Vanessa Mendonça, jornalista e mestre em mídias criativas pela UFRJ, diz que foi o cabelo que a fez ter a percepção da sua raça. “Passei a minha infância inteira alisando o cabelo. Hoje, eu deixei crescer, cuido muito dele, mas ainda faço química quando necessário. Acho que o que a gente precisa entender é a liberdade.”
“Somos livres”
Ao longo dos anos, a autora do artigo Encaracolando as Ideias: Os Cabelos como Ferramenta de Liberdade foi entendendo que o cabelo é algo profundo para a população negra por ser um traço muito forte da identidade racial.
“A mulher negra é livre para fazer o que quiser com o próprio cabelo, desde que tenha consciência das escolhas. Por que precisamos sair de uma caixinha para entrar em outra? Não. Precisamos ser livres para usar o cabelo do jeito que quisermos”, relata Vanessa.
A importância da representatividade
Questionada sobre como a sua luta fortalece a representatividade, Adriana responde ao Metrópoles: “Sendo referência para muitas pessoas. Eu, mulher negra, com mais de 45 anos, empresária e livre dos paradigmas impostos pela sociedade, uso meus cabelos crespos, loiros, curtos e volumosos”.
Adriana viveu muitas experiências marcantes como especialista em beleza negra. Uma delas envolveu uma cliente que sofreu um corte químico e precisou cortar os fios bem curtos. Ela não se sentiu bem com a mudança, especialmente por estar acima do peso, o que a levou a iniciar um processo de emagrecimento.
“Nesse caminho, ela descobriu várias doenças causadas pela obesidade e, meses depois, tornou-se atleta de corrida, deixando para trás o sedentarismo, enquanto os cabelos foram crescendo e ganhando forma. Se não tivesse tomado a atitude de cortar o cabelo, talvez sua vida não teria mudado”, relata Adriana.
Juliana Cardoso também compartilha como seu trabalho ajuda a mudar vidas: “Eu me lembro de uma cliente que chegou muito pra baixo. Conversamos e escolhemos um estilo que combinava com ela. Quando terminei e ela se viu no espelho, abriu um sorriso enorme, disse que se sentia renovada, mais leve e muito mais bonita.”
Valorização do cabelo natural
De acordo com a jornalista Vanessa Mendonça, o movimento de valorização do cabelo natural é importante para reforçar a beleza e a identidade negra, combatendo o racismo que historicamente associou o cabelo natural à feiura.
No entanto, ela enfatiza a liberdade de escolha: “Ninguém deve ser julgado por alisar o cabelo, por exemplo. A conscientização e a liberdade de usar o cabelo como quer são os pontos-chave”, finaliza Vanessa.