Que Brasil é este que está indo votar? Talvez seja a pergunta mais importante desta eleição – e uma das menos formuladas
Há um momento, na véspera de toda eleição, em que a campanha termina e começa outra coisa: o encontro de uma sociedade consigo mesma. Mais do que escolher um presidente, o Brasil chega às urnas como quem chega diante de um espelho. O país que votará neste domingo já não é o mesmo de quatro anos atrás – e talvez ainda não tenha percebido inteiramente o tamanho da transformação.
Neste domingo, 4 de outubro, mais de 150 milhões de brasileiros irão às urnas no primeiro turno das eleições de 2026. Além de presidente, escolherão governadores, senadores, deputados federais e deputados estaduais ou distritais.
Durante meses, o país foi submetido ao ritual conhecido que se repete a cada nova eleição: promessas, acusações, slogans, pesquisas, debates, vídeos, memes, escândalos e guerras nas redes sociais. Cada candidatura procurou apresentar sua própria interpretação do Brasil.
Mas existe uma pergunta anterior a todas elas: que Brasil é este que está indo votar? Talvez seja a pergunta mais importante desta eleição – e uma das menos formuladas.
Porque o país mudou. Mudou demograficamente, tecnologicamente, culturalmente e economicamente. Mudou a maneira como as pessoas trabalham, constituem famílias, consomem informação, se relacionam e enxergam o futuro.
O Brasil está envelhecendo. As famílias estão mudando. A maternidade acontece mais tarde e o número de filhos diminui. Ao mesmo tempo, parcela crescente da população vive uma existência mediada por telas, plataformas e algoritmos.
A inteligência artificial acrescentou uma camada ainda mais profunda à transformação. Já não estamos apenas diante de máquinas capazes de processar informação, mas de sistemas capazes de produzir textos, imagens, vozes e vídeos que podem disputar com a própria realidade o direito de definir aquilo que acreditamos ter acontecido.
A Justiça Eleitoral precisou incorporar essa realidade às regras de 2026, com exigências de identificação para conteúdos sintéticos produzidos ou alterados por inteligência artificial e restrições específicas a novos conteúdos envolvendo imagem, voz ou manifestação de candidatos e figuras públicas no período próximo à votação.
Não é um detalhe técnico. É um sinal dos tempos. A democracia entrou numa era em que a realidade pode ser fabricada em escala industrial. Uma fotografia pode ser falsa. Uma voz pode ser clonada. Um vídeo pode mostrar alguém dizendo o que nunca disse. Uma cena pode jamais ter acontecido e, ainda assim, circular diante de milhões de pessoas com a força emocional de uma memória.
O eleitor contemporâneo precisa fazer algo que nenhuma geração anterior precisou fazer nessa escala: desconfiar não apenas da mentira, mas também da aparência da verdade. Isso muda a natureza da política.
Mas a tecnologia não é a única transformação silenciosa. Há outra acontecendo por baixo dos debates eleitorais: a mudança demográfica. Durante décadas, o Brasil foi imaginado como um país jovem, expansivo e em crescimento permanente. Essa imagem está ficando para trás. A população envelhece, as famílias encolhem e aposentadorias, cuidados de longa duração, saúde, produtividade e reorganização do trabalho terão peso crescente.
Ao mesmo tempo, o mundo do trabalho passa por uma transformação que ainda não compreendemos inteiramente. A inteligência artificial e a automação podem alterar a própria relação entre emprego, renda, produtividade e identidade.
Durante dois séculos, aprendemos a organizar a vida em torno do trabalho. E se o trabalho deixar de ocupar o centro da existência como ocupou até agora?
Essa pergunta parece distante quando a campanha se concentra nas urgências do presente. Mas pode determinar boa parte do futuro.
Existe ainda uma transformação menos visível, porém talvez mais profunda: a do vínculo social. O brasileiro continua conectado como nunca e, ao mesmo tempo, enfrenta novas formas de solidão. Temos mais canais de comunicação e menos garantias de compreensão; mais informação e menos consenso sobre o que é fato; mais possibilidades de escolha e mais ansiedade diante delas.
