O vendedor de sonhos sem recheio sobe nas pesquisas explorando a fragilidade emocional e social de parte do eleitorado brasileiro
Há algo de profundamente brasileiro na ideia de transformar um escritor de livros de autoajuda em candidato à Presidência da República. Afinal, se o país já está acostumado a acreditar em promessa de político, por que não acreditar também em promessa de coach? Augusto Cury entra na corrida presidencial vendendo aquilo que sabe vender melhor: sonhos. E, aparentemente, quanto mais sobe nas pesquisas, mais o mercado eleitoral demonstra que o brasileiro está disposto a comprar esperança no varejo, mesmo quando a embalagem não informa exatamente o que vem dentro.
O fenômeno merece ser observado com atenção. Não porque um escritor não possa ser presidente. Pode. Nem porque alguém que trabalhou com comportamento humano não tenha condições de discutir os problemas do país. Tem. A questão é outra: o que exatamente Augusto Cury está oferecendo ao eleitor além da velha promessa de que tudo pode melhorar se cada indivíduo mudar a própria mentalidade? Porque uma coisa é escrever para alguém que está enfrentando uma crise pessoal. Outra, completamente diferente, é administrar uma crise econômica, combater a desigualdade, formular política industrial, enfrentar o crime organizado, negociar no Congresso, conduzir relações internacionais e decidir onde o Estado deve colocar bilhões de reais.
Não existe capítulo de O Vendedor de Sonhos que resolva isso. E talvez seja justamente aí que esteja a força eleitoral de Cury. Em um país cansado da política, o candidato que parece não ser político pode ganhar uma vantagem extraordinária. Ele chega sem o desgaste tradicional, sem o currículo parlamentar para ser cobrado e, principalmente, sem precisar explicar muito sobre aquilo que pretende fazer. A propósito, o currículo profissional de Cury vem gerando algumas polêmicas devido a imprecisões sobre os seus títulos acadêmicos. Mas basta falar sobre mudança, que a mágica acontece. Mudança é uma palavra maravilhosa. Cabe qualquer coisa dentro dela. Até mesmo um caminhão cheio de drones prontos para salvar mulheres do feminicídio e de influenciadores digitais prontos para serem Embaixadores do Brasil no exterior.
Os eleitores podem colocar nela a esperança de um país mais justo, com menos impostos, com mais segurança, por exemplo. E o candidato pode deixar todos satisfeitos sem necessariamente ter explicado como pretende entregar nada disso. É a política transformada em sessão de terapia coletiva. Essa é a mudança que Augusto Cury propõe. Ele diz coisas do tipo: “Você pode mudar o Brasil.”, “Você precisa acreditar.”, “Não deixe que os seus medos impeçam seus sonhos.” E pronto. Temos um programa de governo. Com participação popular. Para mais informações, consulte o próximo livro do autor que oferece autoajuda, mas que só ele se dá bem com ela.
Isso é uma prova de que a subida de Augusto Cury nas pesquisas diz tanto sobre ele quanto diz sobre o eleitor brasileiro. Uma candidatura que cresce sem necessariamente apresentar uma estrutura política tradicional revela o tamanho do desencanto com os chamados políticos profissionais. E esse desencanto não deveria ser comemorado por ninguém que leve a democracia a sério. Porque quando o cidadão deixa de acreditar na política, ele não necessariamente passa a acreditar mais em soluções. Ele passa a acreditar em qualquer coisa que pareça diferente. É assim que o vendedor de sonhos encontra seu público. Não é preciso entregar o sonho. É suficiente saber descrevê-lo e moldar a subjetividade do ouvinte a ele.
O problema é que a Presidência da República não é um consultório psiquiátrico. O déficit público não se cura com pensamento positivo. A fome não desaparece quando alguém aprende a controlar a ansiedade. A desigualdade não é uma questão de autoestima. E uma família que não consegue pagar o aluguel não precisa de uma palestra motivacional sobre resiliência, nem aprender a utilizar a inteligência de Jesus para resolver os seus problemas econômicos. É preciso políticas que gerem renda e emprego. É preciso políticas que melhorem os serviços públicos. O Estado precisa estar funcionando. É aí que o discurso de autoajuda encontra seu limite: ele é excelente para explicar como o indivíduo deve se adaptar ao mundo, mas é péssimo para explicar como o mundo deveria ser transformado para que todos os indivíduos possam viver melhor.
Em seu programa de governo, Cury destaca projetos voltados para educação e saúde emocional para, entre outros objetivos, “combater estresse, ansiedade e bullying”. Além da inclusão obrigatória da matéria de inteligência multifocal e gestão da emoção na educação básica. É preciso saber se Cury pretende combater o bullying nas escolas, por exemplo, ensinando as vítimas a ignorá-lo usando a força da mente. Se a intenção for essa, não me assustaria se ele criasse um projeto de combate ao racismo trabalhando a inteligência emocional das vítimas para suportar o crime cometido contra elas. Neste caso, de vendedor de sonhos, ele passaria a vendedor de alucinações. Mas em um país onde já se invocou o auxílio de extraterrestres para dar um golpe de Estado, um “Ministério das Alucinações” não seria tão anormal para alguns.
Talvez, por isso, a candidatura de Cury seja tão curiosa. Ela surge num momento em que uma parcela do eleitorado parece desejar um presidente que não pareça presidente. Alguém que fale como terapeuta, coach ou picareta. Que escreva como escritor motivacional e apareça nas pesquisas como se tivesse descoberto uma fórmula secreta para vencer a política sem precisar fazer política. É quase uma versão eleitoral da frase “saia da sua zona de conforto”. Só que a maioria do eleitorado brasileiro não vive numa zona de conforto da qual precise sair. É o candidato em questão que a habita e que deveria sair dela para entender que a responsabilidade social de governar um país não pode ser transferida para a população em frases de autoajuda que sugiram vitória pelos próprios méritos ou com o poder da mente. Isso é fascismo terapêutico. Uma expressão que ganhou destaque com o livro acadêmico Therapeutic Fascism: Experiencing the Violence of the Nazi New Order (2017), da historiadora Ana Antić.
No livro, a historiadora fala sobre o uso da psicanálise e da psiquiatria por regimes autoritários, com o objetivo de doutrinar mentalmente a população, sobretudo os mais jovens, sob a égide da higiene mental e da educação socioemocional. A introdução de teorias psicanalíticas e psiquiátricas como parte do projeto oficial de um governo pode, inclusive, servir para a “libertação” de mentes “corrompidas” por ideologias políticas adversárias. Pode ainda servir para atribuir aos indivíduos a culpa por crises econômicas mal geridas pelo governo, que seriam tratadas como desequilíbrios psicológicos individuais, nos quais o cidadão é o único culpado pelo seu desemprego, pelo baixo salário que recebe, por seu insucesso profissional e financeiro, por não possuir resiliência mental suficiente para reverter a situação.
Armadilhas de um fascismo que possui várias faces. Como escreveu o psicanalista Wilhelm Reich no livro “Psicologia de Massas do Fascismo”, no qual suas teses explicam que o fascismo não se sustenta apenas pelo uso da força militar, mas também pela colonização das mentes e dos afetos. Isso deveria nos alertar a entender que não se julga um livro pela capa, nem ler uma frase bonita na contracapa e imaginar que a vida vai mudar. É preciso perguntar o que existe entre a capa e a última página. “O Brasil dos nossos sonhos” pode ser um grande pesadelo para a maioria da população. E haja livro de autoajuda para nos reerguer depois.
Por Ricardo Nêggo Tom
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