Identidade e memória: bora conhecer Palácio Rio Branco e a 1ª governadora do Brasil?

Identidade e memória: bora conhecer Palácio Rio Branco e a 1ª governadora do Brasil?

Conhecido historicamente como o marco zero de um “Acre definitivo”, descrito pelo ex-governador do estado, Hugo Carneiro, o Palácio Rio Branco carrega em suas paredes o DNA do povo acreano. Ele vive na memória afetiva de personalidades emblemáticas e também de quem cresceu admirando um dos prédios que guardam a história e resguardam a democracia do Acre como território brasileiro.

Projetado pelo arquiteto alemão Alberto Massler e inspirado no neoclassicismo grego, abriga no primeiro andar um museu aberto ao público, com salas temáticas que contam a história do Acre por meio de objetos, fotos, vídeos e depoimentos. O segundo andar é destinado às atividades oficiais do governo.

Em uma época em que predominavam construções de madeira, o Palácio representou inovação ao ser erguido totalmente em alvenaria. As obras começaram em 1929, o prédio foi inaugurado ainda inacabado em 1930 e concluído apenas em 1948.

Entre 1999 e 2002, devido ao desgaste estrutural, o edifício passou por uma ampla reforma e voltou a receber visitantes. Tombado como Patrimônio Histórico e Cultural do Acre em 2005, tornou-se oficialmente o Museu Palácio Rio Branco em 2008, tendo à sua frente o Obelisco dos Heróis da Revolução e a Fonte da Sagração.

‘Amigos do Palácio’

Quem desempenha um papel importante nessa história é a ex-governadora Iolanda Fleming, que assumiu a chefia do Executivo estadual entre 1986 e 1987, após a renúncia de Nabor Júnior para concorrer ao Senado. Iolanda ficou marcada como a nona governadora do Acre e a primeira mulher a governar um estado brasileiro, reconhecimento que lhe rendeu, em 2019, o Diploma Bertha Lutz, concedido pelo Senado Federal. A homenagem foi entregue pela então senadora e atual vice-governadora, Mailza Assis.

“Olha, falar desse prédio me emociona. O Palácio Rio Branco foi construído numa época em que não existia tecnologia, não existiam máquinas modernas e muitas ferramentas chegavam até de navio, e grande parte do trabalho era feito com instrumentos manuais. Mesmo assim, você vê essa obra de pé até hoje. A beleza do serviço permanece porque foi uma construção muito bem feita. É uma homenagem aos trabalhadores acreanos e brasileiros que ergueram este lugar”, destaca.

De sua trajetória política e da relação com o Palácio, ela relembra que sua administração foi marcada pela proximidade com a população, sempre atenta ao que os moradores do estado desejavam. Uma época que, ao ser lembrada, ainda lhe enche os olhos de emoção.

”As portas eram abertas para que as pessoas mais necessitadas pudessem entrar. Não tínhamos as regalias de hoje; era tudo muito simples. Mas foi um governo que marcou muito. Sempre digo que a maior riqueza que construí foram os amigos que fiz dentro deste Palácio, porque era realmente uma casa aberta ao povo”, disse.

Na sexta-feira, 20, o governador Gladson CamelÍ entregou a recuperação estrutural do Palácio Rio Branco, que passou por um processo de modernização com novas rampas, elevador e climatização dos espaços de visitação, garantindo mais acessibilidade e conforto. Toda a intervenção respeitou as diretrizes do tombamento do patrimônio histórico.

Legado para as mulheres

Para ela, a transformação desse espaço público é essencial para que mais pessoas conheçam uma parte importante da história do Acre, preservando a memória e a identidade de uma transição decisiva para o estado.

“Hoje, ao ver essa revitalização, eu me sinto uma rainha. A obra está linda, vai fazer história e será o nosso cartão-postal. Quanto às decisões do meu governo, duas ações me marcaram profundamente: a criação da Delegacia da Mulher — a segunda do Brasil — e o projeto que permitiu a entrada das mulheres na Polícia Militar.

Hoje temos mulheres coronéis aposentadas que começaram no meu governo. Isso me orgulha muito. Até brinco que, se eu voltasse a ser governadora, meu secretariado seria todo de mulheres, porque sempre tiveram um comportamento exemplar”, pontua.

‘Acre definitivo’

Para Ítalo Facundes, chefe do Departamento do Patrimônio Histórico da Fundação Elias Mansour (FEM), a célebre frase de Hugo Carneiro: “Estamos a construir um Acre definitivo… que resistirá à ação destruidora dos tempos e à poeira das idades”, permanece mais viva do que nunca.

