Bilionário chinês ligado a Paulo Figueiredo e Eduardo Bolsonaro pega 30 anos de prisão nos EUA

Bilionário chinês ligado a Paulo Figueiredo e Eduardo Bolsonaro pega 30 anos de prisão nos EUA

O magnata chinês Guo Wengui, também conhecido como Miles Guo e Ho Wan Kwok, foi condenado a 30 anos de prisão nos Estados Unidos na segunda (29) por liderar um esquema de fraude que desviou mais de US$ 1 bilhão de milhares de investidores ao redor do mundo.

A sentença foi proferida pela juíza federal Analisa Torres, em Nova York, que também determinou o confisco de cerca de US$ 889 milhões.

Guo, que vive nos EUA desde 2015 após deixar a China, foi considerado culpado por crimes como fraude eletrônica, lavagem de dinheiro e conspiração.

Segundo o Departamento de Justiça americano, DoJ, ele utilizou empresas de fachada para captar recursos de seguidores e financiar uma vida de luxo, que incluía um iate de US$ 37 milhões e uma cobertura de 15 suítes em Manhattan.

O empresário ganhou notoriedade por se apresentar como um opositor do Partido Comunista Chinês e tornou-se um aliado próximo de Steve Bannon, ex-estrategista de Donald Trump e amigo de Eduardo Bolsonaro. Em 2020, ambos anunciaram a criação do chamado “Novo Estado Federal da China”, um movimento político que dizia buscar a derrubada do governo chinês.

As investigações americanas apontam ainda que Guo pagou pelo menos US$ 1 milhão a Bannon por serviços de consultoria. O ex-conselheiro de Trump chegou a ser preso em 2020 a bordo do iate do bilionário, em outro caso envolvendo desvio de recursos destinados à construção do muro na fronteira dos EUA com o México.

Ao anunciar a sentença, a juíza leu trechos de cartas enviadas por vítimas que afirmaram ter perdido as economias de uma vida inteira no esquema. Nos relatos, investidores descreveram episódios de ansiedade severa, vergonha e conflitos familiares provocados pelas perdas financeiras.

Em 2017, sua ex-assistente pessoal, Rui Ma, ajuizou uma ação de US$ 20 milhões na qual o acusa de mantê-la em cárcere privado, submetê-la a abusos sexuais e estuprá-la repetidamente em imóveis do empresário em Manhattan e Londres.

O governo chinês também incluiu acusações de estupro, sequestro e suborno entre os crimes apresentados em pedidos de extradição do empresário. Na fase final do processo, a defesa afirmou que Guo Wengui é alvo de uma perseguição “ampla, constante e potencialmente fatal” promovida pelo Partido Comunista Chinês.

Empresa de Paulo Figueiredo entrou na mira da Justiça americana

O caso alcança o lobista Paulo Figueiredo, um dos principais articuladores de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos e figura central da pré-campanha de Flávio. Figueiredo aproximou Flávio de Marco Rubio e atua como uma espécie de ideólogo do bando.

Uma empresa de Figueiredo, a International Treasure Group, registrada na Flórida, é alvo de um processo que tramita no Tribunal de Falências do Distrito de Connecticut. A ação busca recuperar valores que teriam sido transferidos de forma fraudulenta por empresas controladas por Guo antes de sua declaração de falência.

Segundo documentos obtidos pela Agência Pública, a empresa de Paulo Figueiredo recebeu uma transferência de US$ 140 mil (cerca de R$ 770 mil, em valores da época), feita pela HCHK Technologies Inc., apontada como uma das empresas de fachada utilizadas pelo bilionário chinês.

O processo afirma que a movimentação fazia parte do chamado “jogo de fachada” criado por Miles Guo para ocultar patrimônio e dificultar o ressarcimento de credores. A ação busca reverter judicialmente a transferência por considerá-la parte do esquema financeiro do empresário chinês.

Conexões com a Gettr e o bolsonarismo

Guo também é apontado pela Justiça americana como controlador da rede social Gettr, plataforma lançada por Jason Miller, ex-conselheiro de Donald Trump próximo de Eduardo Bolsonaro.

Paulo Figueiredo informou à Justiça dos EUA que trabalhou para a Gettr entre agosto de 2021 e abril de 2022, durante a expansão da plataforma no Brasil.

Documentos anexados ao processo mostram que Figueiredo participou de discussões estratégicas sobre a atuação política da rede social no país. Um relatório interno de dezembro de 2021 registra que ele sugeriu que a Gettr financiasse uma pesquisa eleitoral presidencial.

Segundo o documento, Jason Miller respondeu que preferia não divulgar levantamentos que apresentassem resultados desfavoráveis a Jair Bolsonaro naquele momento.

Os mesmos registros listam eventos bolsonaristas que poderiam receber patrocínio da plataforma, entre eles encontros promovidos pelo Instituto Conservador Liberal, ligado a Eduardo Bolsonaro, o Congresso Politicamente Incorreto, organizado pelo deputado Carlos Jordy (PL-RJ), e um congresso internacional de médicos realizado durante a pandemia, período em que a Gettr foi acusada de difundir desinformação sobre a Covid-19 e o chamado tratamento precoce.

Preso desde março de 2023, Guo sempre negou as acusações, com o mesmo discurso de Eduardo. Declarava-se perseguido pelo governo chinês e que seu objetivo ao se mudar para os Estados Unidos era “destruir o Partido Comunista Chinês”.

Condenação por rolos com Trump no Brasil

Paulo Figueiredo Filho e seu pai, Paulo Figueiredo, respectivamente neto e filho do ex-ditador João Figueiredo, tiveram os nomes inscritos na Dívida Ativa da União por não quitarem multas superiores a R$ 100 milhões aplicadas pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), autarquia vinculada ao Ministério da Fazenda, conforme revelou o DCM.

As penalidades decorrem de um processo da CVM relacionado ao período em que ambos participaram de um empreendimento imobiliário ao lado do atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para a construção de um hotel no Rio de Janeiro. No processo administrativo, a autarquia apontou a prática de operação fraudulenta no mercado de valores mobiliários, transferência indevida de riqueza, desvio de recursos e enriquecimento ilícito.

Segundo a decisão da CVM, as irregularidades resultaram em um benefício financeiro superior a R$ 33 milhões para Paulo Figueiredo e seu pai.

Conforme apontam as autoridades da Comissão de Valores Mobiliários, em 2013, alguns empresários criaram um projeto para financiar a construção, até 2016, de um hotel. Montaram um FIP (Fundo de Investimento em Participações) e captaram recursos de entidades de previdência complementar. O hotel tornou-se funcional na data prevista, porém com diferenças em relação ao projeto original.

A ilegalidade central é de cometimento de operações fraudulentas com dois pilares: superavaliação do projeto, pelo que as cotas do FIP teriam sido vendidas por preço artificial e taxas de serviços no FIP pagas sobre PL (patrimônio líquido) artificial, e desvios de recursos feitos a partir da companhia detida pelo FIP (a empresa que operaria o hotel), por pagamentos substanciais a fornecedores ligados aos idealizadores do projeto e sem que tivessem prestado os serviços.

Por Kiko Nogueira

 

Veja também

Mais do que votar em extremistas, povo optou pela bandidagem

Mais do que votar em extremistas, povo optou pela bandidagem

Entre os eleitos pelo PL e aliados, alguns inclusive campeões de voto, estão acusados de …