Enquanto nós olhavamos as ruas, eles organizavam a urna

Enquanto nós olhavamos as ruas, eles organizavam a urna

A eleição de 2026 não surpreendeu por falta de sinais. Surpreendeu porque o campo democrático viu pesquisas, ruas, métricas e mobilizações como peças separadas, enquanto a extrema direita transformava redes de confiança, território, religião, influência digital e disciplina eleitoral numa mesma arquitetura de poder

Pela terceira eleição consecutiva, o Brasil chegou à urna com mais dados, mais pesquisas e mais monitoramento do que nunca e, ainda assim, o campo progressista foi surpreendido pelo mesmo movimento que dizia acompanhar. O problema não foi invisibilidade. Foi incapacidade estratégica de compreender o que estava diante dos olhos.

Depois da urna

Depois das eleições do primeiro turno, eu me perguntei o que deveria fazer para contribuir de forma séria com o debate público. Pensei em vários assuntos importantes que pretendo trazer depois, mas uma pergunta não me deixou em paz. Como foi possível chegar novamente à urna cercados de pesquisas, especialistas, monitoramento, campanhas profissionalizadas, universidades, institutos e uma quantidade inédita de informação sobre o comportamento político brasileiro e, ainda assim, sermos surpreendidos pela força organizada da extrema direita? Resolvi começar por aí porque esta não foi uma surpresa qualquer. Foi a terceira eleição presidencial consecutiva em que um movimento decisivo apareceu com mais força na urna do que na leitura predominante feita imediatamente antes dela.

Em 2018, falamos em onda. Em 2022, discutimos erro de pesquisa, voto envergonhado, migração tardia, voto útil e mobilização bolsonarista. Em 2026, depois de oito anos de experiência acumulada, o campo democrático voltou a olhar para a apuração como se uma parte importante daquele eleitorado tivesse surgido no domingo. Não surgiu. O bolsonarismo vinha demonstrando capacidade de mobilização tardia desde a primeira eleição. A disputa pelo Senado havia sido assumida publicamente como objetivo estratégico. O peso das igrejas, a expansão de redes conservadoras, a centralidade da segurança, o desgaste do governo e as mudanças territoriais eram conhecidos. O problema foi outro. Vimos esses sinais em relatórios, pesquisas e análises diferentes, mas não construímos a tempo uma leitura capaz de perceber que eles pertenciam ao mesmo movimento.

 

É essa falha que me interessa. A eleição de 2026 não aconteceu num deserto de informação. Aconteceu no meio de uma abundância de dados que produziu uma falsa sensação de controle. Sabíamos cada vez mais sobre partes do processo e, paradoxalmente, enxergávamos cada vez menos o processo inteiro. O campo democrático chegou à reta final convencido de que acompanhava a correlação de forças porque via pesquisas, manifestações e métricas digitais. A urna mostrou que poder político estava sendo acumulado também em relações que esses instrumentos captavam de forma parcial. O erro de 2026 não foi ausência de informação. Foi uma falha de arquitetura interpretativa. A pergunta que orienta este texto nasce daí. Como um campo político cercado de dados e inteligência foi surpreendido pela terceira eleição consecutiva e o que isso revela sobre sua incapacidade de enxergar o poder quando o poder mudou de forma?

O problema não estava nos dados

Há uma saída fácil depois de uma eleição como a de domingo. Culpar as pesquisas. Ela é tentadora porque desloca a responsabilidade para o instrumento e permite que a leitura política permaneça intacta. Só que a sequência das últimas três eleições torna essa explicação insuficiente. Pesquisa não é profecia. Ela registra um momento e não tem obrigação de prever tudo o que ocorrerá entre a última entrevista e a urna. Justamente por isso, quando diferenças parecidas reaparecem em eleições distintas, o que precisa ser investigado não é apenas o erro estatístico, mas o processo social que continua depois da fotografia.

Em 2018, o Datafolha da véspera registrava Jair Bolsonaro com 40% dos votos válidos e Fernando Haddad com 25%. A urna entregou 46,03% e 29,28%. Houve compressão dos votos dos candidatos menores, mas Bolsonaro avançou mais. Em 2022, o desenho ficou muito mais assimétrico. O último Datafolha mostrava Lula com 50% dos válidos e Bolsonaro com 36%. Lula terminou com 48,43%. Bolsonaro chegou a 43,20%. Em 2026, a pesquisa final registrava Lula com 45% e Flávio Bolsonaro com 42%. Lula terminou praticamente no mesmo lugar, com 45,16%. Flávio alcançou 47,03%. Três contextos diferentes, três eleições diferentes, nenhum direito a uma explicação única. O que permanece é a recorrência de uma força da direita radical que chega à urna maior do que a leitura dominante imediatamente anterior sugeria.

