Bolsonarismo nas redes: a indústria global que fabrica popularidade

Bolsonarismo nas redes: a indústria global que fabrica popularidade

Uma indústria internacional formada por bilionários, empresas de inteligência, operadores políticos e organizações de direita como o bolsonarismo nas redes transformou o monitoramento e a manipulação das redes sociais em instrumentos de poder. O objetivo dessas estruturas não é apenas convencer usuários, mas fabricar popularidade, ampliar o alcance de conteúdos políticos e influenciar o que milhões de pessoas leem, assistem e compartilham diariamente.

O sistema envolve empresas que monitoram informações em tempo real, organizações que produzem conteúdos políticos em escala industrial, fazendas de bots, influenciadores remunerados e grupos de WhatsApp e Telegram responsáveis por redistribuir mensagens. Tudo isso acontece numa internet controlada por poucos conglomerados, como Meta, Alphabet, ByteDance e X, cujos negócios dependem da atenção dos usuários e da publicidade.

As plataformas também participam dessa engrenagem. No caso da Meta, investigações documentaram decisões que protegeram veículos de direita, enfraqueceram medidas contra a manipulação e alteraram a distribuição de notícias. A responsabilidade da empresa envolve tanto a tolerância a abusos conhecidos quanto intervenções nos sistemas que definem o alcance das publicações.

O funcionamento dessa engrenagem é conhecido como astroturfing, expressão utilizada para definir a fabricação de apoio popular aparentemente espontâneo. Curtidas, comentários, visualizações e compartilhamentos coordenados podem criar a impressão de que uma publicação possui relevância muito maior do que realmente conquistou entre pessoas comuns.

Quando essas interações influenciam os sistemas de recomendação, a manipulação pode ganhar uma segunda etapa: os algoritmos passam a distribuir conteúdos que já receberam uma onda artificial de engajamento. O efeito pode alcançar usuários que nunca tiveram contato com os operadores responsáveis pela campanha.

Como funciona a indústria que fabrica popularidade

O processo começa pelo monitoramento de notícias, publicações, palavras-chave e tendências. Empresas especializadas identificam os assuntos que ganham atenção e oferecem essas informações a clientes interessados em acompanhar acontecimentos políticos, econômicos ou comerciais.

Uma organização que também possua ferramentas de distribuição pode utilizar essas informações para selecionar conteúdos favoráveis aos próprios interesses. Uma manchete publicada por um site, por exemplo, pode ser reproduzida por dezenas de páginas, perfis e grupos, acompanhada de comentários e mensagens semelhantes.

O objetivo é transformar uma publicação em assunto recorrente. Quanto mais ela aparece, maior pode ser a impressão de relevância entre os usuários e a possibilidade de alcançar sistemas de recomendação baseados em sinais de engajamento. O processo pode continuar nos aplicativos de mensagens, onde vídeos, links e manchetes são redistribuídos entre comunidades.

Uma pesquisa publicada pela revista científica Scientific Reports, do grupo Nature, em maio de 2025, encontrou evidências expressivas desse tipo de distribuição coordenada.

Os pesquisadores analisaram 11,24 milhões de publicações em 16.169 páginas do Facebook, relacionadas ao debate político norte-americano de 2021. Em 22,9% das páginas examinadas foram identificados padrões de compartilhamento coordenado.

Entre os links políticos distribuídos dessa maneira, 54% direcionavam para sites classificados à direita, contra 28% destinados a sites de esquerda. A pesquisa também identificou páginas aparentemente independentes que compartilhavam repetidamente os mesmos endereços, algumas com intervalos médios de poucos segundos.

Nem toda coordenação encontrada era fraudulenta. Parte envolvia veículos de um mesmo grupo empresarial. Os pesquisadores, entretanto, identificaram padrões compatíveis com operações encobertas de amplificação e demonstraram como redes de páginas podem concentrar artificialmente a circulação de determinadas fontes.

