Epidemia de violência e falta de estrutura nas escolas provocam adoecimento em massa de professores no Brasil

Epidemia de violência e falta de estrutura nas escolas provocam adoecimento em massa de professores no Brasil

Levantamento revela que 65% dos docentes já sofreram agressões no ambiente escolar. Casos extremos envolvem ameaças de morte, mutilação e falta de amparo a alunos com deficiência

 Uma grave epidemia de violência contra educadores atinge as escolas brasileiras, resultando no afastamento em massa de profissionais por problemas de saúde mental, mutilações físicas e episódios de pânico. O quadro reflete uma combinação de agressões verbais e físicas, precarização das condições de trabalho, falta de suporte para a inclusão de pessoas com deficiência (PCDs) e perseguição política, informa reportagem da BBC News Brasil.

A dimensão do problema é respaldada por estatísticas oficiais e levantamentos de entidades da categoria. Uma pesquisa realizada pelo Centro do Professorado Paulista (CPP) com 1.144 professores revelou que 65% dos entrevistados já sofreram algum tipo de agressão em sala de aula ou no ambiente escolar. A violência verbal lidera o ranking de ocorrências, presente em 71% dos casos, seguida pela violência psicológica e moral (58%), institucional (27%) e física (19%).

Em âmbito internacional, o cenário do país também é alarmante. Um levantamento promovido pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que ouviu 280 mil professores e diretores de escola em 55 países, colocou o Brasil na liderança do ranking de violência contra professores. Segundo o estudo, 47% dos educadores brasileiros relatam ser vítimas de intimidação ou abuso verbal por parte dos alunos como fonte primária de estresse, índice substancialmente superior à média global, que é de aproximadamente 18%.

Ameaças de morte e desamparo institucional

Os relatos individuais expõem o trauma vivenciado no cotidiano das salas de aula. A professora Marta (nome fictício), que acumula 26 anos de magistério em uma escola municipal na Zona Oeste de São Paulo, teve que mudar sua rotina após ser ameaçada de morte pelo pai de um aluno de 6 anos no primeiro ano do ensino fundamental.

O agressor, conhecido por sua ligação com o crime na comunidade, culpava a docente pela dificuldade de adaptação e pelo desempenho do filho. Marta soube da ameaça por meio da coordenadora da escola e registrou um boletim de ocorrência acompanhada apenas pelo marido.

“Passei a noite na delegacia e me senti muito sozinha, não teve ninguém da gestão junto comigo”, relatou Marta.

Afastada da unidade e atendida por uma psiquiatra, a professora enfrentou episódios graves de pânico: “O meu quarto tem uma vidraça na frente, e eu cheguei a pedir para meu marido para trocar de quarto, porque achava que poderia sofrer alguma agressão. Fiquei com pânico de dormir”.

Casos de hostilidade física direta também são recorrentes. O professor Pedro, de 40 anos, atuante no bairro de Santana, na Zona Norte de São Paulo, foi agredido com um soco no peito por um aluno com autismo durante uma atividade escolar sobre o Dia do Orgulho LGBTQIAP+. Segundo o docente, o estudante frequentava fóruns de extrema-direita e reagiu com agressividade ao tema. Pedro optou por não se afastar via Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT) por temer que o retorno à rotina se tornasse inviável no futuro.

Falta de estrutura para inclusão resulta em mutilação

A ausência de infraestrutura e de profissionais de apoio habilitados para acompanhar estudantes neurodivergentes e com deficiência na rede pública tem escalado para acidentes graves. Na Zona Leste de São Paulo, a professora Michelle Bernardes teve o dedo médio da mão direita parcialmente decepado durante uma crise de desregulação emocional de um aluno com deficiência intelectual.

Ao tentar proteger os demais estudantes no corredor, Michelle posicionou-se na porta da sala, momento em que o aluno chutou o equipamento, atingindo a mão da educadora. O membro foi amputado pelo impacto. A professora já passou por duas cirurgias e aguarda a cicatrização para iniciar a fisioterapia.

“Passo por uma dor individual, que estou tendo que trabalhar comigo, e uma dor coletiva, pois não desejo que nenhum estudante e nenhum educador passe pelo o que eu estou passando. O estudante não tem culpa por ter se desregulado, é um estudante com deficiência. Mas precisamos urgentemente de políticas públicas que incentivem e auxiliem com qualidade a presença de todos os estudantes nas escolas”, afirmou Michelle à BBC News Brasil.

Em outro caso recente de repercussão pública, a professora Michele Ramos, do município de São José dos Campos, registrou um boletim de ocorrência após alunos colocarem uma lâmina de vidro dentro de seu copo de água durante uma aula.

As múltiplas dimensões da violência

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