Dois integrantes da legenda foram impedidos de disputar cargos municipais na Baixa Saxônia, onde o AfD é oficialmente classificado como extremista; decisões ocorrem no momento em que a sigla lidera pesquisas nacionais e regionais
Dois integrantes do partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha( AFD), tiveram suas candidaturas barradas nas eleições municipais de setembro na Baixa Saxônia. Os comitês eleitorais responsáveis pelos pleitos consideraram que havia dúvidas suficientes sobre o compromisso dos candidatos com a ordem democrática estabelecida pela Constituição alemã.
O primeiro veto atingiu o deputado federal Martin Sichert, que pretendia disputar o cargo de prefeito do distrito de Friesland. Na terça-feira (21), o comitê eleitoral local rejeitou sua candidatura por cinco votos a um. No dia seguinte, foi a vez de Reinhild Goes, integrante da direção nacional da organização juvenil do AfD, ter sua candidatura à prefeitura de Nörten-Hardenberg recusada por unanimidade. No caso de Goes, a decisão ainda será revista pelas autoridades do distrito de Northeim até 29 de julho.
As eleições municipais na Baixa Saxônia serão realizadas em 13 de setembro. Outros candidatos do AfD ainda estão sendo investigados antes de receber autorização para participar do pleito. Entre eles estão Stephan Bothe, vice-presidente estadual do partido e candidato ao comando do distrito de Lüneburg, além de nomes que pretendem concorrer às prefeituras de Wilhelmshaven, Bersenbrück, Fürstenau e Artland.
O procedimento não significa que todos os integrantes da legenda serão automaticamente excluídos. Nesta quinta-feira (23), por exemplo, o comitê eleitoral de Hannover autorizou a candidatura da deputada estadual Jessica Schülke à prefeitura da capital da Baixa Saxônia, depois de uma análise individual de suas declarações e atividades políticas.
Publicações e posição dentro do AfD pesaram contra candidato
No caso de Martin Sichert, o Ministério do Interior da Baixa Saxônia apresentou ao comitê eleitoral informações sobre publicações feitas pelo deputado nas redes sociais, sua atuação como dirigente distrital e sua posição de destaque dentro do AfD.
Segundo o parecer, as manifestações indicariam uma visão de mundo “etnopluralista”, conceito utilizado pela chamada Nova Direita para defender a separação de grupos humanos segundo critérios culturais ou étnicos. As autoridades também identificaram declarações contra migrantes, solicitantes de refúgio e estrangeiros, além de uma publicação considerada uma relativização do nazismo.
Em junho de 2025, ao criticar a bandeira do arco-íris instalada na prefeitura de Berlim, Sichert escreveu que “da última vez que a bandeira de uma determinada ideologia foi hasteada nas prefeituras alemãs, milhões de pessoas morreram depois”. Para o Ministério do Interior, a comparação aproximava a bandeira do movimento LGBTQIA+ dos símbolos do regime nazista.
Sichert classificou o veto como uma “vergonha”, afirmou ser absolutamente fiel à Constituição e anunciou que recorrerá à Justiça. Pela legislação local, a contestação formal poderá ocorrer depois da eleição, por meio de recurso ao novo conselho distrital ou de uma ação no Tribunal Administrativo.
A decisão também recebeu críticas de juristas especializados em direito constitucional. Eles argumentam que a retirada do direito de concorrer a uma eleição exige provas especialmente consistentes e não pode se basear apenas na filiação a um partido que continua legalmente autorizado a funcionar.
Nova lei permite consulta ao serviço de inteligência
Os vetos foram possibilitados por uma mudança aprovada em 28 de abril no sistema eleitoral da Baixa Saxônia. A nova legislação permite que os comitês eleitorais solicitem às autoridades responsáveis pela supervisão municipal uma análise mais ampla sobre a fidelidade constitucional dos candidatos a prefeito, administrador distrital e outros cargos de chefia do Executivo local.