Em setembro de 2025, outro estudo, conduzido por Richard Rogers e Nicola Righetti, examinou a fabricação de atenção no Facebook e apontou como redes de compartilhamento coordenado podem explorar os sistemas de distribuição. Os autores também identificaram mudanças nos critérios da Meta que permitem a permanência de determinadas atividades organizadas de amplificação.

Os autores destacam o caso do Daily Wire, grupo de mídia conservador cuja amplificação envolvia páginas que não explicitavam sua ligação com a fonte que promoviam. Segundo o estudo, o estreitamento da definição de comportamento inautêntico coordenado adotada pela Meta permite que redes desse tipo permaneçam fora dos critérios de remoção.

As escolhas da Meta e a amplificação da direita

O favorecimento de conteúdos de direita também aparece em decisões tomadas dentro da própria empresa.

Em maio de 2020, uma investigação do Wall Street Journal revelou que pesquisadores do Facebook haviam identificado efeitos de polarização produzidos pelos algoritmos. A direção bloqueou ou enfraqueceu propostas para enfrentar o problema. As discussões internas envolviam o risco de perda de engajamento e o impacto das mudanças sobre conteúdos conservadores nos Estados Unidos.

Uma das propostas buscava reduzir a influência desproporcional de usuários que compartilhavam conteúdos em volumes extremos. Os pesquisadores consideravam que a medida poderia fortalecer a defesa contra spam e manipulação coordenada. Segundo a reportagem, Mark Zuckerberg determinou que o peso previsto para a intervenção fosse reduzido em 80%.

Outra investigação do Wall Street Journal, publicada em outubro de 2020 e reproduzida pelo TheWrap, revelou interferência política nas alterações do feed preparadas no fim de 2017. Executivos manifestaram preocupação com o impacto das mudanças sobre veículos de direita, como o Daily Wire. Os engenheiros reformularam a proposta para que veículos de esquerda, como a Mother Jones, fossem mais afetados do que no planejamento anterior. Zuckerberg aprovou as alterações. O Facebook negou ter feito mudanças com a intenção de atingir veículos específicos.

Em janeiro de 2025, a Meta anunciou o encerramento da checagem independente nos Estados Unidos e a retirada de restrições sobre temas como imigração e identidade de gênero. A empresa também anunciou mudanças na recomendação de conteúdo político no Facebook, Instagram e Threads e informou que, na transição do programa norte-americano, deixaria de reduzir a distribuição de conteúdos classificados como falsos pelos checadores.

A Meta apresentou essas mudanças como medidas em defesa da liberdade de expressão. Sua direção passou a adotar argumentos sobre censura e viés dos checadores que também são centrais no discurso da direita norte-americana.

No mesmo período, Zuckerberg se aproximou de Donald Trump, a Meta doou US$ 1 milhão para sua posse e o conservador Joel Kaplan assumiu o comando dos assuntos globais da companhia. Essas decisões evidenciam uma aproximação política com o trumpismo. A busca de lucro se combina com relações de poder e escolhas políticas dos dirigentes na definição das regras de circulação da informação.

Wall Street, Trump e o mercado da informação em segundos

A ligação entre capital financeiro e influência política tem um precedente emblemático. Robert Mercer, bilionário que construiu sua fortuna na Renaissance Technologies, uma das maiores empresas de investimentos quantitativos do mundo, financiou a Cambridge Analytica, responsável por serviços de análise de dados e comunicação utilizados pela campanha de Donald Trump em 2016.

Mercer também foi financiador do Breitbart, veículo conservador dirigido por Steve Bannon, estrategista de Trump e articulador de movimentos de direita em diferentes países.

As investigações sobre a Cambridge Analytica revelaram o uso irregular de dados de milhões de usuários do Facebook para análise de perfis e direcionamento de propaganda política. O episódio demonstrou como recursos financeiros, informações pessoais e ferramentas digitais podiam ser combinados em estratégias eleitorais.

