Brasil viu Flávio Bolsonaro fugir de Renan e a Justiça meter a mão peluda

Brasil viu Flávio Bolsonaro fugir de Renan e a Justiça meter a mão peluda

O último debate presidencial da TV Globo, não-ocorrido, é o retrato bem-acabado de uma eleição atingida por decisões judiciais, conveniências políticas e candidatos despreparados para a função que pleiteiam. O Tribunal Superior Eleitoral proibiu perguntas ao púlpito vazio de Lula (que seria o grande ausente da noite) e o Supremo Tribunal Federal obrigou a inclusão de Renan Santos, cujo partido não possui o número mínimo de parlamentares exigido no Congresso. Diante do embarque do candidato do Missão, Flávio Bolsonaro abandonou o barco. E a Globo, após sua principal estrela da noite se pirulitar, anunciou o cancelamento do debate.

A primeira constatação é a de que houve uma interferência do Poder Judiciário. Ao ditar como os candidatos poderiam ou não interagir com a ausência de um adversário após eles mesmos terem concordado com a regra (a questão do púlpito) e ao atropelar a jurisprudência para forçar a entrada de Renan Santos, o Judiciário interferiu mal e de forma equivocada. A Justiça deveria atuar como fiadora das regras do jogo, mas, ao tentar atuar como diretora de TV, termina prejudicando não apenas a própria imagem institucional, mas o andamento de todo o processo eleitoral.

Não é a primeira vez, contudo, que o Judiciário interfere em uma eleição (desde a redemocratização isso acontece) e nesta eleição. Antes deste caso, tivemos, por exemplo, o do ministro André Mendonça, que usou uma reclamação de Flávio Bolsonaro para aplicar uma censura em massa. Ao invés de mandar retirar apenas postagens que afirmavam de forma falsa que ele apoiaria as propostas de aliados que defendem destituir Nossa Senhora Aparecida do posto de Padroeira do Brasil, Mendonça removeu críticas que não citavam o nome de Flávio (como a de Antonio Tabet), que cobravam atenção, como a de Erika Hilton, e até gente que postou louvores à santa.

Por outro lado, não nos enganemos com o vitimismo de ocasião. Por mais que Flávio Bolsonaro esbraveje aos quatro ventos que não participou devido a uma censura do Judiciário, sua desistência teve um motivo muito mais tático: o pavor de dividir a arena e debater com Renan Santos. E apesar da mão peluda do Judiciário, que precisa ser criticada, foi a saída dele que levou o debate a não ser realizado. Se tivesse matado no peito, dito que se garantia, poderia ter saído maior de tudo isso. Como presidente, frente a percalços, ele vai se retirar e fazer uma live?

O cenário desenhado antes da liminar era o paraíso para o candidato. Ele contava com Ronaldo Caiado, Augusto Cury e Romeu Zema atuando livremente como sua linha auxiliar ou adversário leve. Mais do que isso, as regras engessadas dos debates impedem que os jornalistas rebatam mentiras do candidato em tempo real. Sem ser confrontado por mediadores e cercado de aliados, o debate seria mamão com açúcar para ele. A entrada de um adversário disposto ao embate com ele quebrou sua zona de conforto.

Sem Flávio e sem Lula (os dois nomes que, segundo o Datafolha, respondem por 85% dos votos válidos), a Globo decidiu que o show não deveria continuar só com os nanicos e cancelou alegando interferência do Judiciário nas regras.

É compreensível do ponto de vista de audiência, mas vale lembrar que uma liminar judicial garantiu a presença de André Marinho (Novo) no debate para candidatos a governador do Rio. E, naquele episódio, não se viu nem sombra da mesma indignação com a interferência da Justiça que tomou conta das redes e dos estúdios agora. Da mesma forma, Kassio Nunes Marques já havia obrigado a Globo a incluir Romeu Zema (Novo) no debate, o que ajudaria Flávio, e não houve todo esse ranger de dentes.

Todo esse caos deveria levantar uma reflexão urgente sobre o papel da Justiça nas eleições. A grita de agora contra a interferência é justa, mas muitos não apenas acharam normal como apoiaram abertamente quando vazamentos seletivos vindos de um inquérito no STF atingiram Alexandre de Moraes e ajudaram a criar um caldo que prejudicou Lula. Caso tudo tivesse sido vazado, Moraes, Dias Toffoli, Luiz Fux, André Mendonça e, principalmente, Nunes Marques, estariam todos enrolados.

A seletividade dos vazamentos foi a pior interferência eleitoral do Judiciário neste primeiro turno. Sim, na imprensa, aprendemos muito pouco com toda a crise do lavajatismo.

O que estamos vivendo, contudo, é uma escalada, em que cada lado extrapola com base no novo patamar de extrapolação firmado pelo adversário.

Ao mesmo tempo, precisamos discutir os debates. O modelo básico no Brasil, com raríssimas exceções, virou uma máquina de promover dedo no olho e gritaria, em vez de uma discussão dura e saudável de ideias. São formatos essencialmente travados, que impedem o real contraditório e que, no limite, funcionam muito mais como cartões de visita para as próprias emissoras do que como grandes ferramentas da nossa democracia. Se essa é a festa da democracia, é uma festa borocochô.

Precisamos de debates que não sejam propriedade de veículos específicos, mas eventos coletivos de interesse público, transmitidos simultaneamente por todas as redes, como nos EUA ou na Espanha. Um modelo que imponha um formato capaz de constranger quem ousa faltar e que, acima de tudo, garanta a checagem de informações em tempo real na tela do eleitor, trazendo assuntos que interessam à vida das pessoas e não apenas audiência e cliques.

A grande questão é: todo mundo topa mudar e perder um pouco de controle? Caso contrário, a política, a Justiça e a própria imprensa saem menores de tudo isso.

Por Leonardo Sakamoto

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