O consultor político argentino Fernando Cerimedo, conhecido no Brasil por divulgar alegações falsas sobre as urnas eletrônicas após as eleições de 2022, foi detido nesta terça-feira (18) em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia. Aliado dos irmãos Flávio e Eduardo Bolsonaro, ele foi abordado no aeroporto de Viru Viru quando se preparava para embarcar em um voo da Aerolíneas Argentinas para Buenos Aires.
As autoridades bolivianas investigam uma possível relação de Cerimedo com a tentativa de assassinato da advogada e ativista Nadia Beller, sua ex-esposa. Ela foi atacada a tiros na noite de segunda-feira (17), na porta de um hotel, poucas horas antes da detenção do argentino.
Beller foi atingida por três tiros no peito e levada a um centro médico. Os projéteis foram retirados e ela está fora de perigo. Câmeras de segurança mostram dois suspeitos usando mochilas de aplicativos de entrega. Enquanto um deles atirava, o outro pegou a carteira e o celular da vítima. A dupla fugiu de moto, e um dos motociclistas foi preso.
Cerimedo atua como assessor do presidente boliviano Rodrigo Paz. Ele também integrou equipes digitais ligadas ao presidente argentino Javier Milei e ao presidente hondurenho Nasry Asfura, além de ter trabalhado com o estrategista estadunidense Brad Parscale, que participou da campanha de Donald Trump em 2016.
No Brasil, Cerimedo ganhou projeção entre apoiadores de Jair Bolsonaro ao publicar vídeos contra a confiabilidade do sistema eleitoral depois do segundo turno de 2022. O relatório da Polícia Federal sobre a tentativa de golpe cita o nome do argentino 65 vezes.
Nas últimas semanas, ele participou de uma live com Eduardo Bolsonaro em que voltou a atacar o sistema eleitoral brasileiro. Durante cerca de uma hora, os dois levantaram suspeitas já descartadas sobre a confiabilidade das urnas eletrônicas e falaram sobre as acusações de fraude propaladas pelo presidente Donald Trump, que nunca aceitou a derrota para Joe Biden em 2020.
Eduardo leu uma apresentação de slides e afirmou: “O fim da teoria da conspiração. Questionar a integridade de urnas eletrônicas controladas por fornecedores privados deixou de ser negacionismo para se tornar uma grave vulnerabilidade de segurança nacional documentada pela CIA”.
O filho de Jair Bolsonaro disse que o relatório final da comissão do Exército que analisou as urnas não as isentou de vulnerabilidade. “É impossível auditar as urnas eletrônicas brasileiras. É necessário mais recursos para que possa haver investigação e auditoria propriamente dita. […] É por isso que gerou revolta e, em última análise, gerou o 8 de janeiro de 2023 no Brasil”, afirmou.
Mensagens analisadas pela PF mostram que, quatro dias depois de uma live de Cerimedo sobre as urnas ainda em 2022, o tenente-coronel Sérgio Ricardo Cavaliere comentou com Mauro Cid sobre um material de hackers que apontaria supostos problemas nas máquinas. Cid respondeu: “Nosso pessoal que fez… Haaahahahaahha. Isso foi a base do argelino”.
As alegações do consultor também foram usadas na representação apresentada pelo PL à Justiça Eleitoral em novembro de 2022 para contestar o resultado da eleição presidencial. Em julho, durante uma transmissão com Eduardo Bolsonaro, Cerimedo voltou a levantar suspeitas sobre o sistema e afirmou: “A fraude estava nas máquinas”.
O argentino foi o único estrangeiro indiciado pela Polícia Federal no inquérito que apurou a tentativa de golpe de Estado no Brasil, sendo considerado peça-chave na difusão de desinformação sobre as urnas eletrônicas nas eleições de 2022. Marqueteiro e influenciador digital, ele atuou como consultor da campanha de Jair Bolsonaro e tornou-se uma das vozes mais ativas na criação de uma narrativa de fraude que alimentou os atos antidemocráticos.
No fim daquele ano, por exemplo, participou de uma live com o influencer Bruno Aiub, o Monark, para mentir sobre as eleições, o que culminou na suspensão das redes sociais do ex-apresentador do Flow Podcast.
O argentino também teve ligação com a campanha de Eduardo Bolsonaro. Um funcionário de Cerimedo, Giovanni Larosa, recebeu R$ 3.900 para atuar na campanha de reeleição do então deputado e o acompanhou em uma viagem a Buenos Aires em outubro de 2022.
Poucas semanas depois, Cerimedo fez uma live no canal do La Derecha Diario em que divulgou informações falsas sobre as eleições brasileiras. A transmissão teve mais de 400 mil espectadores e foi desmentida pelo TSE e por agências de checagem.
Em entrevista ao consórcio “Mercenários Digitais”, Cerimedo negou ter sido contratado pela campanha de Bolsonaro para fazer a transmissão e afirmou: “Sou um herói para metade do país. Eles me chamam de argentino mais querido do Brasil”.
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