Toma, distraído: aliados de Flávio Bolsonaro culpam Nikolas Ferreira por derrota nas urnas

Toma, distraído: aliados de Flávio Bolsonaro culpam Nikolas Ferreira por derrota nas urnas

Aliados de Flávio Bolsonaro (PL) passaram a atribuir ao deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) parte da reação de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no Nordeste no segundo turno. Segundo Valdo Cruz, da GloboNews, a campanha avaliou que a série de vídeos produzida pelo parlamentar para conquistar votos na região acabou provocando efeito contrário.

“A própria campanha do Flávio reconheceu para mim que foi um erro. No início, acharam que foi muito acertado”, afirmou o comentarista.

Os números ajudam a dimensionar a reação. Lula acrescentou cerca de 2,95 milhões de votos no Nordeste entre os dois turnos, enquanto Flávio ganhou apenas 397 mil. O presidente terminou com 24,45 milhões de votos na região, ou 69,37% dos válidos, contra 10,8 milhões do adversário. A vantagem nordestina chegou a 13,65 milhões e foi fundamental para compensar as derrotas de Lula no Sul, Centro-Oeste e Sudeste.

A campanha petista também fez um esforço específico para ampliar essa margem. Depois do primeiro turno, Lula colocou nomes do Nordeste no comando da estratégia: Camilo Santana assumiu a articulação política, Rui Costa passou a cuidar da agenda e Rafael Fonteles, da comunicação.

Governadores, prefeitos e parlamentares intensificaram carreatas, atos e ações contra a abstenção. Ceará, Pernambuco e Paraíba acabaram registrando as três menores taxas de ausência do país no segundo turno.

Foi nesse contexto que Nikolas lançou “O Nordeste que foi esquecido”. A gravação reuniu cinco moradores de Luís Eduardo Magalhães, no oeste da Bahia, relatando pobreza, dificuldades com saúde, saneamento e custo de vida.

O vídeo não informava inicialmente que as entrevistas haviam sido feitas no mesmo município que, dias antes, o próprio deputado apresentara como exemplo de prosperidade graças ao agronegócio. Os dados gerais apresentados ao final eram referentes a todo o Nordeste, e não especificamente à cidade mostrada nas imagens.

A produção começou a ser questionada quando os bastidores vieram a público. As imagens mostram câmeras profissionais, iluminação e teleprompter, além de integrantes da equipe escolhendo enquadramentos.

Em determinado momento, o coordenador de comunicação de Nikolas sugere evitar uma antena parabólica mais moderna no cenário: “Essa antena é mais tecnológica, né, não?”. Depois da mudança, o deputado reage: “Putz, melhorou mil por cento”. Em outra cena, uma voz comenta sobre uma entrevistada: “Ela faz uma cara de coitada, que chega a dar dó”.

Moradores também contestaram a descrição de abandono feita no vídeo. Assentados disseram que políticas públicas anteriores haviam levado água, energia e crédito agrícola à comunidade. Houve ainda questionamentos sobre um dos entrevistados, conhecido como Binha, apontado por adversários como proprietário de uma Hilux e de uma residência em condições diferentes das exibidas. Essas últimas informações foram apresentadas pelo deputado Pedro Campos (PSB-PE) e não tiveram todos os detalhes verificados de forma independente.

O episódio teve um desfecho simbólico nas urnas. Em Luís Eduardo Magalhães, Flávio ainda venceu, mas Lula cresceu muito mais: passou de 20.173 para 24.739 votos, alta de 22%. Flávio foi de 38.496 para 39.688, avanço de apenas 3%.

Por Augusto de Sousa

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