Isso deveria ter mudado a maneira como o campo democrático acompanha uma eleição. Não mudou o suficiente. Na própria reta final de 2026 ainda havia uma parcela relevante de eleitores admitindo a possibilidade de alterar o voto. O problema não estava em descobrir que indecisos existiam. Estava em compreender quem possuía melhores condições de organizar essa margem e de fazer uma preferência já existente sobreviver até o confirma. Entre uma pesquisa e a urna continuam acontecendo conversas familiares, cultos, recomendações, acontecimentos políticos, grupos de mensagem, voto útil, decisões sobre comparecimento e orientações para os demais cargos. A pesquisa encerra o campo. A política não.

O dado mais incômodo de 2026 é a estabilidade de Lula diante do avanço de Flávio na comparação com a última pesquisa. Isso não prova sozinho de onde vieram os votos e não autoriza fantasias sobre um eleitor clandestino que mente sistematicamente ao entrevistador. Faz algo mais útil. Obriga a investigar o que aconteceu depois da medição para que uma das forças políticas transformasse aquele intervalo em vantagem. Depois de 2022, essa deveria ter sido uma prioridade de inteligência. Em vez disso, continuamos sofisticando pesquisas, painéis e monitoramentos sem construir na mesma velocidade uma arquitetura capaz de reuni-los. O instituto mede um momento. Estratégia precisa compreender movimento.

A multidão que não tinha avenida

Uma das imagens mais fortes da reta final foi a ocupação das ruas. Havia gente, bandeira, corpo, canto, encontro e uma sensação concreta de que uma força social voltava a se reconhecer publicamente. Seria desonesto diminuir isso depois do resultado. A mobilização progressista existiu. O erro começou quando a imagem visível dessa força passou a servir como medida suficiente da disputa. A rua concentra pessoas no mesmo espaço, permite contar, fotografar e comparar. Ela oferece uma representação imediata do poder coletivo. A extrema direita contemporânea aprendeu a produzir parte de sua força sem precisar concentrá-la fisicamente.

Isso desafia uma tradição política que aprendeu a reconhecer organização na assembleia, no sindicato, no comício, na ocupação e na passeata. Essas formas continuam fundamentais. O que mudou foi o adversário. Desde 2018, a extrema direita brasileira acumulou uma infraestrutura distribuída entre influenciadores, igrejas, grupos de mensagem, canais de vídeo, páginas locais, lideranças políticas, relações familiares e autoridades informais. Milhões de pessoas podem permanecer separadas no território e, durante dias, receber interpretações convergentes, reconhecer os mesmos inimigos e reforçar a mesma identidade. Não existe necessariamente uma fotografia capaz de reunir essa força num único enquadramento.

A política digital ampliou uma forma de concentração sem proximidade física. O eleitor pode escutar o pastor, encontrar uma versão semelhante num vídeo, receber outra pelo grupo da família e terminar o dia diante de uma recomendação de alguém que conhece pessoalmente. Nenhuma dessas relações isoladas parece uma grande operação. A força aparece na repetição por caminhos diferentes e, sobretudo, na confiança depositada em quem transporta a mensagem. Às vezes há coordenação explícita. Em outras, afinidade ideológica, interesse econômico e pertencimento fazem os conteúdos convergirem sem comando central permanente.

Foi assim que a imagem das ruas nos enganou sem ser falsa. A multidão progressista apareceu como multidão. A força distribuída da extrema direita apareceu como indivíduos até o instante em que seus votos foram somados. Quando a apuração terminou, aquilo que parecia dispersão revelou direção comum. A rua não havia mentido. Nós é que pedimos a ela que mostrasse uma correlação de forças que já não cabia inteira dentro da rua.

Audiência não é organização

Também é fácil concluir que a esquerda perdeu porque abandonou as redes. Os dados não sustentam essa caricatura. Lula teve enorme presença digital, investimento, estrutura de comunicação, apoio de artistas e influenciadores e, em momentos importantes da campanha, liderou interações. Em uma semana de setembro, seus perfis oficiais registraram 5,7 milhões de interações no Instagram, acima dos 5 milhões atribuídos a Flávio. O campo democrático estava nas plataformas. Produzia, impulsionava, monitorava e media desempenho. O problema foi confundir circulação com organização.

