Para que um quarto mandato?

Para que um quarto mandato?

Mais importante serão as transformações pendentes no país, que o Lula terá que assumir a responsabilidade de implementar

Lula se candidata à reeleição e tem todas as possibilidades de ganhar, até mesmo no primeiro turno.

Um quarto mandato, para que? Claro que, antes de tudo, para impedir que a direita volte a governar o Brasil. Ninguém como o Lula tem favoritismo para derrotar a todos os eventuais adversários, de centro e de extrema direita.

Em segundo, para dar continuidade às políticas sociais, fundamentais para combater as desigualdades que ainda sobrevivem fortemente no Brasil.

Em terceiro lugar, para terminar com o analfabetismo no Brasil. Um analfabeto – e eles ainda são dezenas de milhões, entre analfabetos e analfabetos funcionais – não consegue se tornar cidadão. Não consegue ler, para aprender os direitos que a Constituição lhe outorga e encontrar as formas de consegui-los.

Hoje a grande maioria dos analfabetos são mulheres idosas, pobres. Um novo mandato do Lula não pode conviver com essa situação, ainda mais no país do Paulo Freire e dos seus métodos de alfabetização.

Um novo mandato do Lula tem que se colocar como um dos seus objetivos fundamentais fazer do Brasil um território livre do analfabetismo.

Poderia mobilizar a grande quantidade de estudantes, antes de tudo para pesquisas onde se encontram essas dezenas de milhões de analfabetos. Abordá-los, convencê-los das vantagens de se alfabetizar, encontrar as linguagens e as palavras básicas para alfabetizá-los.

Esse objetivo tem que ser paralelo à necessidade de superar o capital financeiro e suas modalidades especulativas como eixo da economia brasileira, valendo-se das altas taxas de juros. Se trata de um objetivo fundamental da política econômica de um novo governo Lula: encontrar uma politica econômica que não tenha mais que conviver com as taxas de juros mais altas do mundo, que alimenta o capital especulativo.

Além disso, um quarto mandato do Lula precisa formular um projeto estratégico para o Brasil, mais além do neoliberalismo, retomando projetos de desenvolvimento, adequados às condições do país nesta primeira metade do século XXI. Que tipo de Estado precisamos, que tipo de sociedade, que tipo de inserção na América Latina e no mundo.

Mas para que tudo isso seja possível, além da reeleição do Lula, precisamos de um Congresso muito diferente do atual. E sabemos que se a eleição para presidente é muito politizada, o mesmo não acontece com a eleição para o Parlamento,

Esta é uma tarefa fundamental também. Politizar a definição dos candidatos e suas campanhas, a ponto que tenhamos um Congresso coerente com o Executivo.

Enfim, ganhar um quarto mandato para o Lula representa não apenas um recorde, pela primeira vez um presidente chega a ter quatro mandatos no Brasil. Porém, mais importante serão as transformações pendentes no país, que o Lula terá que assumir a responsabilidade de implementar.

Por Emir Sader

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