Essa aproximação entre tecnologia, investimentos e política permanece presente no mercado norte-americano. Em 2025, a agência Reuters revelou que a 1789 Capital, fundo de investimentos alinhado ao movimento trumpista e que tem Donald Trump Jr. entre seus sócios, ultrapassou US$ 1 bilhão em ativos. Seu portfólio inclui participações em empresas de inteligência artificial, defesa e tecnologia, como a xAI, de Elon Musk.

Em 2026, a própria empresa de mídia de Trump passou a comercializar a velocidade de acesso a informações políticas.

A Trump Media & Technology Group lançou o Truth API, serviço que permite a investidores institucionais receber publicações do Truth Social por um canal de baixa latência. Segundo a empresa, mais de dez clientes, principalmente firmas de negociação de alta frequência, contrataram o serviço por valores entre US$ 60 mil e US$ 100 mil mensais.

O produto permite receber mensagens de contas influentes em frações de segundo, oferecendo uma vantagem temporal a operadores financeiros que utilizam sistemas automatizados para negociar ações e outros ativos.

Uma pesquisa publicada no Journal of Financial Research, em março de 2026, ajuda a explicar o valor desse negócio. O estudo identificou mudanças na volatilidade e na liquidez do mercado acionário em frações de segundo após publicações presidenciais, indicando a atuação de sistemas que monitoram redes sociais e executam negociações automaticamente.

O efeito também aparece na manipulação de criptomoedas. Um estudo publicado em 2024 na International Review of Financial Analysis examinou 322 episódios de elevação artificial de preços e identificou como mensagens no X atraíam investidores e influenciavam a movimentação dos ativos.

Os mecanismos de propaganda política e negociação financeira possuem finalidades distintas. Ambos, entretanto, demonstram o valor econômico adquirido pela velocidade de acesso, processamento e distribuição de informações.

Empresas israelenses e o mercado internacional de manipulação política

Uma investigação internacional coordenada pela Forbidden Stories, com participação do The Guardian, revelou em 2023 a atuação da Team Jorge, organização israelense comandada pelo empresário Tal Hanan.

O grupo oferecia serviços de influência política e apresentou aos jornalistas infiltrados uma plataforma chamada Advanced Impact Media Solutions (AIMS). Segundo seus operadores, o sistema era capaz de controlar mais de 30 mil identidades digitais fictícias.

Os repórteres rastrearam aproximadamente 2 mil perfis relacionados à ferramenta e identificaram atividades em cerca de 20 países. As identidades falsas eram utilizadas para publicar mensagens, interagir com outros perfis e participar de discussões em plataformas como Facebook, Instagram, X, YouTube e Telegram.

Outra companhia israelense, a Archimedes Group, foi identificada pela Meta em 2019 como responsável por uma operação internacional que utilizava contas falsas para distribuir propaganda política e aumentar artificialmente o engajamento.

A investigação resultou na remoção de 265 ativos digitais. As páginas administradas pelos operadores somavam aproximadamente 2,8 milhões de seguidores, enquanto os gastos em publicidade alcançavam US$ 812 mil.

Em 2024, a OpenAI identificou uma operação da empresa israelense STOIC, especializada em gestão de campanhas políticas. O esquema utilizava inteligência artificial para produzir mensagens e comentários distribuídos no Facebook, Instagram, YouTube, X e sites próprios.

Perfis fictícios interagiam com publicações da própria rede para criar aparência de participação popular. Segundo a OpenAI, a operação teve alcance “limitado” entre usuários autênticos.

As investigações envolveram empresas distintas e não demonstraram a existência de um único comando. Revelaram, porém, um mercado internacional de serviços privados que incluem personagens falsos, automação e operações de influência política.

Contrato milionário liga Israel a ex-chefe de campanha de Trump

Uma das conexões empresariais mais importantes aparece em documentos registrados no Departamento de Justiça dos Estados Unidos.

A Clock Tower X, comandada por Brad Parscale, ex-chefe de campanha de Donald Trump, foi contratada pela Havas Media Germany para prestar serviços de comunicação em benefício do governo de Israel.