A diferença aparece quando observamos quem estava politicamente imerso nesses ambientes. Pesquisa Datafolha realizada em setembro mostrou que 65% dos eleitores de Flávio haviam tido contato com conteúdo eleitoral nas redes, contra 52% dos eleitores de Lula. A distância era ainda maior nos perfis de influenciadores, 44% contra 29%. Esses números não explicam o voto por si sós. Revelam densidades diferentes de exposição dentro de redes que funcionam também como ambientes de pertencimento e validação.

Uma postagem pode alcançar milhões e desaparecer no mesmo dia. Uma comunidade conserva memória. Pessoas reconhecem quem merece confiança, compartilham linguagem, reforçam interpretações e carregam mensagens para espaços onde a campanha oficial não entraria com a mesma legitimidade. É isso que chamo de capital político de rede. Seu valor não está no número bruto de seguidores, mas na capacidade de ativar relações. Uma audiência recebe comunicação. Uma rede organizada consegue fazer a comunicação circular entre pessoas que já possuem vínculos e critérios comuns de credibilidade.

Há ainda uma camada acima do influenciador. Quem consegue reconhecer quais intermediários possuem autoridade em cada comunidade, quais linguagens atravessam determinados públicos e quais atores conectam grupos diferentes passa a operar sobre a própria mediação. É a metaintermediação. Uma orientação pode chegar pela igreja, pelo grupo familiar, por uma liderança municipal, por um vídeo e por um influenciador sem parecer a mesma mensagem repetida cinco vezes. Para o eleitor, ela aparece como confirmação produzida por fontes diferentes.

A campanha progressista profissionalizou sua comunicação, mas profissionalização não produz automaticamente enraizamento. Redes permanentes não se constroem nos trinta dias finais. A extrema direita passou anos alimentando comunidades que continuavam funcionando fora do calendário eleitoral. A esquerda teve alcance e, em muitos momentos, enorme presença. O déficit estava na conversão dessa presença em relações políticas duradouras. Essa é uma diferença estratégica que nenhuma guerra de memes resolve.

Da intenção de voto à intenção de cédula

A pesquisa pergunta em quem o eleitor pretende votar. A urna exige uma sequência de escolhas para cargos diferentes, com números diferentes e graus muito desiguais de informação. Em 2026, essa distância entre preferência e execução se tornou decisiva. Quase seis em cada dez eleitores ainda estavam indecisos sobre o Senado poucos dias antes da votação. Naquele momento, medir apenas a força individual dos candidatos dizia menos do que parecia. Com duas vagas em disputa, importava também saber quem conseguiria organizar combinações.

São Paulo oferece um exemplo claro. Na véspera da eleição, o Datafolha mostrava quatro candidatos tecnicamente empatados nos votos válidos. Guilherme Derrite e André do Prado tinham 22% cada, Marina Silva 21% e Simone Tebet 20%. Na urna, Derrite chegou a 30,6% e André a 29,3%, conquistando juntos as duas cadeiras. No Rio de Janeiro, Benedita da Silva liderava a última pesquisa, enquanto Carlos Portinho e Carlos Jordy vinham atrás. O resultado entregou as duas vagas ao PL. Portinho fez 26,8% e Jordy 24,6%. A pergunta que esses casos impõem vai além do crescimento individual de cada candidatura. Interessa saber quantos eleitores chegaram ao domingo entendendo os dois nomes como parte da mesma escolha política.

A Bahia impede qualquer explicação essencialista. Rui Costa e Jaques Wagner também fizeram campanha combinada e levaram as duas vagas pelo PT, com 30,07% e 27,65%. Isso desmonta a ideia de um eleitor conservador naturalmente mais disciplinado. Coordenação é capacidade política, não característica moral de um campo. Onde a esquerda chegou à urna com liderança territorial forte, chapa coerente e orientação compreensível, também conseguiu transformar identidade em sequência de voto.

A partir daí, proponho olhar para uma dimensão que as pesquisas tradicionais não tratam como centro do problema. A intenção de cédula. Ela complementa a intenção de voto e precisa ser lida como processo, não como indicador isolado. Serve para perguntar em que medida uma preferência já foi convertida em comportamento eleitoral preparado. O eleitor sabe os aliados para os demais cargos, reconhece números, recebeu orientação de pessoas em quem confia, definiu os dois votos para o Senado, pretende comparecer e consegue executar sua escolha sem voltar a decidir dentro da cabine. Quanto maior essa preparação, menor o espaço para dispersão entre identidade política e voto efetivo.

A extrema direita entendeu com especial eficiência que uma eleição não é uma coleção de candidaturas independentes. Governador pode validar senador. Senador pode reafirmar candidato presidencial. Influenciador pode traduzir a combinação. Liderança local pode entregar nomes e números. A força de uma candidatura passa a proteger as outras. Enquanto o campo democrático acompanhava principalmente quem estava à frente, seu adversário trabalhava para que uma parte maior da base chegasse ao domingo sabendo o que fazer com a urna inteira.

