Xamanismo com um toque tecnológico
Embora os praticantes rejeitem o rótulo de “religião”, suas atividades constituem um protocolo que possibilita experiências extraordinárias com entidades superiores que habitam os céus. O fato de seus esforços para se conectar com extraterrestres se basearem na telepatia e em estados alterados de consciência sugere uma forma ritualisticamente associada ao xamanismo, mas com mediação de tecnologia avançada.
Chamar o CE-5 de “religião” também pode reduzir as convicções sobre a presença extraterrestre em questões de realidade a assuntos de crença ou conspiração, refletindo a rejeição cultural de longa data aos óvnis e aos homenzinhos verdes dos filmes antigos de ficção.
Sejam religiosos ou não, os praticantes do CE-5 se baseiam em 80 anos de tradição sobre óvnis para promover uma cosmologia na qual a consciência é uma propriedade fundamental do Universo que possibilita a comunicação telepática com inteligências superiores não humanas que visitariam a Terra.
O protocolo do CE-5 também se assemelha a uma sessão espírita ritualística. Ele combina meditação transcendental, visualização cósmica, comunicação telepática e uma experiência de comunicação interna por meio da qual as sensações corporais se tornam sinais diretos de contato extraterrestre.
Isso apresenta paralelos interessantes com a pesquisa da antropóloga Tanya Luhrmann sobre o cristianismo evangélico nos Estados Unidos e como os fiéis sentem que estão em comunicação direta com Deus por meio de sensações corporais e interpretações religiosas de sua voz interior.
Os praticantes do CE-5 consideram os extraterrestres seres benevolentes e altamente inteligentes, fisicamente presentes no espaço e ao redor da Terra.
Seriam eles, como perguntou a estudiosa de estudos religiosos Diana Pasulka em seu livro de 2019 American Cosmic: UFOs, Religion, Technology (ainda não publicado no Brasil), os anjos da era espacial secular? Em vez de um contato genuíno, será que eles representam, na verdade, um desejo inconsciente de reencantar o Cosmos desspiritualizado?
Uma narrativa de salvação
Muitos adeptos do CE-5 acreditam que o governo dos EUA, em parceria com empresas do setor de defesa, está em posse de naves extraterrestres recuperadas e que cientistas realizaram secretamente a engenharia reversa de tecnologias alienígenas.
Essas alegações têm sido incentivadas por figuras com visões semelhantes, como os ex-oficiais militares e de inteligência Coronel Philip J. Corso, Luis Elizondo e David Grusch (que testemunharam sob juramento perante o Congresso dos EUA que existe uma corrida secreta de armamentos para recuperar e explorar tecnologia não humana que caiu ou pousou na Terra). O governo dos EUA negou essas alegações.
Dentro das comunidades CE-5, o evento de “divulgação”, no qual o governo admite possuir tecnologia alienígena, também funciona como uma narrativa de salvação. Isso porque a confirmação oficial promete a libertação tecnológica dos combustíveis fósseis, levando ao surgimento de uma civilização de energia livre.
Assim como nos movimentos milenaristas, o mundo pós-divulgação tão aguardado está sempre iminente, mas perpetuamente adiado.
E se os contatos imediatos fossem reais?
O CE-5 apresenta muitas características de um novo movimento religioso que surge da interseção entre ciência, tecnologia e ansiedades modernas. Ele pode, de fato, reencantar um Universo dessacralizado, visto por meio de paradigmas científicos seculares.
Os UAPs, no entanto, representam um desafio incomum. O governo dos EUA reconheceu que os UAPs são reais, mesmo afirmando que não há evidências confirmadas de origem extraterrestre. Assim, é possível que o CE-5 não se baseie exclusivamente na fé e na imaginação, mas nas interpretações dos participantes sobre encontros com uma inteligência avançada não humana.
Independentemente de as experiências anômalas relatadas durante os CE-5 envolverem contato genuíno com inteligência não humana, a prática certamente surgiu como um ritual de transição cosmológica.
Isso incentiva os participantes a vivenciar o Universo não como um espaço vazio e inerte, mas como uma comunidade cósmica na qual nós, antigos segundo nossos próprios critérios, acabamos de despertar para o nosso lugar na vizinhança galáctica. Com informações do The Conversation