A polícia catarinense prendeu em flagrante Amanda Maria com 37 anos, por estelionato e falsa identidade. A mulher se passava por adolescente com autismo para ser sustentada
Amanda aplicou o mesmo golpe em diversos estados. De acordo com as investigações, ela teria repetido o mesmo roteiro em pelo menos cinco estados brasileiros. A mulher costumava procurar igrejas e entidades assistenciais alegando ter fugido de uma rede de exploração sexual infantil e dizendo precisar de proteção e ajuda.
Belo Horizonte (MG)- 2017
Amanda Maria se passou por uma menina autista de 12 anos para conseguir abrigo e assistência em Belo Horizonte (MG). Segundo a responsável por uma instituição de acolhimento da capital mineira, a suspeita viveu por cerca de três anos no local usando outro nome e uma história falsa para convencer funcionários e voluntários de que era uma criança vítima de violência.
Em Belo Horizonte, a história começou em 2017, quando Amanda apareceu em uma casa de acolhimento voltada para crianças, adolescentes e mulheres vítimas de violência. Na época, ela afirmou ter 12 anos de idade. Sensibilizada com o relato, a instituição a recebeu e passou a acompanhá-la. No entanto, conforme revelado posteriormente, ela já tinha 29 anos naquele período.
Segundo a diretora da entidade, Amanda apresentava diversos comportamentos para sustentar a farsa. Ela falava com voz infantilizada e mantinha atitudes típicas de uma criança. Em outros locais por onde passou, também chegou a usar mamadeira, chupeta e paninhos para dormir.
A responsável pelo abrigo contou que a suspeita costumava desaparecer sempre que era questionada sobre documentos ou detalhes de sua história. Depois, retornava ao local e retomava a rotina normalmente. A situação se prolongou por cerca de três anos.
O episódio que despertou maior desconfiança ocorreu durante um período de recesso da instituição. Como o abrigo ficaria fechado temporariamente, Amanda foi acolhida na casa da diretora. Após alguns dias de convivência, quando foi informada de que precisaria retornar ao abrigo porque a família viajaria, ela teria mudado completamente de comportamento.
Segundo o relato, a mulher passou a agir de forma agressiva, quebrou objetos da residência e fez ameaças. A diretora afirmou que ficou assustada com a reação e percebeu que a personalidade apresentada até então era muito diferente daquela que surgiu naquele momento. Depois do episódio, Amanda deixou o local e o contato foi perdido.
A verdadeira identidade da mulher só veio à tona anos depois. A diretora recebeu documentos, incluindo uma certidão de nascimento, que mostravam que Amanda nasceu em 10 de junho de 1988. Atualmente, ela está prestes a completar 38 anos.
Apesar das suspeitas de fraude e falsidade ideológica, a responsável pela instituição acredita que o caso também pode envolver questões psicológicas. Segundo ela, Amanda apresentava comportamentos delicados, como episódios de automutilação, e relatava um histórico de abusos e sofrimento desde a infância.
Rio de Janeiro- 2023
No Rio de Janeiro, em 2023, ela era “Duda”, e passou um mês sob cuidados de Renata Magalhães e Viviane Henriques, 45 anos, diretora de um projeto social. As duas amigas costumam acolher crianças vítimas de abuso e com autismo.
“A gente não olhava para a mulher, mas para a história que ela contava.” É assim que Renata Magalhães, uma nutricionista de 52 anos do Rio de Janeiro, explica como ela foi enganada em 2023 durante um mês por uma mulher de 34 anos que dizia ser uma adolescente de 12 com autismo.
Viviane conta que o primeiro contato com “Duda” foi por meio da página do projeto social “Mãos que abençoam com amor”, mantido por ela.
A mulher dizia ser uma adolescente que escapou de uma rotina de abusos no Ceará, segundo Viviane, vítima de um pai “bruxo” que a obrigava a se prostituir e, por isso, recebia hormônios para amadurecimento do corpo.
Ela diz que “Duda” afirmava ter pegado caronas com caminhoneiros até chegar a Magé, na Baixada Fluminense.
Viviane e Renata dizem que foram, então, resgatá-la. De volta a Nova Iguaçu, onde moram, alugaram e mobiliaram um pequeno apartamento para ela morar.
“Quando ela contou a história, me apavorou muito, porque eu já lido com esse tipo de situação”, diz Viviane.
“As pessoas acham absurdo acreditar. Mas, pessoalmente, ela aparentava ser adolescente, sempre com casaco e capuz. Ela alegava ter autismo e tinha uma fala muito infantilizada. Ficamos com o coração na mão.”
Viviane e Renata dizem ter cuidado de Amanda por um mês como uma adolescente e que foram criando uma relação emocional com ela.
“Eu dei carinho, afeto, comida. Não tinha como desconfiar”, conta Renata, quem mais se apegou a “Duda”.
As duas amigas contam que Amanda agia de forma infantilizada: pedia mamadeira, chupeta e comidas de criança. Mas não pedia dinheiro.