O país material por trás da rede

Seria intelectualmente pobre explicar tudo isso como vitória do algoritmo. Nenhuma plataforma inventou o preço da comida, a dívida acumulada, a insegurança, a precariedade dos serviços, o ressentimento contra instituições ou a expansão do conservadorismo religioso. A tecnologia encontrou contradições reais e ampliou a capacidade de uma força política de lhes dar interpretação e direção. Se perdermos isso de vista, transformaremos novamente o instrumento em causa e preservaremos intacto o problema político.

O Brasil chegou à eleição com uma distância evidente entre indicadores econômicos e experiência cotidiana. Emprego e renda haviam melhorado em diferentes medidas, mas o endividamento das famílias alcançava níveis muito altos e uma parcela enorme da população continuava vivendo sob orçamento apertado. O eleitor não vota no PIB. Vota também no supermercado, no cartão, no aluguel, na jornada exaustiva e na sensação de que qualquer imprevisto pode romper uma vida financeira já comprimida. A esquerda pode apresentar resultados objetivos do governo e ainda assim perder a disputa sobre o sentido que milhões atribuem à própria experiência material.

A segurança pública expõe outro abandono. Durante anos, parte do campo progressista tratou o tema com linguagem defensiva, enquanto trabalhadores e moradores de periferias conviviam com crime organizado, milícia, tráfico, violência policial e ausência do Estado. A extrema direita ofereceu respostas autoritárias, frequentemente simplificadoras e muitas vezes irresponsáveis. Mas ofereceu uma interpretação reconhecível. Quando uma contradição real não recebe elaboração política convincente, ela não fica vazia à espera da esquerda. Outro projeto a ocupa.

A religião funciona do mesmo modo. Flávio alcançou 52% dos votos válidos nos municípios com presença evangélica acima da média nacional. O dado não permite concluir que todo evangélico vote da mesma maneira, mas revela a importância de estruturas de sociabilidade que o campo progressista ainda insiste em observar como segmentos eleitorais. Igrejas são relações concretas de confiança, ajuda, presença cotidiana e produção de sentido. Em muitos lugares, estão mais próximas da vida popular do que partidos, sindicatos e movimentos que um dia cumpriram parte dessa função.

O mapa confirma que não houve uma conversão homogênea do país. A direita avançou com enorme força no Sul, Sudeste e Centro-Oeste, enquanto o Nordeste preservou outro padrão político. Mais de 33 milhões de brasileiros também ficaram fora da votação, numa abstenção de 21,08%. Território e comparecimento importam porque modificam o peso relativo dos blocos que já existem. O país material estava ali antes das plataformas. A capacidade da extrema direita foi conectar insegurança, desgaste, religião, ressentimento e identidade numa narrativa nacional suficientemente simples para circular por estruturas muito diferentes. A esquerda denunciou muitas das falsificações dessa narrativa. Não conseguiu disputar com a mesma eficácia as condições sociais que a tornavam plausível.

A derrota estratégica

Chega um ponto em que continuar descrevendo a eficiência da extrema direita passa a servir de álibi para a incapacidade do campo democrático. Esse ponto chegou. Depois de 2018 e 2022, já não era razoável entrar em 2026 sem uma inteligência preparada para movimentos tardios, redes fechadas, coordenação entre candidaturas, influência religiosa e assimetrias de comparecimento. O problema é mais grave porque recursos não faltavam. Havia universidades, institutos, pesquisadores, movimentos sociais, partidos nacionais, sindicatos, governos, profissionais de comunicação, estruturas jurídicas, veículos progressistas, dinheiro de campanha e ferramentas de monitoramento. A abundância de instrumentos não produziu uma leitura comum.

No comando da campanha, pesquisa, comunicação, mobilização, território e redes continuaram funcionando em compartimentos demais. Cada área podia produzir relatórios tecnicamente competentes e, mesmo assim, o conjunto permanecer sem direção. A profissionalização criou especialistas, mas não necessariamente uma inteligência capaz de decidir quais sinais exigiam mudança imediata de estratégia. Um dashboard pode acompanhar milhares de indicadores e ainda oferecer apenas uma sensação sofisticada de controle. O que faltou foi síntese política.

