Coluna da Angélica: O Conto da Aia em versão brasileira

Coluna da Angélica: O Conto da Aia em versão brasileira

A jornalista especializada em comunicação pública e vice-presidente de gestão e parcerias da Associação Brasileira de Comunicação Pública (ABCPública), Ana Cristina Rosa, publicou um artigo intitulado “O Conto da Aia em versão brasileira”, no qual discorre sobre os riscos de um regime teocrático. Desnecessário ressaltar que teocracia (forma de governo em que a autoridade política é exercida por líderes religiosos e as leis do Estado são baseadas em uma doutrina religiosa) e autoritarismo são similares.  Em outras palavras toda a teocracia é autoritária embora nem todo o autoritarismo seja teocrático.

Na ficção, em meio a um caos que tomou conta do país em consequência de uma série de problemas, um grupo religioso decide “salvar o país”. Para conseguir isso, dão um golpe, matam o presidente, fecham o Congresso e a Suprema Corte e instituem a Lei Marcial.

Em Gilead não existe liberdade, apenas obediência, medo, submissão e vigilância constante. Pessoas LGBT são enforcadas em praça pública acusadas de “traição de gênero” Todas as pessoas são forçadas a se converter a religião do regime. As mulheres são convertidas em meras procriadoras e proibidas de ler, aprender a escrever, trabalhar fora de casa, dirigir ou serem proprietárias de qualquer coisa. Até as roupas delas são escolhidas pelo regime religioso.

O Conto da Aia (The Handmaid’s Tale), mostra como o fanatismo religioso pode destruir a liberdade e tornar as pessoas vítimas da brutalidade estatal sem possibilidade de reação e como a democracia pode colapsar e cair nas mãos de fanáticos religiosos em nome de um projeto religioso qualquer. Em um regime como esse, laços familiares e sociais são rompidos- tudo em nome de uma suposta guerra espiritual e de uma suposta salvação.

A história de Gilead voltou a ocupar as comparações após as ameaças de retrocesso nos direitos civis com a ascensão da extrema direita no mundo. Os chamados conservadores que defendem o slogan Deus, Pátria e Família, buscam um tempo idílico com a dominação masculina em todos os setores e a subjugação total das mulheres aos seus desejos. Com a misoginia ocupando espaços, vemos a volta da condenação do voto feminino e declarações sobre a retirada dele. Nada disso acontece de maneira isolada e os espaços vêm sendo ocupados há anos e aos poucos, quase despercebidos. Por exemplo, a bancada evangélica na Câmara dos Deputados conta com 228 dos 513 deputados federais, quase a metade. O Brasil também tem a Associação Nacional dos Juristas Evangélicos e mais recentemente vimos os abusos cometidos por um ministro do STF, considerado “terrivelmente evangélico”.

Por tudo isso, o artigo de Ana Cristina é fundamental. Para que os olhos se abram antes que sejam obrigados a fecharem de vez.

Leia o artigo

“O voto feminino  tem o poder de decidir as eleições gerais de 2026.  Quase 84 milhões dos eleitores aptos a irem às urnas (53%) são mulheres (TSE). Entre elas, pretas e pardas são maioria, considerando a demografia: 28% das brasileiras são negras (IBGE).

Mas, num país machista,  misógino e racista, tamanho poder em mãos femininas (e negras) incomoda e desagrada a muita gente. A ponto de deflagrar uma campanha disparatada contra o voto feminino e em defesa de uma dita “democracia familiar”.

Olhando em perspectiva, fica evidente que a controvérsia instalada por um segmento bem determinado na sociedade brasileira faz oposição à autonomia feminina  conquistada nas últimas décadas. Não por acaso, a tal da “democracia familiar” está centrada num padrão de família nuclear no qual mulheres se submetem aos homens.

Historicamente, a participação feminina no cenário público (o que inclui os direitos políticos) foi rejeitada por séculos. É como se política não fosse assunto de mulher. Esse entendimento (absurdo e equivocado) se fez presente mundo afora.

Por estas terras, a tradição “mansa e pacífica” de negar às mulheres o direito de votar e ser votada só começou a mudar com o Código Eleitoral de 1932, há menos de 100 anos. E, ainda assim, o sufrágio feminino não era obrigatório, uma discricionariedade que mantinha as mulheres afastadas do processo eleitoral por uma série de razões, entre as quais destaco o jugo masculino.

Pensando na atual investida contra o voto feminino, lembrei do livro “O Conto da Aia”, escrito pela canadense Margaret Atwood, que deu origem a uma série assustadora para quem preza a democracia e valoriza os direitos humanos.

Na ficção, uma das formas de opressão feminina é a supressão de direitos civis e políticos —inclusive com o apoio de certas mulheres. Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência. Democracia requer a participação de todos os segmentos da sociedade, o que, por óbvio, inclui as mulheres”.

Assista ao vídeo

 

Veja também

Pra morrer de rir: Passaporte italiano usado na fuga pode barrar asilo de Flávio nos EUA

Pra morrer de rir: Passaporte italiano usado na fuga pode barrar asilo de Flávio nos EUA

A cidadania italiana do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) cria um obstáculo jurídico para uma eventual …