Um aditivo registrado em dezembro de 2025 elevou o orçamento documentado para US$ 9 milhões. O contrato apresenta a iniciativa como uma campanha de comunicação contra o antissemitismo nos Estados Unidos.

O planejamento descreve uma operação que inclui monitoramento de comunidades, mapeamento de influenciadores, pesquisas de opinião, segmentação de públicos e produção de milhares de conteúdos.

Estão previstas 5 mil variações de conteúdo por mês, com pelo menos 80% do material direcionado à geração Z. A distribuição inclui TikTok, Instagram, YouTube, podcasts e propriedades da Salem Media Network, grupo norte-americano de comunicação conservadora.

O contrato estabelece ainda a meta de 50 milhões de impressões mensais por meio de publicidade paga e prevê campanhas de otimização para mecanismos de busca.

A estratégia ultrapassa as redes tradicionais. O documento prevê a criação de páginas e conteúdos destinados a influenciar a maneira como sistemas de inteligência artificial apresentam determinadas informações.

Não há no contrato comprovação de contratação de fazendas de bots pela Clock Tower X. Sua importância está na documentação de uma estrutura empresarial que reúne governo estrangeiro, agência multinacional, operador ligado ao trumpismo, monitoramento digital, produção industrial de conteúdo e distribuição por canais conservadores.

Operações coordenadas chegam às redações e aos mecanismos de busca

A manipulação digital também tenta alcançar os espaços onde o público espera encontrar informação jornalística.

Em 2024, o serviço francês VIGINUM identificou a expansão da rede Portal Kombat, formada por 224 sites apresentados como portais de informação e utilizados na distribuição de narrativas favoráveis à Rússia.

As páginas reproduziam conteúdos automaticamente e utilizavam técnicas de otimização para mecanismos de busca. A investigação francesa encontrou ainda contas associadas à operação Doppelganger que ajudavam a aumentar artificialmente a visibilidade de sites da rede.

A Doppelganger também foi investigada pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos por empregar páginas que imitavam veículos jornalísticos, perfis falsos e publicidade na distribuição de propaganda.

As operações russas possuem responsáveis e interesses próprios, mas demonstram como sites, redes sociais e mecanismos de busca podem ser utilizados conjuntamente para inserir narrativas políticas no ambiente informativo.

Operações dessa natureza também circulam no YouTube. Em dezembro de 2025, o Google removeu 1.256 canais relacionados a uma campanha de influência pró-Rússia e milhares de canais associados a operações originadas na China e na Indonésia.

No mesmo período, a empresa bloqueou 85 domínios vinculados a uma operação pró-Rússia para impedir sua presença no Google News e no Discover.

Monitoramento permanente: o que acontece antes de uma notícia viralizar

A velocidade com que informações são identificadas na internet ganhou uma demonstração pública num experimento realizado pelo programador Pieter Levels.

Ao publicar links de teste no X, Levels registrou rastreadores automatizados acessando seus sites em apenas 0,4 segundo. Uma das publicações recebeu mais de 1.400 requisições associadas a infraestruturas hospedadas na Amazon e na Cloudflare.

Mesmo um link publicado como resposta pouco visível numa conversa começou a receber acessos externos em aproximadamente oito segundos.

Entre os serviços identificados estava a Dataminr, companhia norte-americana que comercializa inteligência extraída de informações públicas para governos, bancos e grandes corporações.

Em agosto de 2026, a Dataminr anunciou um contrato de US$ 318 milhões com o Departamento de Defesa dos Estados Unidos. Segundo a empresa, sua tecnologia acompanha informações provenientes de mais de um milhão de fontes públicas, em aproximadamente 150 idiomas.

O experimento revela a velocidade da coleta automatizada, mas não estabelece que os acessos registrados alimentem fazendas de bots. O monitoramento comercial de acontecimentos e as operações de manipulação política são atividades distintas, embora organizações de influência também possam desenvolver seus próprios sistemas de acompanhamento e distribuição.

