O parasitismo financeiro

O parasitismo financeiro

Muito além do caso Master, o que nos desafia é o sistema improdutivo de apropriação de excedente social, daquilo que a sociedade produz, por pessoas ou grupos, que podemos qualificar de parasitas

Nós devemos a Ladislau Dowbor a melhor compreensão da financeirização da economia, um fenômeno econômico contemporâneo fundamental.

Ele aborda agora, em artigo publicado no Le Monde Diplomatique, o caso do Banco Master. Neste caso, segundo ele, é evidente que quando um governo combate a corrupção, ela vem à tona porque é revelada, enquanto o governo corrupto, que a gerou e tolerou, fez o tema sumir do mapa.

As fortunas, como as de Jorge Lemann, continuam, mas as bandidagens em outra escala têm suficiente força para torná-las legais. Para termos consciência da dimensão do problema, os juros de 15% sobre a dívida pública representam um gigantesco dreno sobre nossos impostos, da ordem de um trilhão de reais, cerca de sete vezes o bolsa família.

E é perfeitamente legal, pois os bancos conseguiram tirar o artigo 192 da Constituição, que caracterizava os juros acima de 12% ao ano como “crime de usura punível nos termos da lei”. Tiraram a lei que os qualificava como bandidagem. Assim, não estamos enfrentando apenas o caso do Banco Master, mas um sistema generalizado de descontrole financeiro.É compreensível que Donald Trump se irrite com nosso modesto Pix, porque estamos atingindo seu poder de emissão. Tudo o que seja desdolarização irrita a Trump. Ele prefere que façamos as compras pagando com Visa, MasterCard, American Express, que geram imensos lucros para os Estados Unidos. Enquanto o Pix é de graça. A era do dinheiro imaterial permite microdrenagem, que não é fraude, é “intermediação financeira”.O dreno, por meio de dividendos, atinge a nata das empresas brasileiras, em particular o sistema financeiro, por meio do Itaú, Bradesco e outros. A soma dos lucros dos bancos Itaú, Bradesco, Banco do Brasil e Santander atingiu um recorde em 2021, chegando à faixa dos 81.631 bilhões de reais, um aumento de 32,5% em relação ao ano anterior. Um lucro desse porte é extorsão, basicamente um pedágio que temos de pagar, porque o nosso dinheiro, de nossos depósitos, está na mão deles.A taxa de juros anual nos países da OCDE é da ordem de 4% a 6%. Na Europa, o limite para um empréstimo ser qualificado de crime de usura é da ordem de 9% ao ano.

Aqui, a corrupção, a partir de um certo nível, torna-se sistêmica. As empresas que compram ou financiam os políticos são mais limpas? pergunta ele. Quanto mais ricos os personagens, mais eles tem espaço para enriquecer e, inclusive, para se sentir acima da lei.

Muito além do caso Master, o que nos desafia é o sistema improdutivo de apropriação de excedente social, daquilo que a sociedade produz, por pessoas ou grupos, que podemos qualificar de parasitas, que não só enriquecem sem contribuir, como também deformam a governança e travam o desenvolvimento.

Sociedades mais igualitárias crescem mais rápido e de forma mais sustentável do que as menos iguais e tem maior mobilidade social.

O Brasil aparece como o pais mais desigual do planeta em termos de riqueza. Na lista dos 300 bilionários da Forbes, contam-se nos dedos os que fazem algo de útil. Drenam. Mas de preferência de forma legal. E ficam chocados quando alguém ultrapassa a linha.

Por Emir Sader

Veja também

Dos games ao escândalo: milhões em emendas foram parar no centro de investigação da PF

Dos games ao escândalo: milhões em emendas foram parar no centro de investigação da PF

Projeto de inclusão digital no DF passou a ser investigados por suspeitas de superfaturamento e …