A história de José Antonio e Manuel destaca a aleatoriedade das prisões no país e o quão cara uma tatuagem pode ser
Os colombianos José Antonio Potes e Manuel Castrillón estavam entre os mais entusiasmados admiradores de Bukele. Impressionados com a propaganda do regime, eles decidiram gastar todas suas economias viajando para El Salvador para conhecer em primeira mão as transformações efetuadas pelo autoproclamado “ditador mais cool do mundo”.
A alegria durou pouco. Um dia após desembarcarem no país, eles foram presos. Estavam saindo de um shopping center quando foram abordados pela polícia. Os agentes solicitaram seus documentos e perguntaram se tinham tatuagens. Potes mostrou a tatuagem de um terço que havia feito em homenagem à sua avó. Os policiais, no entanto, acreditavam se tratar de um símbolo da Mara Salvatrucha, uma das principais organizações criminosas do país.
Operando sob estado de emergência, o governo de El Salvador autoriza seus policiais a deterem qualquer pessoa que esteja andando nas ruas, sem qualquer sistema de validação, audiência de custódia ou necessidade de mandado judicial. Potes e Castrillón tiveram suas cabeças raspadas e foram enviados para um presídio superlotado. Permaneceram no cárcere por três meses, dormindo amontoados no chão, sofrendo abusos e agressões dos outros presidiários e fazendo suas necessidades fisiológicas em baldes.
Após a soltura, os dois colombianos ainda apareceram em vídeos elogiando o governo de Bukele. Eles assumiram responsabilidade pela própria prisão, alegando que foram presos por problemas com o visto de trabalho, e diminuíram o ocorrido como “um mero mal entendido”. Foi somente após retornarem à Colômbia que eles concederam entrevistas admitindo que o regime de Bukele os forçou a gravar vídeos isentando o governo de culpa.
Em 19 de abril, a revista colombiana Semana publicou um vídeo — o primeiro depoimento dos detidos — no qual José Antonio Potes aparecia “nas ruas de El Salvador, livre e ansioso para começar uma nova vida”. Na gravação, Potes afirmou que houve ” um mal-entendido de que eu estava preso por questões relacionadas a gangues. Foi por motivos de imigração , porque cheguei sem visto de trabalho e estava trabalhando. Vejo que a mídia divulgou algo que não era verdade”, declarou.
Nessa época, surgiu outro vídeo de Potes e Castrillón curtindo a vida salvadorenha, dançando e cantando na praia cercados por uma banda. Parecia que o cativeiro tinha valido a pena e agora eles desfrutavam da liberdade que tanto almejavam.
Os colombianos esperaram até retornarem ao seu país de origem para contar a verdade: o regime de Bukele os havia forçado a falsificar os vídeos anteriores e a distorcer sua história.
“Fomos enganados pela propaganda de Bukele .” José Antonio Potes retornou à sua Colômbia natal, desiludido com o sistema do país centro-americano. Nos últimos anos, ele vinha acompanhando como o “presidente do milênio” administrava a segurança e a economia de El Salvador. Com informações do El Español.
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