Para essas estruturas, detectar um assunto logo no início de sua circulação permite preparar mensagens, identificar públicos interessados e organizar campanhas antes que o conteúdo alcance audiências maiores.

Bolsonarismo nas redes: a distribuição coordenada no Brasil

No Brasil, investigações já documentaram estruturas de divulgação artificial associadas ao bolsonarismo.

Em julho de 2020, a Meta removeu 33 contas do Facebook, 14 páginas, um grupo e 37 contas do Instagram envolvidos em comportamento inautêntico coordenado.

A investigação encontrou conexões com pessoas ligadas ao então PSL e funcionários de gabinetes de Jair Bolsonaro, Flávio Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro e outros políticos. Os operadores utilizavam identidades fictícias e páginas que simulavam veículos jornalísticos para distribuir conteúdos políticos e atacar adversários.

O papel dos aplicativos de mensagens foi documentado pelo NetLab, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em estudo publicado pela Fundação Mozilla sobre as eleições de 2022.

Os pesquisadores identificaram grupos e canais bolsonaristas que compartilhavam mensagens, vídeos e links entre influenciadores e comunidades. Espaços como Vista Pátria Chat, Aliança pelo Brasil, CONSERVADORES e Revista Direita BR funcionavam como pontos de amplificação.

A pesquisa encontrou estruturas permanentes de distribuição, nas quais conteúdos de sites e plataformas como o YouTube circulavam por WhatsApp e Telegram, fortalecendo narrativas políticas e campanhas de desinformação sobre a integridade das eleições.

Em 2026, um levantamento do Instituto Democracia em Xeque, divulgado pelo Aos Fatos, identificou 255 perfis no Instagram que publicaram ou coassinaram 1.204 conteúdos ligados a pautas da extrema direita em apenas um mês.

As publicações acumularam 58 milhões de visualizações e 5 milhões de curtidas e comentários. A estrutura utilizava também a ferramenta de publicações colaborativas do Instagram para compartilhar audiência entre diferentes contas.

Outras formas de amplificação remunerada apareceram em investigações sobre competições de vídeos curtos.  Eu revelei aqui na Fórum, em novembro de 2025, um campeonato de cortes com prêmio de R$ 50 mil para promover conteúdos de Tarcísio de Freitas. A iniciativa possuía regras editoriais, acompanhamento de desempenho e grupos de organização. O governo paulista negou envolvimento.

Nos Estados Unidos, uma operação semelhante de produção remunerada de mensagens políticas foi revelada pelo Washington Post em 2020. A Turning Point Action, organização conservadora ligada ao movimento de Trump, utilizava a empresa Rally Forge para coordenar jovens encarregados de publicar mensagens políticas repetitivas.

A Meta identificou comportamento inautêntico e removeu 202 contas do Facebook, 54 páginas e 76 contas do Instagram associadas à operação.

As remoções documentadas mostram que a Meta dispõe de capacidade para investigar redes coordenadas e intervir em sua distribuição. Elas não demonstram que as regras sejam aplicadas de forma consistente a todas as operações nem anulam os antecedentes de decisões que favoreceram atores de direita.

Algoritmos favorecem conteúdos conservadores e reduzem espaço do jornalismo

As operações de amplificação encontram sistemas de recomendação cujas escolhas de distribuição também produzem efeitos políticos. As intervenções documentadas no Facebook mostram que esses mecanismos são objeto de decisões empresariais. Pesquisas sobre outras plataformas identificaram favorecimento de conteúdos conservadores e de extrema direita.

Uma pesquisa publicada na revista Nature em fevereiro de 2026, acompanhou 4.965 usuários do X num experimento realizado nos Estados Unidos.

Os pesquisadores descobriram que a exposição ao feed algorítmico deslocou determinadas opiniões políticas para posições conservadoras, especialmente sobre Donald Trump e assuntos internacionais.