Quando existem indícios concretos, as autoridades podem consultar informações produzidas pelo serviço estadual de proteção da Constituição, a agência de inteligência interna responsável pelo monitoramento de organizações extremistas. A recomendação, no entanto, não é vinculante: a decisão final permanece com o respectivo comitê eleitoral.
A exigência de fidelidade constitucional não foi criada especificamente contra o AfD. Prefeitos e administradores distritais são considerados servidores públicos temporários na Alemanha e, mesmo antes da alteração, já precisavam oferecer garantias de que defenderiam permanentemente a ordem democrática. A nova lei ampliou os instrumentos disponíveis para realizar essa verificação antes da votação.
O AfD acusa o governo regional, formado por social-democratas e verdes, de tentar implementar uma espécie de “proibição partidária pela porta dos fundos”. A bancada do Partido Social-Democrata (SPD) argumenta que a regra também pode ser aplicada a candidatos vinculados a organizações extremistas de esquerda ou a qualquer outro grupo considerado contrário à Constituição.
AfD já é oficialmente classificado como extremista no estado
A situação jurídica do AfD não é igual em toda a Alemanha. Em âmbito federal, o Serviço Federal de Proteção da Constituição classificou a legenda, em maio de 2025, como uma organização de extrema direita comprovadamente extremista.
A agência concluiu que o partido promove uma concepção de povo baseada em critérios étnicos e de ascendência, utilizada para desvalorizar cidadãos alemães com histórico migratório, sobretudo muçulmanos. A avaliação apontou uma atuação sistemática contra o princípio constitucional da dignidade humana.
Em fevereiro de 2026, entretanto, o Tribunal Administrativo de Colônia suspendeu provisoriamente essa classificação nacional até que o processo principal seja julgado. Os magistrados reconheceram que existem, dentro do partido, iniciativas dirigidas contra a ordem democrática e um forte indício de posições incompatíveis com a Constituição. Consideraram, porém, que ainda não estava demonstrado, naquela fase do processo, que essas posições definissem de maneira predominante o conjunto da legenda.
A decisão de Colônia não anulou as classificações produzidas separadamente pelos serviços de inteligência dos estados. Na Baixa Saxônia, o diretório do AfD é considerado desde fevereiro uma organização comprovadamente extremista de direita.
O partido tentou suspender a medida, mas teve seu pedido emergencial rejeitado pelo Tribunal Administrativo de Hannover em 1º de junho. Segundo a decisão, existem indícios suficientes de atividades contrárias à Constituição. As autoridades estaduais afirmam que o AfD trata cidadãos com histórico migratório como pessoas de segunda categoria, ataca instituições democráticas e não se distancia de integrantes ou grupos radicalizados de seu entorno.
Referências nazistas e conexões com neonazistas
Fundado em 2013 como um partido contrário ao euro e às políticas de integração econômica da União Europeia, o AfD passou por um processo acelerado de radicalização. A legenda incorporou correntes nacionalistas étnicas, discursos islamofóbicos e conceitos utilizados por organizações da extrema direita europeia.
Entre seus principais dirigentes está Björn Höcke, líder do AfD na Turíngia e uma das figuras mais influentes da ala radical do partido. Em 2024, Höcke foi condenado por utilizar deliberadamente a frase “Tudo pela Alemanha”, slogan da SS, organização paramilitar nazista que teve papel central na ascensão de Adolf Hitler. A utilização de símbolos e lemas de organizações nazistas é crime na Alemanha.
Outro integrante destacado, Maximilian Krah, provocou uma crise até mesmo entre partidos da extrema direita europeia ao afirmar que nem todos os membros da SS poderiam ser considerados criminosos. A declaração levou Krah a deixar a direção do AfD e fez com que a legenda fosse expulsa do então grupo Identidade e Democracia no Parlamento Europeu.
Integrantes do AfD também participaram, em 2023, de uma reunião próxima a Potsdam ao lado de militantes neonazistas. No encontro, foi discutido um projeto de “remigração”, expressão usada pela extrema direita para defender a retirada em massa de imigrantes e até de cidadãos alemães considerados insuficientemente assimilados.