A base também precisa entrar nessa crítica. A esquerda brasileira construiu sua história com presença cotidiana em sindicatos, associações, pastorais, movimentos populares, organizações culturais e trabalho territorial. Parte dessa capilaridade foi sendo corroída enquanto a extrema direita ocupava novos espaços de sociabilidade e aprendia a mantê-los ativos fora da eleição. Não adianta contratar uma operação digital excelente se ela chega a uma comunidade depois de quem passou quatro anos produzindo pertencimento dentro dela. Comunicação não corrige sozinha ausência social.

Esse vazio aparece nos temas entregues ao adversário. Segurança foi tratada por tempo demais como terreno hostil. Religião frequentemente apareceu como nicho. O ressentimento contra instituições recebeu muita defesa institucional e pouca investigação sobre suas bases materiais. Endividamento e precarização entraram no discurso, mas nem sempre foram traduzidos em uma interpretação política capaz de reorganizar a experiência de quem vive essas contradições. A extrema direita ocupou essas fraturas com inimigos fáceis, falsificações, medo e respostas autoritárias. Denunciar a mentira é obrigação democrática. Acreditar que a denúncia, sozinha, reconquista o território é uma ilusão estratégica.

O mais duro é admitir que os alertas existiam. O Senado era uma prioridade declarada pelo bolsonarismo. O avanço conservador em redes religiosas e territoriais era conhecido. A diferença de exposição digital entre os eleitorados estava medida. A recorrência dos movimentos de última hora já tinha precedente. O campo progressista possuía as peças. Faltou leitura para montá-las antes da apuração. Produzimos informação em abundância e chegamos ao domingo sem uma doutrina capaz de dizer quais relações estavam alterando de fato a correlação de forças.

Por isso a responsabilidade não pode ser empurrada novamente para o instituto, para a plataforma ou para um eleitor supostamente incompreensível. Depois da terceira eleição, surpresa deixa de ser uma explicação aceitável. O campo democrático não perdeu os sinais. Perdeu o sentido dos sinais. Se essa diferença não for enfrentada, qualquer modernização de campanha corre o risco de informatizar a mesma cegueira.

O segundo turno já começou

O primeiro turno terminou, mas a eleição que ele revelou ainda está sendo interpretada. Em 25 de outubro, Lula e Flávio Bolsonaro voltarão às urnas separados por menos de dois pontos percentuais no resultado do primeiro turno. A tentação será acompanhar diariamente quem ganhou ou perdeu um ponto. Esse dado continuará importante, mas a principal lição de 4 de outubro é justamente que a média nacional não basta para explicar a direção do movimento.

O segundo turno começa sobre um terreno modificado. As candidaturas menores saíram da disputa, alianças estão sendo reorganizadas, governadores e lideranças estaduais ganharam novo peso, a vitória da direita no Senado alterou a percepção de força e milhões de eleitores agora escolhem entre apenas dois nomes. A tarefa jornalística e estratégica é observar onde a certeza cresce, quais territórios mudam, como os votos dos derrotados migram, quem pretende comparecer e quais redes de confiança estão adquirindo capacidade de orientar essa passagem.

Também não será suficiente medir a superfície digital. Alcance, visualização e impulsionamento dizem quanto uma mensagem circulou. O que importa agora é saber quando circulação começa a produzir organização. Quais intermediários conseguem transportar uma interpretação entre comunidades diferentes, que lideranças ganham autoridade e onde uma orientação política passa a ser repetida por relações pessoais, religiosas e territoriais. O mesmo vale para as ruas. Mobilização física continua tendo enorme valor, mas precisa ser lida pelo que consegue ativar depois que o ato termina.

Nada disso torna a extrema direita inevitável. O primeiro turno mostrou resistência importante em regiões onde o campo progressista conserva liderança, organização e presença social. O que desapareceu foi o direito à ingenuidade. A extrema direita brasileira é hoje um campo institucionalmente forte, territorializado, financiado, conectado a redes religiosas e digitais e capaz de transformar rapidamente identidade em ação eleitoral. Dentro dele há setores autoritários e neofascistas que não escondem sua hostilidade a pilares da democracia. Subestimá-lo depois de tudo que aconteceu desde 2018 seria menos um erro de comunicação do que uma recusa em olhar a realidade.

O segundo turno oferece ao campo democrático a oportunidade imediata de provar que aprendeu alguma coisa com o primeiro. Depois dele, qualquer que seja o resultado, a tarefa continuará. Reconstruir presença social, inteligência estratégica e capacidade de interpretar as relações através das quais as pessoas dão sentido à própria vida. Nunca tivemos tantos dados sobre o eleitor brasileiro. O que faltou foi compreender o momento em que dados separados começavam a formar poder. Enquanto olhávamos para quem aparecia na frente, eles organizavam relação por relação o caminho que levaria seus eleitores até a urna.

Por Reynaldo Aragon

 

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