Da autorização da Loterj às decisões judiciais, passando por uma conta bancária, todos caminhos levam ao senador e à pergunta: ele é um chefe mafioso?
Há uma expressão popular brasileira que define a situação de alguém surpreendido por uma evidência comprometedora, difícil de explicar: foi pego com o batom na cueca.
É uma imagem apropriada para descrever a situação política de Flávio Bolsonaro diante das revelações da revista piauí, publicadas em 20 de outubro, sobre sua possível participação oculta na Best Bet, uma casa de apostas que movimentou dinheiro durante o governo de Cláudio Castro, no Rio de Janeiro.
A Polícia Federal pediu ao Supremo Tribunal Federal a abertura de um inquérito para investigar a suspeita de que o senador tenha sido sócio oculto da empresa, formalmente vinculada ao advogado Willer Tomaz, seu amigo e companheiro de viagens internacionais.
O que torna o caso especialmente grave não é apenas a possibilidade de que um candidato à Presidência da República tenha escondido sua participação num negócio de apostas. É o conjunto de circunstâncias que envolve a criação da empresa, a obtenção da licença, sua expansão para todo o território nacional e a estrutura financeira montada no Brasil e no exterior.
Em cada etapa aparece alguém ligado, direta ou indiretamente, a Flávio Bolsonaro.
E, quando se chega ao dinheiro, aparece o próprio senador.
Não se trata de uma acusação baseada exclusivamente em relações pessoais, fotografias ou encontros entre amigos. A reportagem da piauí, assinada por Allan de Abreu, Breno Pires, Felícia Cabrita e Mário Gouveia, apresenta documentos empresariais, registros bancários e informações de uma investigação da Polícia Federal.
Esses elementos oferecem motivos concretos para investigar se Willer Tomaz era o verdadeiro dono do negócio ou se atuava como laranja.
É aí que a expressão popular ganha força: o batom na cueca, neste caso, seria o acesso de Flávio Bolsonaro a uma conta bancária de uma empresa ligada à estrutura empresarial da Best Bet.
E essa é uma evidência que exige uma explicação muito mais convincente do que a alegação de uma simples amizade.
A história começa em janeiro de 2023, quando Willer Tomaz abriu a Cathedral Holdings, na Ilha da Madeira, em Portugal, com capital de 50 mil euros.
No mês seguinte, o grupo empresarial criou a Rede Loto Ltda., com capital de R$ 1 milhão, que passaria a operar com o nome comercial Best Bet.
A Cathedral, sediada no exterior, controlava a empresa brasileira.
Em abril, a Loterj, vinculada ao governo de Cláudio Castro, abriu uma licitação para explorar o mercado de apostas. Em maio, treze empresas receberam licenças, entre elas a Best Bet.
A autorização foi assinada por Hazenclever Cançado, presidente da Loterj, cuja indicação para o cargo foi de Flávio Bolsonaro.
Aqui aparece uma primeira conexão política relevante: um dirigente indicado com a influência do senador autoriza uma empresa pertencente a seu amigo Willer Tomaz.
Há outra conexão que merece atenção. O filho do presidente da Loterj, Hazenclever Cançado Júnior, trabalhou no gabinete do ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal, entre agosto de 2020 e junho de 2026. É público que Flávio Bolsonaro foi o padrinho da indicação de Nunes Marques para o STF.
O negócio ganhou uma dimensão ainda maior em julho de 2023, quando a Loterj permitiu que empresas licenciadas pelo Rio de Janeiro explorassem apostas em todo o Brasil.
A autorização estadual se transformava, na prática, em uma porta de entrada para um mercado nacional de proporções bilionárias.
A Best Bet estava entre as beneficiadas.
A descoberta mais comprometedora está na estrutura financeira criada por Willer Tomaz.
Na mesma época em que a Best Bet recebeu autorização para operar, o advogado constituiu outra empresa na Ilha da Madeira: a Alcazar Holdings.
A Alcazar e a Cathedral, controladora da Best Bet, parecem duas faces de uma mesma estrutura empresarial, irmãs siamesas.
As duas têm Willer Tomaz como proprietário formal, Mateo Scudeler como administrador e compartilham o endereço da sala 105 do edifício Marina Club, em Funchal.
A Alcazar não tem escritório na Ilha da Madeira, apenas endereço, o que é típico de empresa de fachada. No entanto, ela tinha uma filial no Brasil, com o mesmo nome, que abriu uma conta bancária no Santander e teve movimentação milionária, com apenas dois usuários autorizados a fazer saques: além de Willer Tomaz, Flávio Bolsonaro.
Há ainda um detalhe revelador. Em 22 de maio de 2025, uma funcionária de Willer Tomaz solicitou ao Santander a exclusão de Flávio Bolsonaro da condição de usuário máster.
Naquele mesmo dia, os dois estavam em Portugal. No dia seguinte, viajaram com suas famílias de Cascais para Nice, na França, num jato contratado em nome da Cathedral.
A exclusão ocorreu quando a Best Bet já havia perdido a possibilidade de explorar apostas nacionalmente, fruto da regulamentação criada no governo Lula, e se aproximava do encerramento das atividades.
