Superioridade das universidades públicas: alunos das privadas se saem pior em 94% das questões do Enamed

Superioridade das universidades públicas: alunos das privadas se saem pior em 94% das questões do Enamed

Os resultados do Exame Nacional das Escolas Médicas foram divulgados em janeiro. Dos 107 cursos com notas 1 e 2, consideradas insuficientes, 87 são de instituições privadas com ou sem fins lucrativos, com mensalidades que chegam a R$ 17 mil. Houve divulgação para 350 cursos

 Mesmo com melhor perfil socioeconômico, os estudantes concluintes de medicina em cursos particulares tiveram desempenho pior do que os da rede pública em praticamente todas as questões do Enamed, a avaliação do MEC (Ministério da Educação).

Isso ocorreu em 85 das 90 questões válidas, o que corresponde a 94% da prova, segundo análise da Folha de S.Paulo com base nos microdados do exame. Não houve diferença estatisticamente relevante nas outras perguntas.

Os resultados do Exame Nacional das Escolas Médicas foram divulgados em janeiro. Dos 107 cursos com notas 1 e 2, consideradas insuficientes, 87 são de instituições privadas com ou sem fins lucrativos, com mensalidades que chegam a R$ 17 mil. Houve divulgação para 350 cursos.

Pesquisas mostram que variáveis socioeconômicas estão associadas ao desempenho acadêmico de estudantes: quanto maior a renda e escolaridade dos pais, melhor o desempenho. Análises com o Enade (avaliação federal com concluintes de cursos de graduação) já identificaram relação significativa entre desempenho e os fatores socioeconômicos.

Isso é, inclusive, frequentemente relatado pelo setor privado para justificar resultados desfavoráveis a seus cursos nas divulgações do Enade. Mas o comportamento em medicina, a partir do Enamed, segue outra tendência.

Mais de 35% dos alunos dos cursos privados têm renda familiar superior a seis salários mínimos mensais. Nas públicas, essa é uma realidade de 19%.

Com relação à escolaridade, 36% dos estudantes de medicina privada têm mães com ensino superior. Esse percentual cai para 31% na rede pública. Os dados sobre perfil socioeconômico levam em conta o questionário de todos os aptos para a prova, e não só aqueles que tiveram desempenho considerado para o cálculo das notas.

Os dados mostram diferença também racial. Estudantes autodeclarados pretos e pardos são 27% nos cursos privados e 37% nas instituições públicas, que contam com cotas para ingresso.

O desempenho desfavorável dos alunos de medicina de cursos particulares, apesar de melhor nível socioeconômico, reforça o cenário de problemas de qualidade da oferta dessas graduações.

“A variável da escola parece ser mais determinante e afasta um pouco a discussão de que as escolas privadas seriam vítimas de um perfil de estudantes que trazem dificuldades para o ensino”, diz o professor da USP Mario Scheffer, coordenador do estudo Demografia Médica no Brasil.

Scheffer pondera que a ausência de informações individualizadas nos microdados dificulta análises mais aprofundadas, seja nas particulares ou nas públicas. Ele ressalta, no entanto, que os cursos com pior avaliação têm também indicadores inferiores relacionados ao percentual de docentes com doutorado e número médio de alunos por professores, além de serem instituições mais novas e com menor concorrência para ingresso.

A Folha de S.Paulo mostrou que faculdades de medicina privadas criadas na última década, após a Lei do Mais Médicos (de 2013), e localizadas em cidades do interior, com menos de 300 mil habitantes, concentram os piores resultados no exame.

O economista Rodrigo Capelato, do Semesp (que representa mantenedoras do ensino superior privado), afirma que o número maior de estudantes nessas instituições impacta os resultados. “Quando se olha o universo de alunos do Enamed, a maioria está nas privadas. E, como há grande competição de ingresso nas públicas, maior tradição, gratuidade, elas ficam com os melhores alunos.”

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