Lula não teria vencido em 2022 e o PT não existiria hoje se tivessem desistido de lutar em 2018, como fez ontem a seleção inglesa
Minha memória viajou quando o comentarista da Cazé TV vergastou a humilhante derrota da seleção inglesa, que tomou a virada da Argentina justamente porque teve medo de perder e recuou, desistiu de jogar futebol, depois de ter feito 1 x 0. “O futebol não perdoa a covardia”, disse o comentarista. A política também não, respondi para a tela da TV, enquanto o pensamento voava para as eleições de 2018. Pois no futebol e na política há derrotas e derrotas. As que arrasam e as que fortalecem.
Num dia 7 de abril, oito anos atrás, Lula foi preso depois de condenado ilegalmente por um ex-juiz parcial, para não disputar as eleições presidenciais. Mesmo assim, liderava as pesquisas e o PT, então presidido pela deputada Gleisi Hoffmann, ousou lançar sua candidatura ao Planalto. Disseram que era loucura e uma provocação à Justiça. Que o partido devia lançar um candidato palatável ao centro e que o próprio Lula seria prejudicado numa eventual tentativa de redução de pena ou mudança para a prisão domiciliar.
Faltando menos de um mês para a eleição, o TSE cassou o registro de Lula, contrariando a lei eleitoral e uma decisão vinculante da ONU. O PT lançou Fernando Haddad para substitui-lo. Disseram que o ex-prefeito nem chegaria ao segundo turno e que o partido deveria apoiar Ciro Gomes para não cair no isolamento político. Pois Haddad chegou ao segundo turno e fez 45% dos votos, nas condições que se recordam. Quem ficou estacionado em 12% foi Ciro, metido hoje numa aliança com o bolsonarismo no Ceará. Melhor seria o isolamento…
A derrota da Inglaterra, por deliberada covardia, me fez pensar onde estaríamos hoje se o PT tivesse desistido de concorrer, com Lula e com Haddad, em 2018. Se não tivesse feito da campanha Lula Livre sua razão de existir. Se Lula tivesse desistido de lutar até o fim por sua inocência, não aceitando trocar “a dignidade pela liberdade”, como declarou ao recusar um acordo com seus algozes em 2019. Se Lula e o PT tivessem desistido de escrever a própria história na hora amarga da derrota.
Não tenho dúvida de que, sem a ousadia e a determinação que mostraram no período mais difícil, nem Lula teria conseguido derrotar Jair Bolsonaro em 2022 nem o PT dirigido por Gleisi teria condições de aglutinar a aliança política e social que se formou em torno dele. Ousadia e determinação que faltaram aos ingleses e sobraram para Lionel Messi y sus hermanos em mais uma virada épica nesta Copa. Por isso a Argentina está na final e por isso o Brasil ficou livre de um segundo mandato do criminoso condenado Jair Bolsonaro.
Penso nisso agora, ao ouvir que o presidente Lula não deveria dizer em público que Donald Trump age como pirata e pensa que é imperador do mundo. Que não deveria provocar o presidente da poderosa nação do Norte, para não prejudicar o Brasil. Como se Lula não fosse presidente de um país soberano, dono de seu destino. Como se não fosse obrigação dele defender um país que já foi prejudicado por tarifas e sanções arbitrárias. Mirem-se no triste exemplo da seleção inglesa. O futebol e a política não perdoam a covardia.
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