O que explica a “bukelização” da América Latina

O que explica a “bukelização” da América Latina

Há poucos anos, a chamada “onda rosa” indicava uma hegemonia política de governos de esquerda na América Latina, impulsionados pela insatisfação com desigualdades agravadas pela pandemia de covid-19. Nesse período, países como Brasil, Chile, Colômbia e Peru elegeram lideranças progressistas. Em meados da década, esse cenário passou a mudar.

Uma nova onda de direita passou a ganhar espaço no continente. De Buenos Aires a Bogotá, passando por Santiago, Quito e Lima, candidatos de direita e de perfil populista têm avançado com discursos centrados em soluções rápidas para problemas históricos como violência, crime organizado, imigração irregular e baixo crescimento econômico.

A eleição do colombiano Abelardo de la Espriella neste domingo (21) é apontada como parte mais recente desse movimento. O resultado se soma a vitórias recentes de lideranças conservadoras em países como Argentina, Chile, Equador e Peru, em meio ao descontentamento com a economia e a percepção de aumento da insegurança.

A segurança pública se tornou o principal fator dessa mudança política. Apesar da queda média da taxa de homicídios na região em relação à década anterior, a expansão do crime organizado e o avanço de delitos como extorsão, sequestro e tráfico de drogas colocaram o tema no centro do debate eleitoral.

O avanço do crime também alterou sua estrutura de atuação. Grupos criminosos passaram a controlar atividades além do tráfico de drogas, incluindo mineração ilegal, redes de extorsão e rotas migratórias, ampliando sua presença em áreas urbanas e periféricas de diferentes países.

Nesse cenário, o modelo adotado em El Salvador por Nayib Bukele passou a ser referência para setores da direita latino-americana. A estratégia de combate às gangues, baseada em prisões em massa e militarização da segurança, reduziu índices de violência e elevou a popularidade do presidente, apesar de críticas de organizações de direitos humanos.

O que explica a “bukelização” da América Latina
Abelardo de la Espriella, José Antonio Kast e Rodrigo Paz. Fotos: Reuters e AFP

“Há uma nova direita emergente que colabora intensamente em toda a região e com os Estados Unidos por meio do movimento Maga, que também usa o combate ao crime como bandeira para mobilização política”, afirmou Enrique Roig, vice-presidente da organização Human Rights First e ex-funcionário do Departamento de Estado dos EUA, à Deutsche Welle.

“É mais fácil vender a ideia de prender pessoas do que lidar com as razões pelas quais principalmente jovens ingressam em gangues em países como El Salvador”, prosseguiu.

Para Adam Isacson, da organização Washington Office on Latin America (Wola), as respostas imediatas da direita ao problema da segurança têm maior impacto eleitoral. “É exatamente o que deveria ser feito, mas a paciência das pessoas acaba. Então surgem os Bukeles do mundo dizendo: ‘Quer se sentir melhor? Deixe conosco’”, explicou.

Dados da organização InSight Crime indicam que a taxa média de homicídios na América Latina e no Caribe caiu mais de 5% no último ano, para cerca de 17,6 por 100 mil habitantes. Ainda assim, países como Peru, Colômbia e Equador registraram aumento de mortes ligadas ao narcotráfico e avanço de facções criminosas.

O cenário abre espaço para novas lideranças políticas com discurso de endurecimento. Para Eduardo Moncada, diretor do Instituto de Estudos Latino-Americanos da Universidade Columbia, “o raciocínio costuma ser: ‘a democracia não conseguiu manter minha família e eu seguros, então talvez a própria democracia seja parte do problema’”.

Nesse contexto, governos e partidos de esquerda enfrentam o desafio de responder ao avanço da criminalidade e à pressão por soluções mais imediatas na região. Com informações do DCM

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