Relatórios desclassificados mostram que a própria agência de inteligência dos EUA não encontrou evidências de fraude eletrônica em larga escala na Venezuela, contrariando as alegações usadas por Donald Trump para sustentar sua narrativa contra Caracas
No dia 16 de julho, o mandatário estadunidense Donald Trump apresentou um pacote de documentos de inteligência desclassificados como prova de uma suposta fraude eletrônica na Venezuela durante os governos dos presidentes Hugo Chávez e Nicolás Maduro. No entanto, o conteúdo destes arquivos contradiz frontalmente seu relato que buscava respaldar a teoria de uma conspiração eleitoral orquestrada de Caracas para influir nas eleições da nação estadunidense.
A distância entre as palavras do magnata republicano e a evidência documental é abismal, segundo a análise de vários meios de comunicação dos EUA, que revisaram minuciosamente a informação desclassificada.
A peça central do expediente é uma nota da CIA datada de 29 de junho, que avalia informação recopilada durante quase duas décadas sobre a capacidade do Governo venezuelano de intervir em seus próprios processos eleitorais mediante a tecnologia das máquinas de votação.
Segundo o documento existem “preocupações persistentes” quanto à manipulação dos sistemas eletrônicos, mas admite que estas não foram comprovadas, resenhou The Washington Post.
Concretamente, a agência de inteligência estadunidense não logrou confirmar “de maneira definitiva que se tenha executado uma fraude eletrônica em grande escala em eleições venezuelanas específicas”, e segundo sua avaliação “outros fatores explicam melhor os resultados eleitorais”.
As fontes de informação que alimentaram as suspeitas sobre capacidades técnicas avançadas eram “limitadas”, segundo admite o próprio informe, e as vulnerabilidades detectadas nos sistemas de votação permaneciam no plano estritamente teórico, sem evidência de que a tecnologia desenvolvida pela firma Smartmatic — especializada na automatização de processos eleitorais utilizando o voto eletrônico e autenticação biométrica — tivesse sido utilizada para distorcer votação alguma.
A análise descartou categoricamente que Caracas pudesse angariar votos no exterior, afirmando que “nem a Smartmatic nem o Governo venezuelano tinham capacidade para manipular o resultado de eleições fora do território venezuelano”, resenhou o diário The New York Times.
Esta precisão alcança em cheio a teoria central que o entorno do ultradireitista divulga há seis anos, segundo a qual empresas vinculadas à Venezuela teriam alterado os resultados das eleições estadunidenses de 2020 para favorecer o democrata Joe Biden, que venceu o republicano.
A versão de uma fraude orquestrada por Caracas nasceu nos dias posteriores às eleições de 2020, quando os advogados Rudy Giuliani e Sidney Powell acusaram as fabricantes de máquinas Dominion Voting Systems e Smartmatic de ser, secretamente, empresas venezuelanas dedicadas a alterar votos para favorecer o comandante Hugo Chávez.
Até hoje, nem Trump nem seus aliados mostraram evidência alguma de que a Venezuela tenha intervindo em uma votação dos Estados Unidos, e esse vazio probatório ficou registrado por escrito no aparato de inteligência estadunidense. Um informe de 2021, assinado por John Ratcliffe, diretor de inteligência nacional designado pelo próprio Trump, determinou: “não há informação que sugira que os regimes venezuelanos atuais ou anteriores estivessem envolvidos em tentativas de comprometer a infraestrutura eleitoral dos EUA”.
Em 16 de julho, o mandatário voltou à tese da suposta fraude eletrônica, assegurando ter publicado documentos que demonstram que a CIA obteve informação sobre um complô específico para manipular os resultados em benefício do Governo de Nicolás Maduro.
The New York Times qualificou estas afirmações de uma tergiversação das conclusões de sua própria central de inteligência, onde o expediente fala de suspeitas sem confirmação, enquanto o discurso proclama certezas absolutas, sendo que a CIA descarta provas contundentes enquanto a Casa Branca anuncia demonstrações inexistentes.
Uma acusação sustentada durante seis anos, negada pelos papéis que deviam prová-la, fica assim reduzida a propaganda política sem fundamento técnico nem respaldo documental.
O analista de política exterior especializado em América Latina, Geoff Ramsey, afirmou que ainda que nos informes desclassificados da CIA fique evidente a histórica hostilidade e a profunda ingerência das administrações norte-americanas no cenário político venezuelano, não existe nenhuma evidência de que se tenha executado com êxito uma fraude eletrônica em grande escala no país sul-americano, uma narrativa formulada como parte de uma estratégia de pressão política internacional.
A fórmula de acusações chega também a outras capitais, como ficou demonstrado quando Trump qualificou de “adversários” a Rússia, China, Irã e Coreia do Norte, atribuindo-lhes capacidade para comprometer a infraestrutura eleitoral estadunidense.
Segundo consignou a TeleSUR, a resposta do Kremlin repetiu o eixo do caso venezuelano, declarando que o mandatário se baseia em “informação anônima e sem fundamento” das agências de inteligência, e recordando que várias investigações concluíram que a Rússia não teve influência em suas eleições, tratamento que Moscou espera das demais nações. As informações são do El Ciudadano do Chile.
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