Justiça tcheca libera extradição de Liebich, neonazista alemã que mudou gênero antes da prisão

Justiça tcheca libera extradição de Liebich, neonazista alemã que mudou gênero antes da prisão

A realidade imita a arte: no filme Emília Pérez, o chefe de um cartel mexicano Juán Del Monte  também muda o gênero

A Justiça da República Tcheca abriu caminho nesta terça-feira (07) para extraditar Marla-Svenja Liebich, integrante da cena neonazista do leste da Alemanha que ganhou notoriedade após mudar nome e gênero nos documentos antes de cumprir pena. Um tribunal superior de Praga rejeitou os recursos apresentados por Liebich, detida no país em abril depois de meses em fuga.

Liebich, de 55 anos, recebeu condenação em 2023 por incitação ao ódio étnico, injúria e difamação, crimes cometidos quando ainda atendia pelo nome Sven Liebich

. Jornais alemães apontam que Liebich integrou o grupo neonazista Sangue e Honra.

A sentença de um ano e seis meses de prisão transitou em julgado em maio de 2025, depois da alteração dos documentos civis. A mudança de nome e gênero ocorreu no fim de 2024, enquanto Liebich recorria da condenação em primeira instância.

O caso ganhou atenção na Alemanha em agosto de 2025, quando Liebich assegurou o direito de cumprir pena em uma penitenciária feminina. No fim daquele mês, desapareceu antes de se entregar às autoridades e passou a publicar nas redes sociais que estava fora do país.

Fuga na República Tcheca e indefinição sobre o presídio

A polícia localizou Liebich em abril de 2026 na cidade tcheca de Krásná, cerca de 100 quilômetros a leste de Praga. De acordo com jornais alemães, Liebich tentou fugir por um curto trecho usando um patinete elétrico antes da captura.

O jornal alemão Mitteldeutsche Zeitung, primeiro a noticiar a prisão, relatou que Liebich usava roupas masculinas e tinha a cabeça raspada no momento da detenção. Após a extradição, ainda não há definição sobre o tipo de presídio em que cumprirá a pena na Alemanha.

Antes da fuga, a previsão era que Liebich cumprisse a pena na penitenciária feminina JVA, em Chemnitz, no estado da Saxônia. A expectativa agora é que a entrega às autoridades alemãs ocorra nos próximos dias.

A alteração dos documentos se apoiou na Lei de Autodeterminação de Gênero, que entrou em vigor na Alemanha em 1º de novembro de 2024. A norma permite mudar nome e sexo no registro civil por autodeclaração em cartório, sem laudos periciais, avaliação psiquiátrica ou tratamentos hormonais.

Antes da mudança, Liebich atacava o que chamava de “ideologia de gênero”, insultava participantes da parada gay como “parasitas” e vendia souvenirs com a frase: “Não existe criança trans, apenas pais idiotas”. Também usou a expressão “transfascismo” em manifestações anteriores.

Depois de alterar os documentos, Liebich passou a processar veículos que noticiavam a mudança de gênero e a tratavam como homem. Em uma das ações, perdeu para o jornalista Julian Reichelt, chefe do Portal Nius e ex-editor-chefe do tabloide Bild, que teve reconhecido o direito de afirmar no X que Liebich “não é mulher”. O Conselho de Imprensa da Alemanha também dispensou uma denúncia contra a revista Der Spiegel e considerou provável que Liebich tenha alterado seus dados civis de má-fé “para provocar e ridicularizar o Estado”.

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