Outro capítulo dessa história envolve o Tribunal Regional Federal da 1ª Região, o TRF1.
Quando o governo Lula começou a restringir a atuação nacional de casas de apostas autorizadas por loterias estaduais, a Loterj recorreu à Justiça.
Conseguiu uma liminar favorável no TRF1, permitindo a continuidade das operações nacionais que o governo federal procurava limitar.
O tribunal tem uma conexão histórica com Kassio Nunes Marques, que foi desembargador federal e vice-presidente da Corte antes de chegar ao Supremo Tribunal Federal.
É nesse ponto que outra investigação, a do Banco Master, torna o quadro ainda mais inquietante.
O desembargador Newton Pereira Ramos Neto, integrante do TRF1, aparece em mensagens relacionadas ao banqueiro Daniel Vorcaro, nas quais ele e sua esposa, a advogada Camilla Ramos, são associados à expressão “turma do KN”, uma aparente referência a Kassio Nunes Marques.
O escritório de Camilla participou de uma proposta contratual com o Banco Master que previa honorários de até R$ 427 milhões, condicionados ao êxito em processos bilionários de precatórios.
O magistrado também foi alvo de apurações sobre decisões favoráveis a interesses relacionados ao banco. O Conselho Nacional de Justiça realizou diligências em seu gabinete em setembro.
Há uma coincidência institucional que merece atenção e liga dois escândalos, ambos sob a sombra de Flávio Bolsonaro.
O TRF1 aparece tanto no percurso judicial que beneficiou a operação da Best Bet quanto nas investigações sobre decisões e relações pessoais envolvendo o Banco Master.
Há um dado novo que amplia a dimensão do caso.
Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, baseada em informações do Ministério da Fazenda, Willer Tomaz movimentou aproximadamente R$ 5 bilhões em apostas durante 2025.
O advogado teria realizado depósitos superiores a R$ 258 milhões e saques de aproximadamente R$ 200 milhões em plataformas de apostas, tornando-se o maior apostador identificado naquele levantamento.
A investigação deve esclarecer também o destino do dinheiro e a natureza das movimentações entre as empresas de Tomaz.
O relatório da Polícia Federal citado pela piauí trabalha com a hipótese de que contas controladas pelo advogado servissem para concentrar e redistribuir recursos em benefício de terceiros.
Se confirmada, essa hipótese pode ajudar a compreender o verdadeiro papel dos beneficiários econômicos da estrutura. E, sobretudo, quem é o chefe do esquema.
A relação financeira entre Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz ganhou outro elemento com a revelação de que o escritório de advocacia do senador faturou aproximadamente R$ 14 milhões entre 2023 e 2026.
Segundo o UOL, parte dos pagamentos foi direcionada à conta do Santander identificada na investigação sobre a relação entre Flávio e Tomaz.
A questão ultrapassa a situação pessoal de Flávio Bolsonaro.
O filho primogênito de Jair Bolsonaro não é um empresário anônimo, nem um parlamentar sem perspectivas de poder. É um candidato à Presidência da República, apoiado por setores econômicos interessados nas decisões que o próximo governo poderá tomar sobre a regulamentação das apostas.
É sabido que redes de TV, como Globo e Band, têm a sua própria empresa de apostas, hoje proibidas pelo governo Lula de funcionar. Donos de outras casas estão apoiando publicamente Flávio Bolsonaro.
Um deles é Fernando Oliveira Lima, dono da 7 Games Bet, empresa que oferece jogos como o chamado Tigrinho.
Ernildo Júnior de Farias Santos, dono da Pixbet, também apoia o candidato da extrema direita, além de Willer Tomaz, suspeito de ser sócio de Flávio Bolsonaro.
A pergunta, portanto, não é apenas se Flávio Bolsonaro ganhou dinheiro com a Best Bet.
É se um eventual presidente da República teria compromissos econômicos ocultos com um setor que deveria fiscalizar e regulamentar em defesa do interesse público.
O Brasil já conheceu os efeitos devastadores da captura do Estado por interesses privados. O caso Master mostrou como relações entre banqueiros, operadores políticos e integrantes do sistema de Justiça podem produzir suspeitas de favorecimentos bilionários.
O Brasil corre o risco de entregar a Presidência da República a um político cuja rede de relações econômicas e políticas apresenta sinais que lembram o funcionamento de uma organização mafiosa ligada ao mundo dos jogos.
Os indícios conhecidos tornam indispensável investigar se ele era o beneficiário oculto de uma estrutura empresarial que recebeu autorizações públicas e obteve vantagens regulatórias.
O problema maior é que, uma vez eleito, uma investigação desse tipo seria paralisada, pois os crimes apontados são anteriores à escolha eleitoral.
E o Brasil teria um presidente andando com batom na cueca sem responder à pergunta fundamental: como essa mancha foi parar lá?
E, neste caso, a explicação interessa ao futuro do Brasil. A eleição não pode ser habeas corpus preventivo.
Por Joaquim de Carvalho
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