Passavam das 10 da manhã, quando o pastor Silas Malafaia subiu ao púlpito para dar uma bronca em seus fiéis. Suas “ovelhas”, como ele se refere aos membros da igreja, precisavam trazer mais pessoas para o culto – não bastava estarem ali, se não convertessem conhecidos. A reclamação tinha motivo: naquele domingo ensolarado de 31 de agosto deste ano, sobravam cadeiras na sede da Assembleia de Deus Vitória em Cristo (Advec), na Penha, zona norte do Rio, com capacidade para seis mil pessoas. A parte superior estava praticamente vazia.
As reclamações de Malafaia não se dirigiram apenas às suas ovelhas: sobrou espaço para criticar a Polícia Federal (PF), o Supremo Tribunal Federal e os vazamentos de suas conversas com o ex-presidente Jair Bolsonaro. E para se defender de todas essas ações.
“Eu tenho muitos defeitos. De vez em quando alguns aparecem. De vez em quando, alguns aparecem quando cometem o crime de quebrar o sigilo! Como diz a Constituição, no artigo 5º, inciso 10: é inviolável a intimidade das pessoas! Mas estamos vendo um país que ninguém respeita a Constituição. Quem devia respeitar é o primeiro a rasgar, mas isso é outro assunto”, esbravejou no púlpito.
Naquele mesmo dia, a imprensa ainda divulgou trechos das conversas do pastor com Bolsonaro. Em algumas delas, Malafaia chamava Eduardo de “babaca”, “idiota” e “estúpido de marca maior”, após o deputado defender publicamente o tarifaço de Donald Trump contra o Brasil.
Apoiador declarado de Bolsonaro, Malafaia usa as redes sociais para divulgar vídeos em defesa do ex-presidente – e para acusar o STF de perseguição.
Apoiador de Bolsonaro, Malafaia usa cultos para se defender e criticar STF
No domingo 31 de agosto, Malafaia escolheu abrir o culto da Santa Ceia com um trecho da segunda carta do apóstolo Paulo aos Coríntios (capítulo 4, versículos 8 e 9), que fala sobre as aflições e resistências dos cristãos.
“Olha o que diz a palavra: Em tudo somos atribulados, mas não angustiados; perplexos, mas não desanimados; perseguidos, mas não desamparados; abatidos, mas não destruídos”, disse. E seguiu com outros trechos sobre os aprendizados das ‘adversidades’ da vida.
Entre versículos e salmos, Malafaia parecia querer justificar a própria situação em que se encontra como atos de injustiça e sinais de provação. Se na PF, ele preferiu se calar durante o depoimento, aos seus fiéis, ele falou.
“Ninguém gosta de tribulação. Mas aí um um deputado lesado evangélico [em referência a Otoni de Paula], né? Que a GloboNews deu a chance a ele para me atacar, ele disse: ‘O pastor Silas Malafaia quer ser preso’. Irmão, uma coisa é estar preparado para ser preso, outra coisa é querer ser preso. Eu estou preparado. Se eu não tivesse preparado, eu não fazia o que faço. Agora querer ser preso? Quem quer ser preso? Manda internar no hospício. Manda para o psiquiatra. Dizer que eu quero ser [preso], porque eu declaro ‘eu não tenho medo de ser preso’, é muito diferente.”
Lá pela metade do culto, Malafaia citou a Primeira Carta de João (capítulo 5 versículo 18): “aquele que é de Deus, o maligno não lhe toca”. E voltou a falar sobre si mesmo.
Esse aqui tem proteção, tem guarda. Perseguido sim, desamparado não. Você não está sozinho! É por isso que eu não tenho medo de Xandão.”
“O Malafaia escolher passagens bíblicas para justificar o seu posicionamento político, classificar, por exemplo, também Bolsonaro, a quem ele muito defende, como uma pessoa escolhida por Deus, tudo isso faz parte dessa cultura de selecionar as passagens bíblicas para manifestar, neste caso, um posicionamento político”, diz a pesquisadora.
Para Vinícius do Valle, que é cientista político e pesquisador das igrejas evangélicas e política no Brasil, “certamente existe um planejamento de discussões políticas de acordo com a agenda eleitoral”.
Política nos cultos levou ao esvaziamento nas igrejas
Se no Rio, Malafaia usou o púlpito como palanque para criticar o STF, em São Paulo, os pastores foram bem mais contidos ao manifestar seus posicionamentos políticos. A reportagem acompanhou cultos nos dias 1 e 3 de setembro na sede da Advec na Mooca, Zona Leste da capital paulista. E a diferença foi nítida.
No dia 1 de setembro, no chamado “Culto da Vitória”, o pastor Pedro Henrique Bravo, líder regional da Advec em São Paulo, abriu a celebração religiosa após quase 20 minutos seguidos de louvores que cantavam a vitória daqueles que se submetiam às vontades de Deus. Diferente de Malafaia, o líder religioso não fez manifestações políticas diretas e nem convocou os seus fieis ao ato de 7 de setembro. Assim como nos cultos no Rio, havia muitas cadeiras vazias.
No encerramento, em um tom morno, Bravo explicou ao público presente que Malafaia não realizaria cultos em São Paulo no 7 de setembro devido ao horário marcado para a manifestação.“[…] Ele pregaria e à tarde iria para a manifestação que ele lidera, né? Mas, como a manifestação começa mais tarde, por isso, nós vamos transmitir o culto do Rio e depois ele vem direto para São Paulo”, prometeu o pastor.
“É melhor a gente chegar cedo, porque vai vir aquele povo todo da manifestação pra cá e não vai ter lugar”, comentou uma frequentadora da Advec que assistia ao culto junto de sua família, nas últimas fileiras do salão principal.
Já na noite de quarta-feira, 3 de setembro, foi o dia da “Escola da Palavra”, um encontro dos fieis para estudos sobre a bíblia e as doutrinas da Assembleia de Deus Vitória em Cristo. Havia pouco mais de 50 pessoas na plateia, que após entoarem os seus louvores, sacaram uma revista que trazia as “epístolas universais”, descritas como um jeito “simples e prático de aprender a ser um verdadeiro cristão”.
No púlpito, quem comandava era o pastor Erivelton Nunes, que utilizou as epístolas do amor, propagadas pelo apóstolo João, para conduzir a pregação daquela noite.
Segundo a pesquisadora Magali Cunha, o esvaziamento nos cultos tanto no Rio, quanto em São Paulo, pode ser um indício de desgaste da narrativa bolsonarista dentro das igrejas evangélicas, onde “houve um discurso mais aguerrido”. “Silas Malafaia tem uma identificação muito forte com a figura de Jair Bolsonaro. Então, isso é sim uma possível razão para o esvaziamento”, concluiu.
Publicado originalmente na
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