As redes sociais deram voz a milhões de pessoas, mas também fragmentaram o espaço público em comunidades que muitas vezes compartilham não apenas opiniões diferentes, mas realidades diferentes.
Cada grupo pode viver dentro de sua própria narrativa, acreditar que possui os fatos e que o outro possui apenas propaganda.
É nesse terreno que a polarização encontra seu combustível mais poderoso. Não se trata apenas da velha divisão entre direita e esquerda. É a dificuldade crescente de uma sociedade em construir uma realidade comum a partir da qual possa discutir suas divergências.
Uma democracia não exige que seus cidadãos pensem da mesma maneira. Exige algo mais elementar e mais difícil: que consigam reconhecer que vivem no mesmo mundo – e que o adversário não é necessariamente um inimigo.
Por isso, esta eleição deveria ser observada também como um retrato. O voto revela escolhas políticas, mas também medos, expectativas, frustrações, esperanças e percepções sobre o país. Revela aquilo que uma sociedade considera urgente, aquilo que teme perder e aquilo que ainda imagina ser possível conquistar.
Há, porém, uma armadilha: acreditar que a eleição resolverá tudo. Não resolverá. Nenhum presidente poderá interromper sozinho o envelhecimento da população, eliminar as consequências das mudanças climáticas, controlar a revolução tecnológica ou reconstruir automaticamente os vínculos sociais corroídos pela polarização.
A urna escolhe governantes. Não escolhe o futuro inteiro. O futuro continuará sendo construído – ou desperdiçado – depois que as urnas forem fechadas.
Talvez por isso a pergunta mais importante da véspera não seja quem vencerá. A pergunta é outra: o que faremos com o país que continuará existindo depois da eleição?
Quando os discursos terminarem, permanecerão os mesmos desafios estruturais. A desigualdade continuará exigindo respostas. O envelhecimento exigirá uma nova arquitetura social. A crise climática pressionará cidades, água, agricultura e infraestrutura. A inteligência artificial continuará avançando independentemente dos governos. E a democracia continuará dependendo não apenas das instituições, mas também da disposição dos cidadãos para conviver com diferenças.
No dia seguinte à eleição, metade do país poderá comemorar e outra metade poderá se frustrar. Mas nenhuma das duas metades desaparecerá. O adversário continuará existindo. O conflito continuará existindo. O país continuará sendo um só.
Essa talvez seja a grande prova que começa depois da urna: transformar uma sociedade dividida em uma sociedade capaz de discordar sem deixar de compartilhar um destino comum.
A democracia brasileira chega às urnas com regras específicas para enfrentar um ambiente em que desinformação e conteúdos produzidos por inteligência artificial passaram a fazer parte do processo político. Mas nenhuma legislação será suficiente se o cidadão abdicar da própria capacidade de julgamento.
No fundo, democracia é também um exercício de maturidade. Significa aceitar que nenhuma eleição produzirá o país perfeito. Significa reconhecer que o adversário político não deixa de ser cidadão porque pensa diferente. Significa compreender que instituições são mais importantes que indivíduos. E significa perceber que votar não é entregar a alguém a responsabilidade pelo futuro: é assumir uma parcela dela.
Amanhã, o Brasil apertará botões, depositará escolhas numa urna eletrônica e aguardará os resultados. Mas o verdadeiro espelho estará além da urna. Estará no país que acordará na segunda-feira: um Brasil mais velho, mais tecnológico, mais urbano, mais conectado, mais desigual em alguns aspectos e mais complexo em quase todos.
Um Brasil que talvez ainda tente resolver problemas do século 21 com mentalidade e categorias políticas do século 20. Um Brasil diante de uma transformação histórica que não cabe inteiramente nos discursos eleitorais.
E, qualquer que seja o resultado, uma certeza permanecerá: o país escolherá governantes, mas continuará tendo diante de si a tarefa muito maior de decidir que sociedade deseja construir.
Porque o Brasil que emergirá das urnas continuará sendo, em última instância, aquilo que nós, brasileiros, formos capazes de fazer dele.
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