Não vou apelar para o criticado passado de Michelle Bolsonaro (PL), como faz a milícia digital de Flávio Bolsonaro. Não há o que criticar porque nesse quesito ela é uma vencedora. Saiu de uma família pobre e disfuncional da periferia de Brasília e chegou a primeira-dama do país. Ponto.
Usou as armas que tinha-a beleza, mas essa mesma beleza foi usada por homens defensores da família tradicional, da moral e bons costumes. E desses ninguém fala.
Não foi fácil. Mas ela conseguiu até passar 19 anos casada com o Jair, uma criatura tosca e agressiva, suarenta e com aparência de quem fede. Uma versão moderna de A Bela e a Fera.
Aliás, até romper com o enteado Flávio Bolsonaro, ela era considerada uma santa. Bela e dedicada ao Senhor. Bastou discordar de Flávio para virar Jezabel. A leviana, vagabunda e adúltera que se vê às voltas com pedidos de exame de DNA para comprovar se a filha é de Jair Bolsonaro (PL).
A milícia digital formada por fanáticos e orientada pelo clã Bolsonaro ataca Michelle e quem se coloca em defesa dela. Esses fundamentalistas sem fundamento, são os que criticam o Irã por não respeitar os direitos das mulheres. Pretendem resolver os problemas de outros países enquanto repetem aqui os erros apontados.
O problema da Michelle é que dentro do espectro ideológico e político em que se posiciona, legitimou a misoginia, o ódio e o machismo e agora é vítima disso.
Assim como muitos, não creio nessa fé exacerbada que ela incorpora. Parece-me muito mais um jogo, que aliás, ela joga muito bem. E nesse ponto nem sei dizer o que é mais nocivo, se a hipocrisia que supostamente a leva a passar uma imagem de fanática religiosa ou o fanatismo real em si. Fato é que isso a torna tão nociva na política quanto o resto do bolsonarismo.
Jair & filhos querem o poder para se perpetuar no comando explorar o Brasil e enriquecer- lotear e vender.
Michelle quer (ou pelo menos diz que quer), transformar o país numa teocracia. Governado por pastores neopentecostais como Malafaia e Feliciano. Nesse aspecto, se parece com a Serena Joy de O Conto da Aia, com Damares como Tia Lydia. Posições superiores, mas ainda, totalmente submissas aos comandantes.
É muito grave!
A gente sabe o que acontece em países teocráticos onde a lei não é a da constituição e sim dos livros “sagrados”. No caso da nossa Serena Joy tupiniquim, a lei seria a do Velho Testamento- roubou? Mão cortada; traiu o marido? Morte por apedrejamento. Cargos? Só para os da igreja dos comandantes.
Sem contar os deslizes secretos dos comandantes. Em O Conto da Aia, os chefões que aplicam a lei da Bíblia para os outros têm um bordel ao seu dispor. Claro que é uma ficção, mas pinta a possibilidade e é um reflexo da realidade do Afeganistão, por exemplo.
O Afeganistão é um dos principais exemplos de teocracia, um sistema de governo que considera uma divindade religiosa como a fonte de toda autoridade. O Afeganistão tem o Islã como religião oficial do país e os principais fundamentos da instituição política do Afeganistão são baseados na rígida lei islâmica. E onde tem lei, existem formas de burlá-la, ou adaptá-la. Dessa forma, meninas a partir dos 9 anos podem ser submetidas legalmente a matrimônio forçado com homens de qualquer idade.
Também no Afeganistão, existe a prática da escravidão sexual de meninos a partir dos 8 anos, os bacha bareesh. Meninos com idades entre 8 e 18 anos explorados sexualmente por senhores locais, homens de fé, funcionários do governo e pessoal militar. Eles são obrigados a servir o seu bacha baz (o dono) até que a primeira barba apareça.
Os bacha bareesh são obrigados a usar maquiagem, roupas femininas e pulseiras com sinos nos pulsos e tornozelos que tilintam durante os espetáculos de dança e música com que entretêm os convidados do seu patrão. Possuir um harém masculino é símbolo de bem-estar e riqueza e apesar do Islã condenar a homossexualidade, esse meninos são estuprados repetidamente por seus bacha baz, bem como por seus amigos, que com o consentimento do “proprietário” podem obter serviços sexuais e serem entretidos.
Portanto, Michelle é tão perigosa quanto o resto da família. E apesar de condenar os ataques que sofre, jamais votaria nela ou em qualquer pessoa que por hipocrisia ou fanatismo real defenda que a Bíblia seja usada em vez de uma constituição.
Michelle tem uma esperteza nociva e a usa muito bem. Ela lançou o movimento Alicerça Brasil que une mulheres de direita de todo o Brasil, as alicerçadas, em torno de seu projeto teocrático cujo grito de guerra é Edificando a Nação. Através desse movimento, ela lançou a Cartilha Rosa e orienta as mulheres fanatizadas a não matricularem seus filhos em universidades públicas e sim em cursos técnicos privados para serem trabalhadores de respeito.
Ele pensa ou finge pensar nas universidades públicas como antros de drogas e libertinagem, o que se tornou comum na direita a partir do momento em que os pobres começaram a ingressar no ensino superior público. Antes disso, quando só a elite conseguia acesso às universidades públicas, estas eram consideradas motivo de orgulho.
Foi com as “Alicerçadas”, que Michelle espalhou pelo país a ideia de pessoas da direita tomarem os conselhos tutelares e mais recentemente, orientou as mulheres do movimento a se inscrever como mesárias voluntárias.
Ninguém avisou que a extrema direita é o copo de veneno e a esperteza dela falhou: bebeu todinho.
Como estudiosa da Bíblia, como se apresenta, Michelle deve saber que o plantio é livre mas a colheita é obrigatória.
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