De estupros a tortura, crimes de Lázaro acumulam excesso de crueldade; veja ficha criminal

Era feriado de Páscoa em 2016. A Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal concedeu o benefício do saidão a 1.450 presos, cerca de 10% da população carcerária. O detento Lázaro Barbosa de Sousa, condenado por estupro, havia se envolvido em um caso de desacato na Penitenciária II do DF cinco anos antes, em setembro de 2011. Porém, ganhou as ruas na Semana Santa, como prevê a lei em casos de presidiários com bom comportamento nos seis meses anteriores.

Lázaro, com 27 anos à época, não voltou. Criminoso cruel, que mata, tortura e estupra sem dó nem piedade, ele reincidiu. A ficha do acusado cresceu, com suspeitas de assalto, sequestro, violência sexual. Isso há dois anos. Mas, nas últimas semanas, teve início uma nova sequência de violência. Primeiro, Lázaro entrou em uma propriedade no Incra 9, núcleo rural de Ceilândia Norte, roubou e manteve uma família em cativeiro.

Dias depois, voltou às redondezas. Arrombou a porta de uma fazenda, entrou e matou uma família inteira em 10 minutos de barbárie. O pai e os filhos — de 21 e 15 anos — foram esfaqueados. O mais velho ainda levou um tiro. A mãe também teve um triste fim e foi levada de casa para a morte.

Cleonice Marques de Andrade, 43, foi encontrada nua, de bruços, à beira de um córrego, três dias depois de ser arrancada do próprio lar. A equipe do Instituto de Criminalística (IC) da Polícia Civil do DF prepara o laudo que vai atestar a suspeita de que ela tenha sofrido estupro. Depois da possível violência sexual, ela levou um tiro na cabeça, que decepou a orelha da vítima. Durante os trabalhos, peritos cortaram o cabelo dela para fazer exames e a vestiram com uma fralda, para preservar fluídos como esperma ou sangue.

Armadilhas

Estupro é um traço da violência cometida por Lázaro. O processo que levou à condenação do criminoso, em 2011, está sob segredo judicial no Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT), por envolver agressão sexual. Lázaro assaltou um pesque-pague em Ceilândia e escolheu uma moça como mais uma das vítimas.

Com tantos crimes, o bandido se passava por uma pessoa comum, a ponto de ter assumido o trabalho de vaqueiro na fazenda dos sogros do delegado-geral da Polícia Civil do DF, Robson Cândido. O imóvel fica em Girassol, região de Goiás onde, agora, Lázaro se esquiva da captura como um fantasma. A mãe e o padrasto dele trabalhavam como empregados da chácara até quinta-feira, quando os crimes do filho vieram à tona.

O próprio delegado, que atua há mais de 20 anos na profissão, nunca se deu conta de que estava diante de um assassino. “Era um peão de fazenda, que conhece como poucos as matas da região. Ninguém imaginava que ele fosse capaz desses crimes. A mãe dele ficou muito assustada”, conta Robson Cândido.

Amigos dizem desconhecer o perfil de Lázaro que se tornou público. Morador de Girassol — um dos distritos de Cocalzinho (GO) —, Jhonny Mares Ribeiro, 22, contou ao Correio que conhecia o acusado desde 2018. “Ele foi caseiro na fazenda do meu patrão. Sempre andava de ‘social’, bem-vestido. Era uma pessoa assim… Como se eu estivesse falando com você. E sempre falando de Deus”, detalhou. “Fiquei muito surpreso (com os crimes), porque ele nunca pareceu ser alguém violento. Era, inclusive, muito bem falado pelo meu patrão, porque cuidava bem da fazenda.”

Jhonny relatou que jogava bola com Lázaro e que o ex-vaqueiro gostava de fazer musculação em uma barra na praça de Girassol. Segundo ele, Lázaro tinha na caça outro hobby. Adorava montar armadilhas para tatus e pacas, assim como ficar de tocaia durante a noite. “Acho que isso o ajuda a se esconder (durante a fuga), porque é uma experiência que ele tem desde pequeno”, comentou. “Ele era uma pessoa normal de tudo, de boa. Fiquei até muito surpreso.”

Habitat

Também em Girassol, um jovem que não quis ser identificado disse conhecer Lázaro há sete anos. Ele descreveu o fugitivo como uma pessoa “normal, tranquila e trabalhadora”. Disse que o acusado aprendeu a andar em meio à natureza e que, depois de cometer um assassinato na Bahia, passou seis meses escondido em um matagal. Contou ainda que Lázaro morou em Girassol entre 2014 e 2016. “Ele criou birra com o pai, porque o pai largou a mãe enquanto ele (Lázaro) era novo. Daí, tomou raiva”, relatou. Ainda segundo o entrevistado, o criminoso costumava caminhar pelo mato desde os 12 anos. “Ele levava uma hora para percorrer entre Edilândia (GO) e Águas Lindas de Goiás por dentro da mata.”

Hoje, aos 32 anos, a pessoa mais procurada do país tem driblado os policiais, do Distrito Federal e de Goiás, que o perseguem. Lázaro se esconde, invade casas em chácaras para comer e parece se divertir com a audiência da própria caçada. Segundo integrantes das equipes, ele age como se não tivesse nada a perder e não dá sinais de que pretende se entregar.

