Fúria popular: líder da extrema direita paraguaia tenta capitalizar a crise e quase é linchado

Fúria popular: líder da extrema direita paraguaia tenta capitalizar a crise e quase é linchado

 “Bolsonaro paraguaio” quase é linchado e sai arrastado de protesto pelo Ueno Bank

A fúria popular que tomou as ruas da capital paraguaia na quinta-feira (5) não poupou nem mesmo figuras da extrema direita que tentaram se colocar de forma oportunista como porta-vozes do descontentamento social. O ex-candidato presidencial Payo Cubas, frequentemente apelidado de “Bolsonaro paraguaio”, por seu estilo bélico e pretensamente “antissistema”, viveu momentos de verdadeiro pânico ao tentar se infiltrar numa manifestação massiva contra a crise bancária e política que avassala o país.

O ato, que reuniu milhares de cidadãos lesados pelo colapso financeiro do Ueno Bank e revoltados com a cúpula governamental, transformou-se em um cenário de hostilidade explícita contra o ex-senador. Cubas tentou subir a um palanque improvisado para discursar e inflamar a massa, mas a reação dos manifestantes foi imediata e violenta. Sob gritos de “oportunista” e “canalha”, e vaias ensurdecedoras, o político foi encurralado por uma multidão indignada que arremessou ovos, garrafas plásticas e detritos em sua direção.

Registros em vídeo que viralizaram nas redes sociais capturaram o momento vertiginoso em que a situação fugiu do controle. Temendo um linchamento iminente diante da escalada de agressões verbais e físicas, um grupo de jovens manifestantes decidiu arrancar o ex-senador à força do epicentro da confusão. As imagens mostram Cubas sendo suspenso e arrastado voluntariamente por braços e pernas, transportado quase como um fardo enquanto atravessava o mar de populares furiosos até ser expelido definitivamente do perímetro da marcha.

Estopim: falência bancária e colapso no Palácio de López

A indignação que culminou na expulsão vexatória de Payo Cubas é o reflexo de um terremoto socioeconômico sem precedentes no Paraguai. A população foi às ruas após o Banco Central do Paraguai (BCP) decretar a intervenção direta no Ueno Bank, uma das maiores instituições financeiras do país, que atendia a uma cartela estimada em 2,9 milhões de correntistas. A medida drástica foi motivada pelo descortinar de uma severa crise de insolvência patrimonial, culminando no congelamento imediato de saques e na impossibilidade de trabalhadores e empresários acessarem suas próprias economias.

A tragédia bancária rapidamente adquiriu contornos de escândalo de Estado. O então presidente da República, Santiago Peña, passou a ser o principal alvo da fúria popular devido a seus laços diretos com o ecossistema corporativo ligado à instituição financeira. Revelações de que o agora ex-chefe do Executivo manteve ações em uma empresa associada ao grupo do Ueno Bank até o início de 2025 dinamitaram sua sustentação política no Congresso.

Conta do oportunismo: por que a oposição rejeitou Cubas?

Se Payo Cubas imaginava reencontrar nos protestos o mesmo eleitorado inflamado que o consagrou com mais de 22% dos votos nas eleições presidenciais de 2023, o resultado da incursão de quinta-feira revelou uma profunda ruptura entre o político ultradireitista e a base popular da oposição.

A rejeição a Cubas não foi pontual, mas acumulada. No centro das acusações que ecoaram durante a sua expulsão estava a percepção generalizada de traição política. Manifestantes aos brados lembravam ao ex-senador a conduta de parlamentares eleitos sob a legenda do seu partido, o Cruzada Nacional. É o caso de figuras como Javier Vera (conhecido como “Chaqueñito”) e Zenaida Delgado, que, após se elegerem no rastro do discurso antissistema de Cubas, rapidamente migraram de espectro e passaram a compor a base de apoio do próprio governo Peña no Senado.

“Você colocou o Chaqueñito e a Zenaida lá!”, berravam manifestantes enquanto cercavam o ex-candidato. A frustração popular reflete a leitura de que Cubas serviu como uma “linha de transmissão” que viabilizou a governabilidade do grupo político agora em ruínas. Além disso, a oposição tradicional ainda o responsabiliza pela fragmentação do eleitorado no pleito de 2023, quando sua candidatura enfraqueceu a coalizão liderada por Efraín Alegre e garantiu a vitória tranquila do governismo.

Retrato de um provocador: o histórico do “Bolsonaro paraguaio”

A trajetória de Paraguayo Antonio Cubas Colomés sempre gravitou em torno de escândalos e rompimentos com a liturgia da política tradicional. Advogado de formação, ele despontou no cenário político entre 1993 e 1998 como deputado, mas foi durante sua passagem pelo Senado, a partir de 2018, que seu  estilo performático e combativo ganhou projeção nacional e internacional.

Sua atuação no Congresso paraguaio foi pontuada por episódios inéditos de quebra de decoro, incluindo agressões verbais e físicas a pares, desacato a autoridades policiais e danos ao patrimônio público dentro do recinto legislativo. Esse comportamento errático culminou na perda do seu mandato parlamentar em 2019, através de um processo de cassação votado por ampla maioria no Senado.

Apesar da cassação, Cubas capitalizou o sentimento de antipatia da população em relação às oligarquias dos partidos tradicionais, notadamente o Partido Colorado e o Partido Liberal Radical Autêntico (PLRA). Na campanha presidencial de 2023, adotou uma estética populista, retórica truculenta e promessas de reformas radicais na Constituição, elementos que renderam a inevitável associação à figura do ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro.

Ao alcançar a terceira colocação naquele pleito, Cubas recusou-se a aceitar o resultado das urnas, alegando fraude sem apresentar provas substanciais. Suas convocações a protestos radicais após a apuração resultaram em severos confrontos com as forças de segurança em várias cidades do Paraguai, culminando na sua prisão preventiva por perturbação da paz pública e coação a órgãos constitucionais.

O episódio de quase linchamento na praça pública de Assunção sinaliza um novo e melancólico capítulo para o ex-senador. Em um momento de convulsão social onde o desespero financeiro se soma à descrença nas instituições, a tentativa de Payo Cubas de inflar a própria imagem acabou esbarrando no limite da paciência popular.

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