Entidades lançam Frente em Defesa do Orçamento Público contra as emendas parlamentares

Entidades lançam Frente em Defesa do Orçamento Público contra as emendas parlamentares

Movimento pretende  organizar uma agenda permanente de debates e mobilizações sobre o orçamento público

Cerca de 25 organizações e entidades da sociedade civil lançaram, no último dia 9, a Frente em Defesa do Orçamento Público, contra o modelo atual de emendas parlamentares. O lançamento da Frente ocorreu no Centro Cultural da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), com a presença de juristas, parlamentares, lideranças sociais e representantes de entidades.

O movimento pretende organizar uma agenda permanente de debates e mobilizações sobre o orçamento público. Segundo representantes da Frente, nos últimos dez anos, as emendas parlamentares passaram de instrumento complementar do orçamento para um mecanismo que movimenta mais de R$ 50 bilhões por ano, ampliando significativamente a participação do Congresso Nacional na execução de políticas públicas.

A Associação Juízas e Juízes para a Democracia, uma das entidades que participam da frente, decidiu ingressar como amicus curiae na ADI 7697, ação protocolada no Supremo Tribunal Federal (STF), pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) em agosto de 2024, que questiona a constitucionalidade do modelo atual de emendas parlamentares.

O presidente da Associação Mães e Pais pela Democracia, Júlio Sá, informou que novas entidades podem aderir à Frente. No evento de lançamento do movimento, o procurador do Estado aposentado Jacques Alfonsin criticou o modelo atual de emendas parlamentares. “As emendas são um roubo — este é o nome. Senadores e deputados tornam-se agenciadores de verba pública. É preciso gerar uma indignação ética para mudar isso”, afirmou.

A advogada e jurista Soraia Mendes também criticou o modelo. “O Legislativo não deveria gerir recurso público. Isso é uma distorção”, afirmou. Para ela, o sistema de emendas alimenta estruturas clientelistas dentro dos partidos e dificulta a renovação política, reduzindo o espaço para novas candidaturas e para a ampliação da representação de mulheres e minorias.

O evento de lançamento da frente contou com a participação de políticos, como o ex-governador do Rio Grande do Sul Tarso Genro (PT), que avaliou que as emendas parlamentares configuram uma mudança estrutural no sistema político brasileiro. “As emendas são uma forma inovadora e complexa de imposição de um sistema parlamentarista atípico e perverso”, afirmou.

Segundo o ex-governador Olívio Dutra (PT), o atual sistema de emendas não pode ser naturalizado. “É uma agressão ao Estado de Direito republicano e à Constituição brasileira”, afirmou. “O dinheiro público deve servir ao interesse público, não ao interesse privado.”

O ex-prefeito de Porto Alegre Raul Pont (PT) afirmou que o modelo atual contribui para o enfraquecimento do sistema partidário. “As emendas destroem os partidos políticos e os transformam em instrumentos de clientelismo.” Para a deputada federal Maria do Rosário (PT-RS), o mecanismo faz parte de um processo mais amplo de desestruturação das funções públicas do Estado.

Emendas parlamentares

Segundo o ICL, o  orçamento da União de 2026 aprovado pelo Congresso prevê cerca de R$ 61 bilhões em emendas parlamentares, somando emendas individuais, de bancada e de comissão. Desse total, aproximadamente R$ 37,8 bilhões são emendas impositivas, cujo pagamento é obrigatório pelo governo federal.

No Orçamento de 2025, o volume total de emendas ficou em torno de R$ 50 bilhões, consolidando a expansão desse instrumento nos últimos anos. Em 2024, os recursos movimentados por emendas chegaram a R$ 45,8 bilhões, após uma expansão de 321% desde 2014, segundo estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

O crescimento mais acelerado ocorreu entre 2020 e 2023, período marcado pela criação das emendas de relator (RP9), conhecidas como “orçamento secreto”, quando o valor médio anual saltou para R$ 35,5 bilhões.

Entidades proponentes da Frente

  • ABJD- Associação Brasileira de Juristas pela Democracia
  • ACESSO-Acesso Cidadania e Direitos Humanos
  • ADUFRGS–Sindical- SINDICATO Intermunicipal das Instituições Federais de Ensino Superior do RS
  • AJURD – Juristas pela Democracia
  • AMPD- Associação Mães e Pais pela Democracia
  • Associação Juízas e Juízes para a Democracia
  • ATEMPA – Associação dos Trabalhadores/as em Educação do Município de Porto Alegre
  • CEAPE – Sindicato dos Auditores de Controle Externos do TCE – RS
  • Cidadania –Associação de Defesa dos Direitos do Cidadão
  • Comitê pela Democracia e pelo Estado Democrático de Direito
  • Comitê Popular Esperançar
  • CPERS –Centro de Professores do Estado do RS
  • CTB – Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil
  • CUT – Central Única dos Trabalhadores /RS
  • Fórum Social das Periferias de Porto Alegre
  • INP-Instituto Novos Paradigmas
  • IJF-Instituto da Justiça Fiscal
  • RENAP- Rede Nacional de Advogados Populares
  • SAERGS-Sindicato dos Arquitetos e Urbanistas do Estado do RS
  • SIMPA –Sindicato dos Municipários de Porto Alegre
  • SINDIJUS- Sindicato dos Servidores da Justiça do Estado do RS
  • SINPRO – Sindicato dos Professores do Ensino Privado do Rio Grande do Sul
  • SINTRAJUFE – Sindicato dos Trabalhadores do Judiciário Federal do   Ministério Público da União
  • Sindicato dos Servidores e Empregados Públicos Federais do RS
  • UFRGS/Conexões UFRGS – Comunidades

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