Ao anunciar novas designações terroristas, restrições de visto e uma rede internacional para mapear movimentos de esquerda, o secretário de Estado dos EUA recupera métodos de perseguição política que sustentaram torturas, execuções e desaparecimentos na América Latina
Ao inaugurar a Reunião Ministerial sobre o Ressurgimento do Terrorismo Político, o secretário de Estado estadunidense Marco Rubio, retroagiu o presente à era do comunismo grosseiro, do macartismo e da guerra fria, com uma enxurrada de falsidades, baseada em fatos descontextualizados e cifras não verificadas.
Sua finalidade era transformar o que chamou de esquerda radical (marxistas, comunistas, socialistas, anarquistas, anticapitalistas, anti-imperialistas, antifascistas, democratas centristas, categorias todas úteis à agenda da ultradireita trumpista) em um “inimigo” essencialmente violento e alheio à “civilização ocidental”.
A omissão do terrorismo de direita não foi um detalhe, e sim o coração do dispositivo. Para o cubano-estadunidense, chegou “o momento de esmagar este mal para sempre”.
Esta armadilha semântica, encarnada no que denominou “terrorismo político de extrema esquerda transnacional”, reivindica outra matriz fascista que transforma um campo político heterogêneo em um “mal” existencial a exterminar, em que a violência cumpre uma função purificadora ou redentora contra aqueles que são considerados “obstáculos”.
O que remete a Adolf Hitler, quando disse: “Diante de Deus e do mundo, o mais forte tem o direito de fazer prevalecer sua vontade”.
Rubio anunciou que os Estados Unidos designarão mais grupos de esquerda como organizações terroristas. Também, no dia 23 de julho, o Departamento de Estado anunciou novas restrições de visto dirigidas a quem denomina “membros de grupos terroristas de extrema esquerda e outros grupos afins”.
O encontro foi acompanhado pela publicação de um documento do Departamento de Estado sobre o mesmo tema, onde se fala de um terrorismo de esquerda transnacional que “ataca cidadãos privados, funcionários governamentais, policiais e agentes de segurança, empresas e infraestrutura crítica em todo o mundo”.
Com dados extremamente imprecisos e misturando situações de muito diverso teor ocorridas na Europa e nos Estados Unidos, apresentou uma linha de continuidade entre os movimentos armados dos anos ’60 e ’70 (fundamentalmente latino-americanos) e estes fatos difusos, dando por certo que algo assim como o “terrorismo de esquerda” efetivamente existe.
Rubio disse que “devemos identificar e mapear esta ameaça, assim como reconstruir nossa arquitetura antiterrorista para derrotá-la, tal como fizemos juntos anteriormente”. Na América Latina, estas palavras supõem uma reivindicação aberta das ditaduras militares do século XX e de mecanismos de coordenação repressiva como o Plano Condor.
Com o mesmo argumento, esta “arquitetura antiterrorista” desencadeou processos de terrorismo de Estado e genocídios em toda a América Latina. A ameaça de Rubio é bastante explícita: Washington parece estar disposto a repetir essa violência estatal extrema e as gravíssimas violações de direitos humanos que tiveram como consequência milhares de mortos e desaparecidos.
Está claro que o primeiro foco desta perseguição política são as manifestações e a organização social, especialmente as que se associam a diversas formas de ação direta. Tanto nos Estados Unidos como na Europa há uma tendência nos últimos anos a classificar como terroristas ou extremistas violentos manifestantes ou ativistas que implementam táticas de ação direta que, em alguns casos, provocam algum dano à propriedade. Estes fatos são enquadrados, perseguidos e julgados como casos de “segurança nacional”, afirma o argentino Centro de Estudos Legais e Sociais (CELS).
O deslocamentoo para a extrema direita e a consequente instrumentalização política da definição de “terrorismo” é uma característica do atual governo dos EUA e de vários de seus aliados na região. Em maio deste ano, foi publicada a nova estratégia antiterrorista estadunidense, em que se distinguem três grandes grupos de terroristas: os “narcoterroristas e gangues transnacionais”, os “terroristas islamistas históricos” e os “extremistas violentos de esquerda, inclusive anarquistas e antifascistas”.
Não é incluído o terrorismo de extrema direita como objeto de preocupação, mesmo quando os eventos de violência mais graves que ocorreram nos Estados Unidos, salvo os atentados
de 11 de setembro de 2001, foram protagonizados por supremacistas brancos ou outras variantes de extrema direita.