A história virou um case policial. Nas chácaras, procura armas, sabendo que, em geral, chacareiros mantêm espingardas e pistolas como proteção. Busca, também, comida e dinheiro. Nas matas, esconde-se em buracos, cavernas e dorme em cima de árvores. Está no habitat dele, enquanto as forças de segurança o procuram como quem caça um animal selvagem. Para esconder o rastro de cães farejadores, ele caminha pelos rios. Além disso, usa roupas neutras.

A busca ainda ganhou um ar de filme de terror. Como mantém rituais por onde passa, Lázaro desperta arrepios em quem trabalha nas capturas. Em um dos momentos em que quase foi pego, uma neblina surgiu de repente e dificultou a visibilidade. “Deus está acima de tudo, mas esse cara parece ter um pacto com o diabo”, desabafou um policial.

O delegado Rafael Seixas, chefe da 24ª Delegacia de Polícia (Setor O) — unidade que apura os crimes no Incra 9 —, conta que a investigação apontou a relação de Lázaro com ações que envolvem sacrifícios e trabalhos espirituais. “Mas não podemos creditar os crimes a esse lado dos rituais”, afirmou. Outro policial contou que o fugitivo teria sido batizado por um pai de santo e estaria envolvido com práticas “satânicas”. Segundo ele, a família assassinada no Incra 9 teria sido uma “oferenda”. O mesmo ocorreria com os três reféns levados para um córrego na terça-feira e resgatados pela polícia.

No entanto, também há entre os investigadores a tese de que Lázaro matou porque houve reação das vítimas do Incra 9. A esperança de desvendar o real perfil do acusado está na captura do criminoso vivo. Considerado por especialistas como um sociopata — pessoas impulsivas, sem empatia e que não levam em conta o resultado dos próprios atos — ele tem a característica do criminoso que conta tudo. Poderá dar um depoimento para esclarecer essa mente criminosa. Se for capturado. E com vida.

Ficha criminal

2007
Duplo homicídio em Barra do Mendes (BA): Lázaro confessa os crimes e é preso, mas escapa 10 dias depois. As vítimas são os trabalhadores rurais José Carlos Benício de Oliveira e Manoel Desidério Silva

2009
Roubo seguido de estupro: o acusado invade uma chácara no Sol Nascente, prende os moradores no banheiro e sequestra uma jovem de 19 anos. Lázaro leva a vítima para o Córrego das Corujas e a estupra. Preso dias depois em Pirenópolis (GO), é deixado na Papuda

2016
Ainda no complexo penitenciário, mas em regime semiaberto, Lázaro não retorna do Saidão de Páscoa e é considerado foragido

2018
Com um mandado de prisão em aberto pelo duplo assassinato na Bahia, é detido na Unidade Prisional de Águas Lindas (GO), mas foge em junho. As varas Criminal de Barra do Mendes e de Execuções Penais do Distrito Federal emitem novos pedidos de apreensão do acusado: um por homicídio qualificado, outro por estupro e roubo, respectivamente

26 de abril de 2021: estupra uma mulher de 39 anos no Sol Nascente; a confirmação da
autoria saiu no último dia 9

17 de maio de 2021: invade uma chácara no Incra 9. Ele amarra as vítimas, ordena que fiquem nuas e cozinhem para ele, ameaçando-as com um revólver e uma faca

9 de junho de 2021: é suspeito de matar três pessoas da família Vidal Marques, que morava próximo ao endereço invadido dias antes. A quarta integrante é encontrada morta com um tiro três dias depois

Vilarejo na Bahia

Lázaro Barbosa de Sousa nasceu no município de Barra do Mendes, cidade no centro norte da Bahia com cerca de 13,8 mil habitantes. Um dos últimos endereços vinculados a ele, segundo dados do Tribunal de Justiça do estado (TJBA), fica em uma rua de paralelepípedos, ladeada por casas de muros baixos predominantemente em tons pastéis. A via é cortada por um canteiro extenso, com árvores de grande porte, plantas ornamentais e cercas-vivas, como pingos-d’ouro, além de bancos. O cenário é típico de regiões do interior. Lázaro deixou a área há, ao menos, 20 anos.

Na rua de baixo, mais árvores que dividem a via, mas em um canteiro de tamanho menor. A parte não residencial é formada por bares, conveniências e uma biblioteca. Com fachada colonial, as casas ladeiam construções mais modernas e em estilo americano, com telhado e laje. O povoamento da região data do início do século 19, na Fazenda Barra, de propriedade da família Mendes. Apesar da aparência pacata, o reconhecimento de Barra do Mendes como cidade é marcado por disputas políticas e confrontos físicos entre lideranças locais. Por isso, a classificação como município só ocorreu em 1958.

Apesar de não ver o filho há mais de seis anos, Edenaldo Barbosa Magalhães, 57, tem vivido de perto à sombra dos atos criminosos de Lázaro. Tanto que, ontem, o aposentado deixou a casa onde morava, em um condomínio residencial na entrada do povoado de Girassóis (GO). Vizinhos informaram ao Correio que uma das filhas o buscou, para evitar o assédio de conhecidos, até que o irmão seja encontrado.

Colaboraram Ana Isabel Mansur, Jéssica Moura e Samara Schwingel

Via: ContilNet

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