Psicóloga prova que Bolsonaro propôs tratamento com eletrochoque para autistas

Psicóloga prova que Bolsonaro propôs tratamento com eletrochoque para autistas

A psicóloga Brenda Lorena Gomes, especialista em Transtorno do Espectro Autista (TEA), Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e Altas Habilidades/Superdotação (AH/SD), divulgou um vídeo, em suas redes sociais, para relembrar mais uma passagem aterradora ocorrida no país durante o governo de Jair Bolsonaro (PL).

Brenda, que atende clinicamente através da Terapia Cognitivo- Comportamental (TCC) e também é uma pessoa com autismo, relatou o que ocorreu em 2021.

À época, um documento elaborado pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec), vinculada ao Ministério da Saúde, (Veja Aqui ), sugeriu o uso de eletroconvulsoterapia em pacientes com grau elevado de autismo (Confira Aqui ), ou com comportamento violento em decorrência do transtorno, embora esse seja um procedimento psiquiátrico muito restrito e apenas possível em casos bem específicos.

“Olá, eu sou uma pessoa autista e, recentemente, fiz um vídeo informando sobre um protocolo que foi criado em 2021, durante o governo Bolsonaro, onde se recomendava o uso de eletrochoque como tratamento para pacientes autistas. Dentre muitos comentários que recebi no vídeo, existiram algumas pessoas que me acusaram de passar fake news”, contou a psicóloga.

“Por conta disso, eu decidi mostrar o documento pra vocês. Eu estou aqui com o documento aberto da Conitec: ‘Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Comportamento Agressivo no Transtorno do Espectro Autista’, novembro de 2021”, prosseguiu Brenda.

Na sequência, a psicóloga mostrou o trecho do documento, onde aparecem as informações que ela relatou no primeiro vídeo.

“Na página 24, no segundo parágrafo, está escrito o seguinte: ‘A eletroconvulsoterapia tem sido apontada como uma opção no tratamento de agressividade, especialmente autodirecionada, tanto em pacientes com neurodesenvolvimento adequado, quanto em pacientes com transtorno do espectro autista’”.

Depois, continuou: “Agora, eu vou descer até a página 25, no último parágrafo, que ele é bem importante. ‘Não há recomendação para o uso dessas alternativas em nenhuma das diretrizes clínicas internacionais consultadas. É importante ressaltar que a evidência ainda é muito incipiente e que essas opções são reservadas a casos graves e devem ser avaliadas por uma equipe especializada’”, leu a psicóloga.

“Para quem ainda não entendeu, o eletrochoque é um tratamento que foi muito utilizado nos anos 1940 e 1950 e, basicamente, é dar choque na cabeça das pessoas. Como o próprio documento informa, não há evidência científica. Então, não funciona. Mas, mesmo assim, isso foi levantado como uma possibilidade de tratamento para pessoas autistas, que apresentassem casos graves ou um nível de agressividade elevada, mesmo que não funcionasse”, disse ela, não escondendo a indignação.

Para finalizar, desabafou: “Eu não tenho motivos para passar fake news para frente. Só trouxe uma informação que está no próprio site do Ministério da Saúde, no próprio site do governo. Aconteceu em 2021. Se mesmo assim, você não acreditar em mim ou não se importar, tudo bem. Só vim aqui porque eu, particularmente, não acho nada disso normal”.

Bolsonaro vetou homenagem a Nise da Silveira

O boicote de integrantes da família Bolsonaro a uma política humanizada no tratamento de saúde mental teve outras manifestações.

Em maio de 2022, com apoio do senador Flávio Bolsonaro, o então presidente Jair Bolsonaro vetou, integralmente, projeto que inscreveria o nome da psiquiatra Nise da Silveira no “Livro do Heróis e Heroínas da Pátria”. A justificativa oficial foi bizarra: “ideais dissonantes das projeções do Estado Democrático”. Porém, em 5 de julho do mesmo ano, o Congresso derrubou o veto e a justiça foi restabelecida.

Quem foi Nise da Silveira

A médica psiquiatra Nise da Silveira (1905–1999) revolucionou o tratamento da saúde mental no Brasil, sendo uma das principais pioneiras da psiquiatria humanizada e da introdução da psicologia junguiana no país. Ela usou a arte como método de tratamento.

O trabalho de Nise antecipou a Luta Antimanicomial e a Reforma Psiquiátrica no país, promovendo o respeito à dignidade humana e à sensibilidade de pessoas em sofrimento psíquico.

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