A reinauguração do Palácio Rio Branco só pode ser compreendida quando se volta ao Acre da década de 1920. Naquele período, recém-integrado ao território brasileiro, o estado ainda exercia sua administração em grandes casarões de madeira, vulneráveis às enchentes do Rio Acre e às incertezas de uma economia da borracha em declínio.

Foi nesse cenário que o então governador Hugo Carneiro idealizou a construção do Palácio Rio Branco. Para Facundes, a obra representou mais do que uma sede administrativa: simbolizou o desejo de transformar um Acre transitório em um “Acre definitivo”. O prédio foi concebido como o marco da presença do Estado brasileiro na Amazônia Ocidental.

“Diferentemente de outras capitais, que ergueram seus palácios acompanhando o crescimento urbano, Rio Branco se organizou a partir dele. A escolha da quadra central do antigo Seringal Empresa definiu o eixo da nova cidade, tendo o Palácio como referência geográfica e coração político”, completa.

A arquitetura também carregava um recado simbólico. Suas colunas e proporções neoclássicas anunciavam ao país que o Acre buscava modernidade, autonomia e estabilidade, destaca Facundes. Com o tempo, o edifício tornou-se centro da vida social, atraindo a construção de praças, do obelisco e da fonte luminosa, consolidando-se como um dos principais símbolos da identidade acreana.

“Restaurar o Palácio é manter vivo o ideal de 1928: o de um Acre capaz de resistir ‘à ação destruidora dos tempos’ e preservar sua memória. Ao reabrirmos estas portas, retornamos ao lugar onde nossa história decidiu deixar de ser promessa para se tornar realidade”, afirma.

Preservação da memória coletiva

O chefe do Departamento do Patrimônio Histórico da FEM diz que o Palácio Rio Branco cumpre um papel central na preservação da memória coletiva e no fortalecimento da identidade acreana. Ele lembra que o próprio texto de tombamento reconhece o edifício como um “testemunho de uma época”, eleito pela sociedade como referência histórica e simbólica.

“O Palácio guarda não apenas a trajetória política do estado, mas também as dificuldades enfrentadas para construir na Amazônia nas primeiras décadas do século XX — desde a distância dos grandes centros até a escassez de materiais e o alto custo da mão de obra”, relembra.

Segundo Facundes, sua relevância atual vai além da imponência arquitetônica. O prédio resgata seus usos originais, como o Salão Nobre e a ala do governador, ao mesmo tempo em que se abre para novas funções culturais. “Manter o Palácio vivo é permitir que o cidadão comum se reconheça nesse espaço, sentindo-se acolhido em um local que, embora seja sede do poder, hoje pertence ao povo”, afirma.

Ele destaca ainda que o Palácio Rio Branco é o principal marco do Sítio Urbano do Centro Histórico da capital. Sua importância contemporânea, explica, está no “entendimento integral” do monumento, que reúne valor histórico, estético e social.

Para ele, o edifício é um exemplo de como o tombamento e a restauração científica podem devolver à cidade um símbolo de dignidade. A imponência arquitetônica, aliada à narrativa histórica que carrega, faz do Palácio um dos principais atrativos do turismo cultural no Acre.

“Ele conta a história do ressurgimento do Acre a partir das ruínas do seu passado”, resume, reforçando que o monumento segue como um dos pilares da valorização do patrimônio histórico acreano.

Respeito à história

Ao relembrar que o local estava desativado em 2019, quando assumiu seu primeiro mandato como governador, Gladson Camelí destacou que se sente emocionado por poder contribuir para a conservação de um espaço que não é apenas a sede do Poder Executivo, mas também preserva a história de lutas e liberdade do povo acreano.

“Em meu coração, decidi que retomaria a agenda governamental deste lugar como forma de resgatar um dos patrimônios públicos mais importantes para o povo acreano. Deixo escritas aqui, no Palácio Rio Branco, algumas das páginas mais importantes da minha história como homem público e cidadão acreano. Considero a recuperação deste lugar um legado que ficará para a posteridade, onde outros governadores e governadoras poderão trabalhar em benefício da nossa população.”

A vice-governadora Mailza Assis foi a responsável, ainda como senadora, a destinar recursos para recuperação e modernização do Palácio. Ela destacou o compromisso de preservar a memória e a identidade cultural do estado. “Aqui fica a memória de todas as crianças. A nossa história vai permanecer neste espaço. É o compromisso de reforço da nossa cultura e da valorização da nossa história, e é assim que vamos trabalhar durante todo o mandato”, afirmou.

Por Tácita Muniz

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