Mas, dado o conteúdo do discurso de Rubio, com suas arengas antimarxistas e contra a esquerda em geral, tudo indica que a perseguição poderia se estender aos grupos opositores e não só aos grupos de ação direta. De fato, funcionários do governo de Trump se referiram muitas vezes ao próprio Partido Democrata (insuspeito de marxismo) como uma “organização extremista”.
Semântica do terror
“A semântica do terror, expressa por Noan Chomsky em 1979 e esboçada por Rubio remete, em sua projeção exterior, a sangrentos episódios do passado como o Plano Condor − a aliança clandestina das ditaduras do Cone Sul com a assessoria e cumplicidade dos Estados Unidos para o extermínio da dissidência política mediante a prática de tortura, execuções sumárias extrajudiciais e desaparecimento forçado − , a guerra do Vietnam e o uso dos camponeses da Indochina como coelhos da Índia para uma tecnologia militar então em desenvolvimento”, afirma o analista Carlos Fazio.
A presidenta mexicana Claudia Sheinbaum rejeitou enfaticamente as declarações “infelizes e sem sustentação” do diretor da Administração para o Controle de Drogas (DEA, na sigla em inglês), Terry Cole, que na semana iniciada em 19 de julho assegurou que os cartéis do narcotráfico e o governo mexicano “são a mesma coisa”.
A mandatária enfatizou que as palavras de Cole têm motivações políticas e não correspondem à realidade, pois a histórica redução da violência, as apreensões de estupefacientes e os golpes nas estruturas criminosas desmentem por si mesmos a noção de uma identidade entre autoridades e criminalidade.
Sheibaum lembrou alguns dos escândalos de conivência com o narco que salpicaram a DEA e instou a agência a concentrar sua atenção nos Estados Unidos, onde tem lugar a maior operação de venda de drogas do planeta. “Quem a vende? Como a vendem? Como a distribuem? Como lavam o dinheiro? Isso é algo que a DEA deveria estar investigando”, afirmou a titular do Executivo mexicano.
Hoje, o mundo olha pasmo o genocídio e a limpeza étnica dos israelenses em Gaza, o bloqueio criminoso estadunidense e o castigo coletivo contra Cuba assim como o assassinato de meninas e os ataques contra a população civil e a infraestrutura crítica do Irã, apesar do que não conseguem ganhar a guerra desses “homens do turbante”.
O presidente Donald Trump denunciou na semana passada que o grande historiador Howard Zinn – junto com outros progressistas – é culpado por desorientar e enganar gerações de estudantes ao doutriná-los com noções esquerdistas e antipatrióticas e apelou à defesa do legado da fundação dos Estados Unidos e a ensinar a nossos filhos a verdade sobre o país. “Nossa missão é defender o legado da fundação dos Estados Unidos… temos que acabar com a teia de aranha de mentiras em nossas escolas e classes, e ensinar a nossos filhos a verdade magnífica sobre nosso país… e que são os cidadãos da nação mais excepcional na história do mundo”, declarou Trump.
Estão equiparando grupos políticos dos Estados Unidos e do estrangeiro a grupos como a Al Qaeda e o ISIS”, afirma o jornalista independente Ken Klippenstein, que acompanhou de perto a designação do ativismo de esquerda como terrorismo por parte da administração Trump.
“Esta tentativa de designar grupos de esquerda como terroristas estrangeiros, utilizando termos tão genéricos como ‘antifa’, lhes permitirá perseguir pessoas que não cometem atos de violência, simplesmente participam do processo político”, acrescenta o ex-agente especial do FBI Mike German.
O chanceler uruguaio Mario Lubetkin, consultado sobre as recentes declarações de Rubio, que afirmou que “o terrorismo de extrema esquerda representa hoje uma ameaça única e distintiva” e mencionou, entre outros grupos, o Movimento de Libertação Nacional – Tupamaros, afirmou que “nem é necessário dizer que não admitimos que se trate nenhuma força deste governo dessa maneira. É senso comum. Acho que, ouvindo as palavras do secretário de Estado e outros sobre o tema do combate ao crime organizado, estamos nas antípodas, claramente”, afirmou o chanceler uruguaio. As informações são da Estratégia. la
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