Esses episódios, somados ao conceito étnico de nacionalidade defendido por setores do partido, sustentam a avaliação de que o AfD não é apenas uma legenda conservadora ou crítica à imigração, mas uma organização de extrema direita que abriga correntes de inspiração nazista, simpatizantes do nazismo e conexões documentadas com redes neonazistas.
Partido cresce e lidera pesquisas
O avanço eleitoral da legenda aumenta a dimensão política dos vetos. Na eleição federal de fevereiro de 2025, o AfD recebeu 20,8% dos votos, conquistou 152 cadeiras e se tornou a segunda maior força do Bundestag, o Parlamento alemão.
A escalada começou a ganhar contornos históricos na eleição estadual da Turíngia, em setembro de 2024. Liderado por Höcke, o partido obteve 32,8% dos votos e ficou em primeiro lugar. Foi a primeira vitória de uma força de extrema direita em uma eleição estadual alemã desde o fim da Segunda Guerra Mundial.
Nas duas primeiras eleições estaduais de 2026, o AfD não venceu, mas praticamente dobrou sua votação. Recebeu 18,8% em Baden-Württemberg e 19,5% na Renânia-Palatinado — neste último caso, seu melhor resultado até então em um estado do oeste alemão.
Agora, o partido aparece na liderança das pesquisas para duas eleições decisivas no leste. Na Saxônia-Anhalt, onde o Parlamento estadual será renovado em 6 de setembro, o AfD alcança cerca de 41%, contra 23% da União Democrata Cristã (CDU). Em Mecklenburg-Pomerânia Ocidental, a legenda registra aproximadamente 36%, seguida pelo SPD, com 29%.
O crescimento também ocorre nacionalmente. No levantamento mais recente do Politbarômetro da emissora pública ZDF, o AfD aparece com 27% das intenções de voto para uma eleição federal, quatro pontos à frente da aliança conservadora CDU/CSU, que registra 23%.
Brandmauer ainda impede, em tese, chegada do AfD ao governo
Liderar uma eleição, no entanto, não garante automaticamente o governo na Alemanha. O país adota um sistema parlamentar e, em geral, nenhum partido consegue governar sozinho. Para eleger um primeiro-ministro estadual ou um chanceler federal, é necessário construir uma maioria no Parlamento por meio de uma coalizão ou de algum acordo de sustentação.
É nesse ponto que entra o chamado Brandmauer, palavra que significa literalmente “parede corta-fogo”. No debate político alemão, o termo representa o cordão sanitário mantido pelos demais partidos para impedir coalizões, acordos de governo ou cooperação sistemática com o AfD.
A direção federal da CDU, partido do chanceler Friedrich Merz, continua afirmando que não formará governo com a legenda. SPD, Verdes e A Esquerda também rejeitam alianças com o partido de extrema direita. Assim, mesmo que o AfD fique em primeiro lugar na Saxônia-Anhalt ou em Mecklenburg-Pomerânia Ocidental, precisará de maioria absoluta ou de um parceiro disposto a romper o isolamento para assumir o governo.
A barreira, entretanto, enfrenta pressão crescente. Nesta semana, o primeiro-ministro da Saxônia, Michael Kretschmer, da CDU, afirmou que “quem ainda fala em paredes corta-fogo não entendeu os sinais dos tempos” e defendeu conversas com todos os partidos dispostos a dialogar. A declaração foi criticada dentro da própria CDU, e a direção nacional voltou a reafirmar que não haverá abertura para o AfD.
Os vetos na Baixa Saxônia acrescentam uma nova frente a esse confronto. Enquanto o debate nacional discute se uma legenda com correntes extremistas pode ser proibida, autoridades locais começam a decidir se integrantes individualmente associados a essas posições podem ocupar cargos públicos que exigem fidelidade explícita à Constituição. As informações são da Fórum
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