala 6×1 não é uma disputa entre quem quer trabalhar e quem não quer. Essa caricatura interessa a quem prefere fugir da discussão principal. O trabalhador não está pedindo para abandonar o trabalho. Está reivindicando o direito de trabalhar sem abandonar a própria vida.
Ninguém está propondo que a sociedade deixe de produzir ou que os serviços essenciais parem. A questão é outra: como organizar o trabalho para que a produção e o lucro não dependam da exaustão permanente de quem faz tudo funcionar? Se uma atividade econômica só consegue sobreviver roubando dos trabalhadores o tempo de viver, talvez o problema não esteja nos trabalhadores, mas no modelo de organização dessa atividade.
Como pastor, não consigo olhar para essa discussão sem lembrar que, na tradição bíblica, o descanso vai muito além de recuperar as energias para produzir novamente. Em Deuteronômio, ele está associado à memória da libertação da escravidão no Egito. O descanso é também um sinal de liberdade: ninguém deveria viver eternamente submetido a uma lógica em que sua existência se resume a servir.
E esse direito não era reservado aos poderosos. A orientação bíblica incluía filhos, servos, estrangeiros e até os animais. O descanso não era prêmio por bom desempenho, mas parte de uma ordem que reconhecia os limites e a dignidade da vida e Jesus reforçou essa perspectiva ao ensinar que o sábado foi feito por causa do ser humano, e não o ser humano por causa do sábado. Em outras palavras, as regras devem servir à vida. Quando passam a destruí-la, é hora de revê-las.
O fim da escala 6×1 representa, portanto, mais do que uma mudança na jornada de trabalho. Significa devolver às pessoas uma parte do tempo que lhes foi tomado: tempo para cuidar da saúde, estudar, acompanhar os filhos, participar da comunidade, cultivar a espiritualidade e exercer a cidadania. Tempo para existir sem que cada minuto precise justificar sua utilidade econômica.
É claro que a transição exige planejamento e adaptação dos diferentes setores. Mas dificuldades de implementação não podem servir de desculpa para perpetuar indefinidamente uma realidade desumana. A economia existe para atender às necessidades da sociedade, não para exigir que a sociedade sacrifique a saúde e a felicidade em nome da economia.
A vitória contra a escala 6×1 deve ser celebrada, portanto, não como uma vitória contra o trabalho, mas como uma vitória a favor da vida. Que ninguém precise escolher entre pagar as contas e acompanhar o crescimento dos filhos, entre manter o emprego e preservar a saúde, entre sobreviver à semana e ter alguma alegria no domingo.
E, se alguém ainda quiser recorrer à Bíblia para defender o trabalho sem descanso, fica a pergunta deste pastor: se até o Todo-Poderoso reservou um dia para descansar, quem somos nós para exigir que o trabalhador seja mais resistente do que Deus? Afinal, se nem Deus instituiu a escala 7×0, não seremos nós que vamos defender a 6×1 como mandamento divino.
Amém. E bom descanso!
Por Zé Barbosa Junior
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