Eduardo Bolsonaro (PL), atualmente residindo nos Estados Unidos, divulgou em seu canal no YouTube um vídeo que diz que está em negociação com aliados de Trump para transferir imigrantes brasileiros presos nos Estados Unidos — supostamente ligados a grupos criminosos — para uma prisão de alta segurança em El Salvador. Com informações do The Intercept Brasil.
O vídeo foi divulgado no canal Timeline, apresentado pelo blogueiro bolsonarista Allan dos Santos, no domingo, 11. Nele, o deputado deixa claras suas intenções: “Eu cheguei a fazer alguns contatos dentro da administração Trump com relação a isso, pra ver se a gente consegue também levar com que essas organizações criminosas brasileiras, seja dado a elas o tratamento de organizações terroristas nos Estados Unidos”, afirma Eduardo.
“E quem sabe […] identificar essa conexão com essas organizações criminosas, para que esses brasileiros bandidos cumpram suas penas nos presídios de El Salvador.”
No mesmo vídeo, Eduardo comenta que visitou duas vezes El Cecot — Centro de Confinamento do Terrorismo — e elogia as medidas enérgicas adotadas pelo presidente salvadorenho Nayib Bukele. “É algo realmente sensacional. Ali é cana braba”, relata. Para ele, essa prisão simboliza a transformação do país, que “era o mais violento do mundo em um dos mais seguros”.
Em 10 de maio, Eduardo Bolsonaro publicou no X (antigo Twitter): “Seria ótimo ver Trump mandando os piores criminosos do Brasil para cumprir pena na prisão do cara mais linha-dura do momento, Bukele”.
Relatórios de organizações internacionais, como Human Rights Watch (HRW), afirmam que o governo de Extrema Direita de Nayib Bukele está prendendo qualquer pessoa que se encaixe em características demográficas estereotipadas de membros de gangues, como ter tatuagens, antecedentes criminais ou até mesmo “parecer nervoso”.
Donald Trump seguiu a mesma linha, enviou para El Salvador imigrantes acusados de serem criminosos, sem apresentar provas.
Se a intenção de Eduardo Bolsonaro se concretizasse, brasileiros sem nenhuma conexão com crimes poderiam ser enviados para a prisão de El Cecot e morrerem lá dentro sem nenhuma assistência jurídica.
Vale ressaltar que o sistema prisional salvadorenho enfrenta acusações de abusos e tortura. No primeiro ano do estado de exceção, foram registradas 159 mortes em prisões, das quais 28 violentas.
Síndrome de Guaidó
Eduardo Bolsonaro não tem legitimidade para negociar nada em nome do Brasil. Ele está licenciado do mandato de deputado federal, portanto nem é deputado. Com essa ideia de negociar a prisão de brasileiros em El Salvador, Eduardo Bolsonaro também desfia a justiça dos Estados Unidos que já proibiu o governo Trump de usar a Alien Enemies Act, lei de 1798 que permite deportações rápidas em tempos de guerra. Foi apegado a esta lei que Donald Trump enviou mais de 230 venezuelanos para o CECOT, sem julgamento, baseando-se apenas em tatuagens — prática criticada por especialistas.
Deputado licenciado do mandato quer mandar mais que o presidente da República e a Constituição do Brasil. O governo Trump mandou autoridades ao Brasil para tentar uma ” cooperação”no combate ao crime organizado. Em maio, David Gamble, coordenador interino de sanções do Departamento de Estado, esteve em Brasília para reuniões bilaterais. Para isso, as organizações criminosas do Brasil teriam que ser classificadas como organizações terroristas, o que contraria a legislação brasileira que estabelece que “o terrorismo consiste na prática por um ou mais indivíduos dos atos previstos neste artigo, por razões de xenofobia, discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia e religião, quando cometidos com a finalidade de provocar terror social ou generalizado, expondo a perigo pessoa, patrimônio, a paz pública ou a incolumidade pública”. Lei n° 13.260 (de 16 de março de 2016)
O governo Lula rejeitou formalmente a proposta de classificar essas facções como grupos terroristas. “Não temos organizações terroristas aqui. Temos organizações criminosas que se infiltraram na sociedade”, declarou o secretário nacional de Segurança Pública, Mário Sarrubbo, à agência Reuters.
Mesmo com o posicionamento brasileiro, Eduardo Bolsonaro defende que os EUA podem prosseguir com o plano por conta própria. “Mesmo que o governo Lula não queira, os americanos podem fazer como fizeram com o Tren de Aragua, que é o PCC da Venezuela”, escreveu nas redes sociais.
Os EUA usam a tal cooperação internacional de combate ao terrorismo em território da geopolítica norte-americana. Na verdade alegam combater terrorismo para justificar presença militar na América do Sul.
O professor aposentado da Universidade de Brasília que assumiu a função de adido cultural no Consulado Geral do Brasil em Frankfurt, na Alemanha, Luiz Alberto Moniz Bandeira esclarece: “Para manter em funcionamento uma indústria bélica nacional, os Estados Unidos precisam espalhar pelo mundo soldados e bases militares. Combater o terrorismo é uma besteira. O terrorismo não é uma ideologia, não é um Estado. É uma ferramenta de luta, é um método que todos usaram ao longo da história. O que eles querem combater agora é o terrorismo islâmico. Mas por que surgiu esse fenômeno do terrorismo islâmico? Com a presença dos EUA na Arábia Saudita ocupando os lugares sagrados, por exemplo. Antes disso, ainda, Os EUA insuflaram o terrorismo islâmico contra os soviéticos, no Afeganistão. Começou aí”. Leia Mais
Cooperação militar
As interações militares entre o Brasil e os Estados Unidos remontam à Segunda Guerra Mundial, quando o Brasil se alinhou com os Aliados e permitiu que tropas americanas operassem em bases aéreas e navais em seu território, como parte dos esforços de guerra. Agora, em 2025, o governo Trump reivindica o uso irrestrito do Aeroporto de Fernando de Noronha (SBFN) e da Base Aérea de Natal (BANT), no Rio Grande do Norte, sob o argumento de “direito histórico de retorno operacional”, sob a alegação de retorno pelos investimentos realizados no local durante a Segunda Guerra Mundial e o período da Guerra Fria. O direito histórico de retorno foi usado para o Canal do Panamá, onde reivindicou o controle técnico-operacional da estrutura interoceânica.
Em 2019, primeiro ano do governo Jair Bolsonar (PL), o Brasil e os Estados Unidos assinaram acordos de cooperação em segurança para combater o crime organizado transnacional, envolvendo o Ministério da Justiça e Segurança Pública do Brasil, o FBI e o Departamento de Segurança Interna dos EUA.
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