Ava Guarani: área cercada e boicote do comércio escasseiam acesso à comida em TI retomada

Ava Guarani: área cercada e boicote do comércio escasseiam acesso à comida em TI retomada

Terra Indígena sob ataque tem processo de demarcação atrasado há 16 anos

O processo de demarcação da TI Guasu Guavirá, anulado na época do governo de Jair Bolsonaro (PL), não retomado por Luiz Inácio (PT).

O governo de Lula publicou, entre 2023 e 2024, três portarias sobre a TI Guasu Guavirá. As três medidas colocaram a Força Nacional nos arredores da região sem reverter o processo de anulação da demarcação.

A área está sob ataque de pistoleiros a mando de latifundiários e sob a omissão das autoridades locais desde setembro de 2024.

Os pistoleiros que atacaram a Terra Indígena no final do ano a serviço de latifundiários deixaram quatro indígenas feridos, dentre eles uma criança de 7 anos, um adolescente de 14 e outros dois jovens de 25 e 28 anos. Vídeos mostram um dos jovens atingido por um projétil no queixo com o peito coberto de sangue.

Além disso, plantações e a vegetação circundante da TI foram incendiadas pelas hordas de bandidos.

Uma semana após um ataque de pistoleiros que alvejou duas crianças e dois jovens Ava Guarani no Oeste do Paraná, a tensão pelo conflito armado se soma à escassez de comida na comunidade Yvy Okaju. Nesta quinta-feira (9), um ato pelo fim da violência em Guaíra (PR) e com arrecadação de alimentos aconteceu em frente à Assembleia Legislativa de Curitiba (PR).

A mobilização foi organizada pela Comissão Guarani Yvyrupa (CGY), a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e a Articulação dos Povos Indígenas da Região Sul (ArpinSul). Em Curitiba, é possível fazer doações aos Ava Guarani na sede da Associação dos Professores do Paraná (APP Sindicato) e na Casa de Passagem e Cultura Indígena.

Menos de dois meses depois que, em 5 de julho, os Ava Guarani retomaram a área de Yvy Okaju, que integra a Terra Indígena (TI) Guasu Guavirá e está com o processo demarcatório parado desde 2018, um acampamento de não indígenas se estabeleceu no local. O objetivo é constranger a presença indígena no território, que está sobreposto por 165 fazendas.

Desde então, os Ava Guarani sofreram uma série de ataques armados que tiveram como saldo 13 indígenas baleados, muitos dos quais com a cápsula ainda alojada no corpo. Os dois jovens alvejados no último dia 3 – um na mandíbula e outro na coluna – seguem internados  no Hospital Bom Jesus, em Toledo (PR). A repercussão do último episódio fez com que o efetivo da Força Nacional fosse aumentado na região.

Agora, rodeados por fazendas, esporádicas rondas policiais, próximos ao acampamento de não indígenas e perto da cidade de Guaíra, onde um sentimento anti-índigena faz com que os comércios boicotem a venda de produtos à comunidade, os Ava Guarani não conseguem circular em segurança.

Ao Brasil de Fato, lideranças apontam que com o trabalho fora da aldeia e a compra de mercadorias estão prejudicados. Algumas das 130 famílias que vivem em Yvy Okaju já enfrentam a fome. “A demanda está muito alta em relação à alimentação. Tenho alguns familiares que já não têm mais nada de comida”, ressalta Nina*, moradora da retomada.

Em uma carta endereçada ao Ministério dos Povos Indígenas (MPI), na qual demanda “ações concretas e definitivas” pela demarcação da TI e a investigação dos autores dos ataques, os moradores de Yvy Okaju tratam da dificuldade alimentar e material (leia na íntegra aqui).

“A comunidade decidiu não trabalhar fora da aldeia para tentar proteger uns aos outros de dia e de noite, e isso está gerando outra emergência em questão de alimentação e nesse mesmo sentido exigimos da Funai, senhora Joênia Wapichana, que urgentemente forneça 30 kits de moradias para que essas famílias que tiveram suas casas queimadas possam recomeçar e para outras tantos de pessoas vítimas de ataques”, diz a carta.

Imagem- A Nova Democracia

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