O algoritmo também reduziu em 58,1% a presença de publicações de veículos jornalísticos tradicionais, em comparação com o feed cronológico, enquanto conteúdos de ativistas políticos recebiam maior exposição.

Na Alemanha, uma investigação da Global Witness identificou recomendações desproporcionais de publicações favoráveis à extrema direita antes das eleições de 2025.

Nos testes, 78% dos conteúdos políticos recomendados pelo TikTok a partir de contas não seguidas apoiavam a Alternativa para a Alemanha (AfD). No X, a proporção chegou a 64%.

Esses estudos não demonstram que todo favorecimento algorítmico seja provocado por bots nem estabelecem a intenção dos dirigentes em cada caso. Revelam, entretanto, efeitos políticos dos sistemas de recomendação. No caso da Meta, as investigações sobre decisões internas acrescentam evidências de intervenção deliberada nas condições de distribuição de conteúdos.

O lucro das big techs e as escolhas de fiscalização

A concentração econômica das plataformas torna essa disputa ainda mais relevante. Meta, Alphabet e outros conglomerados controlam ferramentas de distribuição, publicidade, segmentação de audiência e informações detalhadas sobre o comportamento dos usuários.

No segundo trimestre de 2026, a Meta registrou US$ 60,8 bilhões em receita. Segundo seu balanço financeiro, as impressões publicitárias nas plataformas da companhia cresceram 14% em relação ao mesmo período de 2025, enquanto a receita de publicidade aumentou 27%.

O crescimento não pode ser atribuído às fazendas de bots. Os números mostram, contudo, a dimensão de um negócio sustentado pela circulação de conteúdos e pela comercialização da atenção.

As empresas possuem mecanismos de combate a contas falsas e interações artificiais, mas decidem quais comportamentos investigar, quais critérios aplicar e quais estruturas de amplificação permitir. A permanência de redes organizadas precisa ser examinada à luz dessas escolhas, dos interesses comerciais e das relações políticas das plataformas.

A fiscalização também depende de informações que permanecem sob controle das próprias companhias, como critérios de recomendação, registros de moderação e dados detalhados de alcance.

Em outubro de 2026, o Tribunal Superior Eleitoral determinou que a Meta apresentasse esclarecimentos técnicos sobre acusações da campanha de Lula de restrições seletivas na distribuição de publicações no Instagram e Facebook.

O ministro Marco Aurélio Bellizze solicitou informações sobre os sistemas de recomendação e sobre providências tomadas diante dos 255 perfis artificiais apontados pela coligação. A Meta reconheceu problemas técnicos, mas negou favorecimento político e afirmou estar comprometida com o tratamento isonômico das candidaturas.

O episódio levou à Justiça Eleitoral brasileira uma questão que atravessa as investigações internacionais: o poder de organizações privadas para fabricar visibilidade e o papel das plataformas na definição de quem será amplificado ou terá sua distribuição restringida. As acusações brasileiras dependem de apuração própria, mas se inserem numa discussão para a qual o histórico internacional da Meta fornece antecedentes relevantes.

Enquanto empresas e operadores políticos investem em monitoramento permanente, inteligência artificial e redes capazes de distribuir conteúdos em segundos, a popularidade nas plataformas deixa de ser apenas uma medida do interesse espontâneo da sociedade. Ela também se transforma em algo que pode ser financiado, produzido e colocado em circulação por estruturas com recursos financeiros e tecnológicos

Essa fabricação depende também das empresas que controlam a distribuição. O histórico da Meta mostra que suas decisões sobre algoritmos, moderação e aplicação de regras fazem parte da disputa política. Investigar a indústria que promove a extrema direita exige acompanhar tanto os operadores que produzem as campanhas quanto as plataformas cujas escolhas permitem e favorecem sua circulação. Com informações da Fórum

Veja também

Combate ao crime: entenda a PEC da Segurança do governo Lula

Combate ao crime: entenda a PEC da Segurança do governo Lula

 A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado concluiu nesta quarta-feira (14) a votação …