Ela também tinha agulhas enfiadas pelo corpo. As duas amigas dizem que chegaram a levá-la para fazer um exame de raio-X, que constatou mais de 200 agulhas.
“Saía até da boca, era assustador”, diz Renata. Amanda dizia, segundo as duas amigas que a acolheram, que as agulhas foram inseridas por seu pai “bruxo” em rituais.
Renata relata que Amanda também pedia para não ser levada ao conselho tutelar, por medo de ser mandada de volta ao Ceará.
A desconfiança começou quando “Duda” passou a ter comportamentos diferentes com Renata e Viviane.
Renata diz que, com ela, Amanda tinha “crises” e ameaçava se machucar caso não a tivesse por perto, exigindo a presença constante.
“Ela acabou com minha saúde mental, minha vida financeira. Ela me tirou de perto dos meus filhos, fazendo pressão psicológica”, lembra Renata, que chegou a dormir na casa da “adolescente” para agradá-la.
Com Viviane, ela agia normalmente. A desconfiança foi crescendo, e as duas mulheres resolveram procurar policiais para investigar se a história era verdadeira.
A delegada Mônica Areal descobriu a farsa e prendeu Amanda em flagrante por estelionato, falsa identidade e falsidade ideológica. Amanda confessou os crimes, segundo Areal, mas foi solta após uma audiência de custódia.
A delegada diz à BBC News Brasil que é “difícil” manter pessoas presas nesse caso, porque o crime de estelionato é encarado na Justiça como não tendo emprego de violência ou grave ameaça.
No histórico de pesquisa do celular de Amanda, a polícia encontrou buscas sobre “como um autista se comporta” e “como fazer desenhos como se fosse uma vítima de abuso”.
Areal conta ainda que se deparou com outra investigação, em São Paulo, que fez um exame de idade óssea dela, provando que Amanda não era criança. Não foram feitos testes psicológicos.
A Justiça do Rio de Janeiro acatou a denúncia do Ministério Público, e a mulher hoje é ré em um processo no Estado.
Na quarta-feira (03/06), as mãos de Renata gelaram e a garganta secou quando ela viu que a história que ela viveu se repetiu, dessa vez em Santa Catarina.
Joinville, Santa Catarina-2026
Em Santa Catarina, segundo a polícia, “Duda” virou Gabriele. Com esse outro nome falso, Amanda passou 14 meses morando com uma família, também fingindo ser uma adolescente.
O roteiro foi parecido, de acordo com a investigação. Para sustentar o disfarce ao longo de 14 meses e ganhar a confiança de uma família, ela também alegava ter autismo.
“Ela justificava sua aparência física adulta argumentando que seus traços eram decorrentes do uso forçado de hormônios durante a infância”, disse a polícia em nota.
“Além disso, para reforçar o papel de criança, a suspeita mantinha comportamentos infantilizados, utilizando rotineiramente chupetas, mamadeiras e objetos lúdicos.”
Segundo o delegado Rodrigo Bueno Gusso, responsável pela investigação, a Polícia Civil foi procurada pela família na semana passada, após serem alertados por uma parente de que estariam sendo enganados.
“Havia uma tia dessa família que a acolheu, que nunca acreditou nessa história nem nesse comportamento infantilizado”, relatou Gusso à BBC News Brasil.
“Ao realizar pesquisas na internet, ela descobriu que havia ocorrido um crime muito parecido no Rio de Janeiro, anos atrás, e suspeitou que pudesse se tratar da mesma mulher.”
Ao trocar informações com polícias de outros Estados, o delegado confirmou que se tratava da mesma pessoa.
Segundo Gusso, ao ser presa, Amanda confessou o que estava fazendo. Ela afirmou que sabia que sua conduta era errada e que costumava mentir de forma habitual.
“Ela não apresentou nenhuma característica que pudesse indicar inimputabilidade penal. Mostrou-se muito racional, colaborativa e com um raciocínio bastante lógico”, afirma o delegado.
Gusso diz que a prisão temporária foi convertida para preventiva, e Amanda foi encaminhada ao Presídio Regional de Joinville.
O advogado que fez a defesa de Amanda em Santa Catarina informou à BBC News Brasil que ela “permanece à disposição da Justiça em razão da decisão que converteu a prisão em flagrante em prisão preventiva e da necessidade de realização do exame pericial já determinado”.
“A defesa aguarda a conclusão da perícia técnica, que poderá contribuir para o adequado esclarecimento das circunstâncias relacionadas ao caso e para a adoção das medidas processuais cabíveis.”
Na audiência de custódia em Joinville, em que sua prisão foi mantida, Amanda reconheceu os delitos.
O advogado que a representou, Rafael Luiz Siewert, informou à BBC News Brasil que solicitou à Justiça um exame de sanidade mental para “avaliação de sua condição psíquica”. O pedido foi deferido, e o exame será realizado pela Polícia Científica.
Veja o vídeo
Segundo a polícia, Amanda também já havia aplicado o mesmo golpe também em São Paulo, Rio Grande do Sul e Goiás.
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