O professor de Teoria Econômica da Universidade de Sevilha, Juan Torres López, defende que a escassez de vacinas é proposital para garantir o lucro crescente dos laboratórios que as fabricam. Ele justifica a idéia, pelo fato da vacina ser a única forma eficiente de combater o novo coronavírus, o que faz com que todos os países fiquem reféns dessa produção.
López explica que quando a pandemia se instalou a presidenta da Comissão Européia instou a que as vacinas se convertessem num bem público porque “a União Europeia havia investido muitos bilhões no seu desenvolvimento”. O FMI Fundo Monetário Internacional pedia no seu relatório de Janeiro último uma “distribuição universal de vacinas … a preços acessíveis para todos”…
Contudo, o que está acontecendo é exatamente o contrário: os governos dos países ricos recusam que as vacinas se possam ser produzidas e distribuídas maciçamente a preços acessíveis em todos os países do mundo, como seria imprescindível para acabar com a pandemia. Continua-se a criar escassez para salvaguardar o lucro e o poder das grandes empresas farmacêuticas.
Para desenvolver vacinas de distribuição universal, como pede o FMI, é preciso a colaboração de cientistas e produtores de todo o planeta mas isso só é possível se se puser à disposição de todos eles o conhecimento e a técnicas que as tornam possível, algo que é impossível enquanto não se suspenderem as patentes e direitos de propriedade intelectual.
É o que está pedindo há meses a grande maioria de países, líderes políticos, organizações de todo tipo, centros de investigação, personalidades, dirigentes de igrejas… E é o que deseja a imensa maioria da população nos lugares onde foi perguntado (73% no Reino Unido).
Mas, contra essa opinião majoritária, os governos dos países ricos (Estados Unidos, União Europeia, Japão, Reino Unido, Brasil, Canadá, Noruega e uns poucos mais) opõem-se constantemente a isso.
A fim de salvaguardar os interesses comerciais das grandes empresas farmacêuticas que produzem as vacinas (o mesmo poderia dizer-se de outros bens, dispositivos ou instrumentos de diagnóstico que são imprescindíveis no combate à pandemia), está-se dando lugar a uma carência generalizada de vacinas, simplesmente, porque não se está a aproveitando toda a capacidade potencial de fabricação das mesmas. Os dados são inapeláveis:
– Apenas 43% da capacidade que há no mundo para produzir as vacinas está sendo utilizada.
– As três maiores fabricantes de vacinas só estão produzindo para 1,5% da população mundial, um volume muito abaixo da sua capacidade potencial por não ter acesso às licenças.
– Apesar da escassez, quando alguns fabricantes se oferecem para produzi-las não recebem resposta das empresas que, com o beneplácito dos governos, dominam o mercado. Isso aconteceu com a dinamarquesa Bavarian Nordic que poderia fabricar quase 250 milhões de vacinas.
– Algo parecido ocorre em países como a Índia: um dos seus fabricantes está produzindo milhões de vacinas mas há pelo menos outras vinte fábricas, e outras muitas em todo o mundo, que poderiam estar a produzi-las se tivessem acesso às licenças.
A consequência de tudo isto é duplamente absurda e me atreveria a dizer que criminosa.
Em primeiro lugar, milhares de milhões de pessoas dos países mais pobres ficam à margem da vacinação que pode evitar a enfermidade. Os países ricos (16% da população mundial) acumulam as vacinas (60%) enquanto os mais pobres estão desabastecidos. O Reino Unido havia distribuído mais de 31 doses por cada 100 pessoas e os Estados Unidos mais de 22 em fins de Fevereiro, a Ásia no seu conjunto um pouco mais de dois e a África menos 0,55 em média nos países onde haviam chegado. A um terço da humanidade não chegou nem uma dose e, segundo The Economist , mais de 85 países não vacinarão o suficiente até 2023,enquanto os governos dos países ricos compraram três vezes mais unidades do que precisa a sua população (cinco no Canadá).
Isto não é apenas um genocídio mas uma completa estupidez. A acumulação de vacinas nos países ricos não vai terminar com a pandemia porque esta é global e as mutações podem vir de qualquer país onde a vacina não tenha chegado. E é também uma política estúpida porque financiar a vacinação em todos os países do mundo implica 338 vezes menos dinheiro do que o que custará o dano de não fazê-lo. Mais uma prova de que as decisões econômicas que se tomam não buscam a eficiência nem a poupança e sim o enriquecimento de uns poucos.
A política dos países ricos é igualmente absurda porque, em última análise, vai criar racionamento também em casa, como está acontecendo na União Europeia. E também é estúpido responder à escassez que eles próprios causaram restringindo as exportações, porque isso não melhorará nem o abastecimento interno nem o global, mas provocará respostas do mesmo tipo que irão perturbar as cadeias de abastecimento.
A pandemia não está sendo combatida como os próprios líderes mundiais disseram que deveria ser combatida porque são incapazes ou não estão dispostos a limitar a ganância de uns poucos. Uma crise económica gigantesca e a perda de milhões de empresas e empregos está sendo causada para a salvaguarda dos privilégios dos grandes monopólios. Milhões de pessoas vão morrer desnecessariamente porque estão priorizando os interesses comerciais.
Por isso torna-se cada vez mais necessário que se definam e persigam os crimes econômicos contra a humanidade.
Artigo completo em Resistir.Info
https://www.resistir.info/pandemia/escassez_artificial.html
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