Francisco Leandro Santos, 34 anos, já foi moleque de rua. Para ajudar a sustentar a família, acordava de madrugada, ia para a rua pedir dinheiro para tentar comprar sal, farinha, açúcar… era dessa maneira que aos 12 anos sustentava a mãe e três irmãos pequenos.
Apesar das dificuldades, o menino buscou formas de garantir o futuro através da Educação e da arte. Nunca deixou de estudar.
“Eu conheço uma realidade que ainda existe. Já fui para a sala de aula com fome, sem sandália, e percebia que alguns professores não entendiam que quem vai com fome não consegue acompanhar o raciocínio. Tive que sobreviver sozinho, sem pai, sem mãe e sem amigos. Durante o tempo em que meus pais estavam separados, consegui seguir em frente graças à ajuda de parceiros que me deram casa e comida. Foi isso que me sustentou e me deu forças para continuar”.
Entre 2019 e 2020, ele conquistou uma bolsa de estudos nos Estados Unidos pelo Ifac e formou-se em Física. Em 2025, conseguiu um contrato provisório de professor em Sena Madureira onde vive.
“Quando comecei a ministrar aulas, aprendi a ser flexível com isso. Sabemos que há adolescentes sem a presença dos pais ou da família, e a escola precisa ser uma válvula de escape, acolher, entender o aluno, tirar um tempo para ouvir, conversar e estender a mão.”, explica.
Nesse meio tempo, fez o concurso da Educação estadual no qual foi aprovado e assinou no último dia 5 o termo de posse no concurso da Educação.
Agora professor efetivo do Estado, aprovado no maior certame já realizado pela Secretaria de Educação e Cultura (SEE), ele transforma em impulso as memórias de infância difícil para seguir mudando vidas por meio do ensino, assim como, segundo ele, foi salvo pela educação e pelo hip hop.
Infância difícil e sonhos que se realizam
O concurso que assumiu lhe deu a garantia de poder planejar o futuro. Como pretende se tornar professor universitário, ele afirma que precisa se preparar com mais estudo, enquanto aguarda o momento certo para dar mais um passo importante na carreira.
“Quero continuar seguindo com humildade, sabendo qual é o meu lugar e qual é o momento certo de ocupar os espaços. A posse foi marcante, um instante em que pude refletir sobre tudo o que passei na vida, sobre todas as humilhações que enfrentei. Mesmo assim, nunca desisti de mim. Sempre acreditei em mim e, apesar de todas as dificuldades, não me deixei levar pelo que o sistema queria que eu fosse”, reforça.
Os sonhos, porém, não param por aí. Desistir não faz parte do vocabulário. Com a segurança da efetividade, Leo planeja voos mais altos, como se tornar servidor federal, enquanto transforma a vida de jovens dentro da sala de aula, assim como, um dia, teve a sua própria vida transformada.
Leo do Hip Hop
O agora professor efetivo da Rede Estadual de Educação, diz que deve sua resiliência à cultura hip hop, que lhe deu base, conhecimento e força para resistir. “Foi essa cultura que não me deixou entrar no mundo do crime, já que muitos me julgavam dizendo que eu não ia prestar. O hip hop, ao contrário, me ensinou a enxergar novos horizontes e alcançar novos patamares por meio da cultura, da dança e do break. Por isso, devo muito a essa cultura e à minha trajetória profissional”, relembra.
Persistência é a chave
Leo do Hip Hop é um dos 713 novos professores, empossados em cerimônia realizada na última segunda-feira, dia 5, no auditório do Departamento de Trânsito do Acre (Detran), em Rio Branco, acompanhada pelo governador Gladson Cameli e pela vice-governadora Mailza Assis.
O homem que sempre acreditou que daria certo e se tornou persistente ao traçar o caminho que queria seguir conta o que sentiu ao ser empossado: “Passou um filme na minha cabeça, porque não foi fácil conquistar uma vaga. Por isso, é preciso acreditar no seu potencial, acreditar em você e também estudar. Quando pensamos em ser servidores, se não sacrificarmos nosso tempo e não abrirmos mão de certas coisas, dificilmente vamos conseguir. Às vezes alguns têm sorte, mas eu não acredito tanto em sorte; acredito mais em persistência, em trabalho árduo e em sacrifício, porque Deus honra. Tenho certeza de que essa nova fase da minha vida vai contribuir muito para a sociedade no campo educacional. Precisamos fazer com que o aluno se sinta humano. Não podemos tratá-lo como um robô, como um produto ou apenas números, mas como alguém com potencial para contribuir com a nossa sociedade”.
O concurso
O investimento destinado às contratações soma R$ 221.816.719,40, recurso que possibilita ampliar o quadro docente para atender os 22 municípios do estado, garantir melhor qualidade no ensino e consolidar o maior aporte já realizado na educação acreana.
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