Uma combinação cruel entre colonialismo e escravidão, sem a qual grande parte dos problemas que ainda são contemporâneos não existiria nem seria compreensível
Caio Prado Jr., nosso maior historiador, dizia que o Brasil não é compreensível sem o colonialismo e a escravidão. É impossível compreender o país.
Essa visão não se restringe apenas ao Brasil, já que tanto o colonialismo como a escravidão foram e são ainda fenômenos globais, de abrangência internacional.
A ação do colonialismo europeu é significativa. A Europa tomou milhões de africanos, trouxe-os nos porões dos navios para trabalharem como escravos, produzindo riqueza para os europeus.
Não se sabe quantos morreram nas brutais condições de viagem, mas Darcy Ribeiro afirmou que a vida útil de cada escravo era, em média, de 9 anos. Era mais fácil deixá-los morrer e substituí-los por outros escravos do que cuidar deles.
Essa combinação brutal entre colonialismo e escravidão esteve nas raízes da sociedade brasileira e de tantos outros países. É espantosa a atitude da Europa em relação à África, que está do outro lado do Mediterrâneo. Dá a impressão de que naturalizam a pobreza e a miséria da África, sem vinculá-la à exploração das suas riquezas pelos países europeus e à escravidão.
Essa relação entre a Europa e a África se expressa hoje nas tentativas diárias e desesperadas de africanos buscarem chegar, de qualquer maneira, à Europa. Diariamente, vários deles terminam morrendo nessas tentativas, em acidentes que estão naturalizados nos países europeus.
Esses fenômenos se vinculam ao colonialismo e à escravidão. Os colonizadores europeus sempre se julgaram não apenas superiores, mas o centro da história mundial. Esse eurocentrismo se une à discriminação racial para produzir esses fenômenos brutais.
Não é apenas um fenômeno econômico e político, mas também cultural. As grandes interpretações, difundidas a partir das maiores editoras do mundo, situadas nos países do norte do mundo, buscam reforçar e atualizar sempre o eurocentrismo. A história da África é um tema particular, desvinculado da história da Europa, sem uma visão global que as articule como fenômenos intrinsecamente vinculados.
Não por acaso, aquele que eu considero o primeiro grande historiador do século XXI, o britânico Peter Frankopan, autor, entre outros livros, de “As novas rotas da seda”, centra sua crítica no eurocentrismo para, em seguida, reconstruir a história global – em um livro significativamente intitulado “O coração do mundo” –, que reivindica o papel da Ásia e, em particular, o da China.
Sem essa crítica, não é possível compreender a história mundial contemporânea, no século XXI. Fomos educados, em grande medida, no eurocentrismo, pela notável obra de outro historiador britânico, Eric Hobsbawm.
Mas hoje é indispensável superarmos essa visão estreita e, de alguma forma, vítima ainda da sobrevivência do colonialismo europeu, para podermos compreender a história mundial realmente existente.
A dominação externa, por meio da colonização dos países da chamada periferia do capitalismo, valendo-se do trabalho escravo, é responsável por grande parte das misérias que o mundo ainda vive. Grande parte da riqueza mundial se concentra ainda na Europa, enquanto grande parte da miséria se concentra na África. Assim como os negros, em todas as regiões do mundo, seguem pertencendo às populações mais pobres em todos os países.
Uma combinação cruel entre colonialismo e escravidão, sem a qual grande parte dos problemas que ainda são contemporâneos não existiria nem seria compreensível.
Por Emir Sader
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