Coluna da Angélica: o assassinato de Charlie Kirk e o monstro debaixo da cama

Coluna da Angélica: o assassinato de Charlie Kirk e o monstro debaixo da cama

Que os Estados Unidos é um país extremamente violento todos sabem. Só neste ano já aconteceram 40 ataques a escolas. 14 dias antes do assassinato de Charlie Kirk, três crianças com idades entre 8 e 10 anos foram mortas e 17 pessoas ficaram feridas em um ataque a uma escola no estado de Minnesota.

A história política dos EUA registra 16 ataques a presidentes e candidatos a presidente. Cinco deles foram assassinados a tiros- os Republicanos Abraham Lincoln, James Garfield e William McKinley, e os Democratas John Kennedy e Robert Kennedy, este último, candidato a presidente.

De acordo com o levantamento da Anti-Defamation League (ADL), a extrema-direita estadunidense é responsável por 93% dos assassinatos politicamente motivados nos últimos 20 anos. Dos 371 assassinatos, 347 dos autores eram integrantes de grupos extremistas de Direita.

Desnecessário também me aprofundar na história de Charlie Kirk: homofóbico, supremacista branco que pregava que os negros eram melhores quando eram escravos e que a Palestina não existe. Um armamentista que defendia execuções públicas transmitidas ao vivo pela tv.

Sem querer fazer piada com assunto sério, não posso evitar pensar que a dele foi transmitida ao vivo.

Como dizia minha avó, cuidado com o que você deseja. Pode se realizar.

O que quero tratar é sobre Tyler Robinson, o jovem de 22 anos acusado de matar Charlie Kirk.

Tyler foi nascido e criado na igreja Mórmon, uma das mais conservadoras. Apesar disso, mantinha um relacionamento com uma mulher trans. O que não é admitido na fé. Além das exigências da igreja teve ensinamentos de armas e tiro desde criança. E aí vem a primeira contradição- o garoto criado como macho Alfa tem um amor homossexual, com passagem só de ida para o inferno.

Muito jovem, encontrou nas ideias ultra extremistas de Nick Fuentes, a convergência entre religião e política. Para Fuentes, Kirk não era “suficientemente de Direita”.

Nick Fuentes, também supremacista branco apesar do sobrenome latino, é líder do movimento Groyper- grupo de ciberativistas brancos, cristãos conservadores…como Tyler. O Groyper promove visões de mundo racistas e homofóbicas disfarçadas de defesa dos valores tradicionais e da família, como Tyler foi ensinado.

Kirk apoiava Donald Trump incondicionalmente. Fuentes cobra a divulgação da lista de clientes pedófilos de Jeffrey Epstein, considerado o maior predador sexual do mundo, com uma lista de mais de mil vítimas entre crianças e adolescentes e acusado de tráfico humano- levava garotinhas para serem abusadas por milionários.

Epstein foi suicidado na prisão e Trump evita o assunto apesar da acusação de ter o nome na tal lista. Ou talvez por causa disso. O grupo de Fuentes confrontava o de Kirk. A extrema-direita versus a ultra direita. Ou o nazismo versus o fascismo. Ou um conflito onde tudo é misturado.

Vamos combinar que o fanatismo religioso é potencialmente explosivo. Ainda mais, quando associado ao fanatismo político. E que essa mistura é uma bomba-relógio pronta para explodir a cabeça de um jovem quando acionada por sentimentos e desejos que segundo as regras impostas devem ser sufocados, como o relacionamento de Tyler com a companheira trans.

Imagine-se essa cabeça cheia das expectativas irrealistas de uma verdadeira felicidade só disponível depois da morte, e apenas para quem seguiu as regras impostas pela igreja de como se comportar, o que usar e até a quem amar, e a urgência de ganhar o mundo agora, já, para um Deus guerreiro, integrando o exército do Senhor apresentado pelo movimento político extremista. Tanto o movimento religioso fundamentalista quanto o político se integram na desumanização, controlando corpos e mentes. Não por acaso, o suicídio é a terceira causa de morte entre pessoas de 15 a 29 anos. O fardo é muito pesado. Insuportável e depressivo. E os Tylers da vida, a consequência.

Essa confluência de fanatismos é o verdadeiro monstro debaixo da cama. Pronto para atacar.

Coluna de opinião

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