Tem indignação que funciona como cartão pré-pago: vem com saldo limitado e só pode ser usada em estabelecimentos credenciados. Quando André Mendonça derrubou o sigilo de um relatório sobre o caso Master, uma multidão de cidadãos de bem gastou tudo de uma vez contra Alexandre de Moraes. Pedido de impeachment, live inflamada, fio com trinta posts, figurinha no grupo da família. Justo. O que veio a público era grave.
Agora que as revelações de Daniel Vorcaro nao param de falar sobre Kassio Nunes Marques, o saldo zerou. Silêncio de biblioteca. Quem passou semanas gritando “promiscuidade” descobriu de repente as virtudes da presunção de inocência, do devido processo legal e do “vamos aguardar a apuração”. Conceitos importantes, aliás. Pena que só valem para um lado.
Recapitulando, para quem estava trancado em uma caverna. No caso de Moraes, o escritório de sua esposa, Viviane Barci de Moraes, tinha um contrato de cerca de R$ 130 milhões com o Banco Master, e o documento teria sido editado com o login do próprio ministro. Há mensagens de Vorcaro para ele, incluindo uma em que o banqueiro pergunta se deveria deixar o país pouco antes de ser preso. Tem até cota de jatinho. Isso merece investigação séria, sem pano passado, e quem defende o ministro por reflexo tribal também está errado.
Agora, Kassio. Assessores de Vorcaro chamavam um grupo de advogados de “Turma do KN”, e a PF indica que KN é Kassio Nunes Marques. O contrato com essa turma: R$ 427 milhões, para destravar causas do Master nos tribunais superiores. Mais que o triplo do contrato de Viviane. Nas mensagens, uma funcionária do banco comemora um voto do ministro num julgamento de precatórios de usinas em que o Master era credor. Há ainda menções a pagamentos ligados ao filho de Kassio, Kevin.
E tem o Carnaval. Em 2025, segundo as mensagens, Vorcaro organizou hospedagem para “KN” numa mansão no Joá, no Rio, ao custo de cerca de R$ 1,45 milhão pela semana, com chef, garçons e motoristas. E, conforme a revista piauí, numa sexta-feira de Carnaval o ministro passou horas no tríplex do banqueiro no Itaim Bibi, numa festa preparada com mordomo, chef e uma agenciadora de garotas de programa. As mensagens relatam o ministro entrando num quarto com cinco mulheres. Dias antes, o UOL havia mostrado que Vorcaro financiava uma rede internacional de prostituição com mulheres de vários países, ucranianas entre elas, tratadas por ele com termos degradantes. Bunga-bunga com CNPJ.
Kassio nega tudo: diz que nunca trocou mensagens com Vorcaro, nunca lhe pediu nada e nunca votou a favor dele. É direito dele, e a investigação precisa ouvi-lo. Mas Moraes também tinha suas notas oficiais, e ninguém do bloco indignado aceitou nota como ponto final.
Então, cadê os patriotas que iam “limpar o Supremo”? Cadê o pastor que pregava contra a “toga podre”? Cadê a Marcha da Família com Deus contra Kassio”? Festa bancada por banqueiro em tríplex, com garotas de programa, virou valor da família tradicional brasileira?
Longe de mim ser sommelier de indignação. Mas para uma parte desse público, o problema de Moraes nunca foi o Master. Foi ele ter relatado o processo que condenou Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado. O banco foi só a munição que faltava. Por outro lado, a virtude de Kassio, indicado ao STF por Bolsonaro, não é a reputação ilibada. É que, como presidente do TSE, ele vem tomando decisões que agradam à campanha de Flávio Bolsonaro e atrapalham a de Lula.
Os exemplos se acumulam. Em junho, proibiu a divulgação de uma pesquisa que mostrava Flávio caindo depois do caso Dark Horse, aquele em que o candidato aparece pedindo R$ 130 milhões ao mesmo Vorcaro, em tese, para um filme sobre o pai. Neste mês, derrubou o canal “Exército do Lula” a pedido da campanha de Flávio, passando por cima, segundo colegas do próprio tribunal, da competência do corregedor, que mandou religar o canal horas depois. Juristas pediram sua suspeição. O Conselho Nacional dos Direitos Humanos levou o caso à OEA, lembrando que um relatório técnico do TSE nem encontrou nas mensagens o conteúdo apontado pela campanha de Flávio.
Ou seja, ao que tudo indica, muitos “cidadãos de bem” não estão indignados com a corrupção, mas com quem atrapalha o seu candidato, e é generoso com quem ajuda. A ética virou futebol: falta do adversário é cartão vermelho, falta do nosso é jogada viril.
O justo, o óbvio, o mínimo, seria cobrar os dois. Ou dos cinco, porque nas conversas de Vorcaro pipocaram também Dias Toffoli, André Mendonça e Luiz Fux. Investigar Moraes, investigar Kassio e qualquer outro ministro, parlamentar ou procurador que apareça na agenda do banqueiro. O celular de Vorcaro está se revelando um mapa da promiscuidade entre dinheiro e poder em Brasília, e esse mapa não respeita fronteira partidária.
Mas isso exigiria coerência. E coerência, como se sabe, não dá engajamento.
Um presidente do TSE sob suspeita de ter sido mimado por um banqueiro preso está arbitrando uma eleição em que um dos candidatos pediu dinheiro ao mesmo banqueiro. Esse presidente do TSE torce para que nada aconteça com ele, desejo que pode se tornar realidade se o candidato que pediu dinheiro ao banqueiro for eleito. Se isso não tira o sono do cidadão de bem, é porque talvez ele não seja tãããão do bem assim.
Por Leonardo Sakamoto
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