Kassio é uma vergonha

Kassio é uma vergonha

O canal criado (faz meses) por Janones é privado e não deveria estar cumprindo as 48 horas

Tendo o PT atendido à sua exigência de registrar como instrumento de campanha o perfil “Exército de Lula”, criado e gerido pelo deputado André Janones, o ministro Kassio Nunes perdeu os motivos para manter o grupo censurado, mas, na noite de terça-feira, impôs um decurso de prazo de 48 horas para a volta ao ar. A parcialidade e a desfaçatez militante do ministro a favor de Flávio Bolsonaro são uma vergonha para o Judiciário e uma ofensa à democracia. Insondáveis são os motivos do PT e de seus aliados para não terem, até agora, requerido ao STF o impedimento dele para a presidência do TSE, por notória associação com um dos candidatos.

Kassio devia envergonhar-se também das notícias que falam da presença dele numa festa tipo bacanal, promovida pelo ex-banqueiro Vorcaro, que, durante a festa, recebeu mensagem de um serviçal dizendo que havia liberado um quarto “para ministro com cinco meninas”. Na PF e até no STF, entende-se que a referência era a Kassio. As mensagens não mencionam a presença de outro ministro na orgia. Kassio, entretanto, não fez uso de sua valentia contra a candidatura de Lula para pedir a derrubada das muitas notícias publicadas sobre a festa, com insinuações de que ele era o garanhão da noite.

Encontrei, através do Google, pelo menos 28 notícias que se referem a Kassio Nunes, Vorcaro e quarto com cinco meninas. Todas derivam da matéria original da jornalista Daniela Lima no UOL, informando que “mensagens apreendidas no celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro mostram que um funcionário relatou ter cedido um quarto para um “ministro com 5 meninas” durante uma festa realizada no triplex do empresário, em São Paulo, em 28 de fevereiro de 2025. Dias depois, uma mulher responsável por levar convidadas ao evento cobrou R$ 10 mil e afirmou que uma delas havia ficado com “Kassio”… ”

Em nota enviada ao UOL, o ministro foi bem lacônico e muito pouco indignado com notícia tão nefasta para sua reputação. Afirma que nunca votou a favor de Daniel Vorcaro, que deu voto pela manutenção da prisão, não trocou mensagens ou pediu algo ao banqueiro. “O ministro também nunca autorizou ninguém a falar em nome dele e não pode se responsabilizar por conversas ou ações de terceiros”. Não disse que não estava na festinha.

Terá o ministro sentido vergonha pública ou constrangimento familiar com a publicação? Terá considerado a matéria de Daniela uma fake news? Como presidente do TSE, talvez não pudesse chegar ao ponto de pedir a derrubada das matérias, mas, como cidadão envergonhado e ofendido com notícia que o coloca no vale dos moralmente decaídos, ele podia ter recorrido à Justiça para tentar barrar sua circulação e reprodução. Não fez isso, por falta de valentia ou de vergonha mesmo.

Kassio garimpou um casuísmo – Para atender ao pleito da campanha de Flávio Bolsonaro e censurar o “Exército de Lula”, que vinha incomodando o bolsonarismo com seus quatro milhões de inscritos, Kassio falou na divulgação de fake news. Não apontou nenhuma, o que levou o corregedor do TSE, ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, a suspender a interdição no domingo, pedindo o exame da matéria pelo plenário. Na segunda, Kassio voltou ao ataque, exigindo que, para o perfil se manter ativo, o PT devia registrá-lo como meio oficial de propaganda eleitoral. O perfil é privado, mas o PT atendeu.

Aqui há um detalhe importante que mostra como Kassio tem forçado a interpretação das regras para atender aos interesses de Flávio Bolsonaro.

O artigo 28, § 1º-B, da Resolução TSE nº 23.610/2019, com redação dada pela Resolução nº 23.755, de 2 de março de 2026, diz literalmente: “Os endereços eletrônicos preexistentes não informados no RRC ou no DRAP, conforme estabelecido no inciso I do § 1º deste artigo, somente poderão vir a ser utilizados em campanha 48 horas após seu registro na Justiça Eleitoral.”

Ocorre que o artigo 57-B, § 1º, da Lei nº 9.504/1997 dispensa da obrigação de comunicação os endereços eletrônicos de iniciativa de pessoa natural.

O canal criado (faz meses) por Janones é privado, logo não deveria estar cumprindo as 48 horas. Justamente enquanto o Senado, disse um revoltado Janones, estará decidindo sobre o projeto que acaba com a escala de trabalho 6 x 1, trunfo importante da campanha de Lula. Ou seja, Kassio invocou uma norma legal que não devia, entretanto, ser aplicada ao caso. Mas agora é tarde, pois o PT, para garantir a volta ao ar, registrou o Exército de Lula como instrumento oficial da campanha, tornando-o sujeito à regra. Só depois de ter feito isso foi informado de que seria preciso esperar as 48 horas.

Isso é Kassio, manipulando as regras para servir a Flávio. Kassio é mesmo uma vergonha. Desde a ditadura, o TSE não era tão avacalhado.

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